Sakineh pede que o filho não veja sua morte

Pedro do Coutto

Em entrevista ao Jornal inglês The Guardian, feita através de um intermediário (é claro) não identificado, Sakineh Ashtiani, a iraniana condenada à morte pela pena milenar de apedrejamento, infame herança das trevas do passado, afirma que o governo de Teerã mente ao acusá-la de assassinato, uma vez que foi absolvida desse processo. A acusação que desaba contra ela é apenas de adultério. Está presa desde 2006, já levou 99 chibatadas, e faz um apelo para que seu filho não assista sua morte.

A entrevista de Sakineh foi traduzida pela Folha de São Paulo e publicada na edição de 7 de agosto. Comovente o apelo de uma condenada à execução bárbara, usada no Oriente Médio ao tempo de Jesus Cristo. Inclusive uma das provas históricas que a crucificação foi um desfecho do invasor romano na Judeia, e não uma condenação do Sinédrio Judaico, está no fato de que se a execução fosse aplicada pelos judeus, aí sim, seria o apedrejamento. O próprio Cristo, inclusive, tinha evitado o apedrejamento de Madalena. A afirmação é clássica e atravessa os séculos, eternizando-se: quem não tiver culpa, atire a primeira pedra.

Deixando o passado remoto e retornando ao presente, verifica-se o grau de extremo atraso que marca a vida no Irã. País cujo governo aproxima-se de produzir uma bomba atômica, mas que mata cruelmente prisioneiros condenados pelo arremesso de pedras. A morte, diz a lei, não pode ser rápida de mais. O festim macabro tem que durar pelo menos uma hora marcada pelo duro sofrimento dos condenados. Sakineh, se não escapar da morte, como no Brasil, por exemplo, escapou o integralista Melo Mourão, condenado a fuzilamento pelo Tribunal de Segurança Nacional da ditadura Vargas, terá traumatizado o mundo, acrescentando à execução o apelo comovente para que o filho não esteja presente a sua deformação pelas pedras do absurdo e da extrema violência. Pena de morte para um caso considerado como adultério, todos hão de reconhecer, é um exagero da Teocracia. Ainda por cima porque no país de Amedinejad adúltera é só a mulher, não o homem. Incrível.

Para se ter ideia do absurdo das trevas e do terror que emolduram o Irã, antiga Pérsia, basta acrescentar que o advogado de Sanineh, Mohamad Mostafaei, teve que fugir para a Turquia para não ser preso. Detido em Istambul, segundo a FSP de 9 de agosto, conseguiu obter asilo na Noruega e rumou para Oslo. Na sua ausência , autoridades policiais prenderam sua mulher, Feresteh Halimi, e até a filha do casal de sete anos. A Teocracia iraniana, quanto a Halimi e a criança, tiveram que voltar atrás e libertá-las. Halimi espera  poder viajar para a Noruega. Por aí observa-se também o grau extremamente negativo dos direitos humanos no Irã. O advogado e sua família são acusados de quê, afinal?

Relativamente a Sakineh, existe uma esperança para que possa transformar-se em personagem moderna de Bresson, que dirigiu o filme “Um condenado à morte escapou”, um clássico de pouco mais de 50 anos do cinema francês. Mas, para isso, há necessidade de um movimento mundial capaz de tornar impossível, pela atmosfera que produzir, o apedrejamento da adúltera do século 21. O ditador presidente Mahmoud Amedinejad, claro, vai protelar a questão visando negociar ao máximo uma solução que possa favorecê-lo politicamente. Sim. Porque as imagens da execução de Sakineh, as quais inevitavelmente acabariam divulgadas, vão revoltar o Ocidente e, com isso, tornar mais vulnerável a posição tanto do país quanto do ditador que mantém as trevas do passado sobre a tenda misteriosa de seu governo.

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Quanto ao artigo do dia 10, sobre o atendimento médico, agradeço ao leitor  José Antonio por ter me lembrado que pressão alta é algo crônico, e ao mesmo tempo dizer que a referida senhora toma remédio diariamente para pressão, prescrito por médico, e que a sugestão de usar sanguessuga no hospital, se comprovada cientificamente. por que não?

A proveito para agradecer a maneira como fomos tratadas no CARDIOTRAUMA de Ipanema, que a medicou , e onde ela ficou por seis horas seguidas.

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