Salário não produz inflação; reajuste vem sempre depois dela

Pedro do Coutto

Está absolutamente correto o raciocínio colocado pela Confederação dos Trabalhadores do Brasil – reportagem excelente de Wagner Gomes, O Globo de terça-feira – , de que os reajustes de salários não geram inflação, ao contrário do que propositalmente  sempre sustentam os tecnocratas da administração pública. Que, no fundo, procuram assim obter um passaporte para ingressar nas grandes corporações. Para isso não há melhor caminho do que, repetindo Eça de Queiróz, lançar sobre a realidade o manto diáfano da fantasia.

Fantasia pura envolta em forte dose de cinismo. Claro que os salários não produzem a inflação. Seus reajustes não antecedem, e sim sucedem, os índices inflacionários, sejam eles os do IBGE ou os da Fundação Getúlio Vargas. Como então atualizar os valores do trabalho humano pode causar inflação? Não é possível. Sustentar tal absurdo, que vem se perpetrando, é reviver a fábula do lobo e do cordeiro no século 21. A afirmativa não pode ser aceita. Só pelos interessados na ilusão que, pensando no capital, hipnotizam a si mesmos. E vão, através do tempo, subindo sempre os degraus da redundância.

Basta ver o seguinte: a inflação do IBGE, para o período maio de 2010 a maio de 2011, é de 6,5%. Este ano ela já subiu 3,1%. A reportagem de Wagner Gomes focaliza as reivindicações de pelo menos sete milhões de assalariados a serem lançados no segundo semestre, de acordo com as datas base das categorias. Sob a ótica do jornalista os movimentos poderão culminar em greves atingindo a economia do país. É verdade. Mas o congelamento salarial, que se transforma numa clara redução, é também prejudicial ao ritmo econômico, na medida em que reduz o poder de compra da população e a fidelidade no pagamento das prestações.
Como aliás, na mesma edição de O Globo, revelam os repórteres Ronaldo Dercole, Paulo Justus e Mariana Durão.

Com base em dados da própria Confederação Nacional dos Diretores Lojistas, a inadimplência (não só os atrasos de trinta dias) cresceu 8,2% em maio de 2011 em relação ao índice de maio de 2010. Inclusive, com os maiores atrasos, escala de 32,7%, verificam-se em créditos cujas prestações mensais são de até 50 reais. A Fecomercio, contraditando o levantamento do professor Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas, aponta que nos créditos liberados para integrantes da classe C, que Neri considerou de nova classe média, a inadimplência alcança 15,7%. A nova classe média seria aquela (absurdo) cujos vencimentos são de 3 salários mínimos. Os níveis de pagamento em atraso comprovam o contrário.

Evidente que tal fenômeno é consequência em parte da facilidade do crédito que, inclusive, joga lojas de porte nas mãos de grandes bancos como Itaú e Bradesco. Isso porque os lojistas emitem duplicatas que são descontadas com ágio, é lógico, pela rede bancária. Mas os prazos de liquidação dependem do fluxo de caixa. Se este baixa, em consequência os juros sobem. A margem de lucro cai. Não raro os endividamentos crescem. Foi assim por exemplo que o Pão de Açúcar passou a deter o controle do Grupo Sendas. A facilidade excessiva de crédito também é negativa. Basta entrar numa fila de supermercado para comprovar. Pessoas de renda menor compram através do cartão de crédito e refinanciam as aquisições. Uma loucura, são juros acima de 10%. Ao mês.

Mas falei em inflação do IBGE. Há outra. A registrada pela FGV. Caso do IGPM que rege a correção dos alugueis. Para os contratos anuais que vencem em junho, está em 9,1%. Cinquenta por cento maior do que o IPCA do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

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