Salário perder para inflação leva à queda do consumo

Pedro Coutto

Excelente e oportuna a reportagem de Clarice Spitz e Marcelo Correa, edição de ontem de O Globo, destacando o fenômeno crítico que está ocorrendo no país com os reajustes salariais perdendo para os índices inflacionários nos diversos espaços de tempo que separam entre si os 12 meses de 2014 e o período equivalente agora, em 2015. Acentuo este aspecto porque existem acordos firmados em janeiro, fevereiro, março, abril e também maio, mês no qual estamos entrando em quase três semanas. Clarice Spitz e3 Marcelo Correa realizaram um levantamento estatístico com base em dados do Ministério do Trabalho.

Tal processo é péssimo para a economia como um todo, porque na verdade reajustar salários abaixo da taxa (oficial) de inflação significa reduzir os princípios condenados pela própria Constituição Federal. Existe, porém, apenas como símbolo de justiça social, pois na prática nenhuma lei até hoje definiu concretamente como se chega a calcular o salário real de quem trabalha. Deixando de lado este lado da questão e passando a outro, verificamos que a redução salarial indireta conduz inevitavelmente à queda do mercado de consumo. Consequência tão óbvia quanto politicamente dramática, uma vez que a diminuição do consumo afeta diretamente o volume da produção, já que empresa alguma vai produzir para estocar.

Reduzida a compra, pela perda do poder aquisitivo, reduzida a produção, ingressamos no caminho da recessão. Acarreta também menor arrecadação de tributos, menos arrecadação para o INSS, retração nos depósitos nas contas do FGTS. Isso porque INSS e FGTS têm suas receitas diretamente vinculadas às folhas salariais, incluindo as contribuições de empregados e empregadores. Por tudo isso, a matéria de O Globo foi exatamente oportuna, sobretudo no momento em que o ministro Joaquim Levy persiste na defesa do ajuste fiscal.

DESAJUSTE SOCIAL

O ajuste fiscal, como defende o titular da Fazenda, só poderá na verdade agravar as tensões sociais, assegurando o prolongamento de uma crise que, no fundo, tem os salários como causa e também alvo. A crise do consumo decorre da diminuição do poder de compra dos assalariados. Sob a lente do ajuste fiscal, os salários situam-se como alvo de um projeto de obtenção de recursos financeiros, pelo governo, da velha fonte do trabalho humano. A população vê-se na obrigação compulsória de ter de arcar com as consequências da recessão. Mas como? A resposta é simples, produzindo-se recessão ainda mais intensa.

Esta, inclusive, é a previsão de Clarice Spitz e Marcelo Correa para o segundo semestre. O mês de julho, por exemplo, é a data-base para os acordos salariais de metalúrgicos e bancários. Serão acordos difíceis, já se pode prever. Pois a situação está difícil para todos, empregadores e empregados, e na mesma edição de O Globo está revelado o fato de a Mercedes Benz ter colocado 7 mil e 500 metalúrgicos em regime de férias coletivas. Num mercado que desemprega, de um lado, e dá férias compulsórias de outro, as perspectivas não podem ser favoráveis ao estabelecimento de acordos capazes de, pelo menos, empatarem com a inflação que está acumulando velocidade.

No meio desse vendaval que abala os que trabalham, tem que se considerar ainda que a espiral da inflação avança diariamente sobre os salários. Claro. Os preços são corrigidos antes sempre de sua reposição nos vencimentos mensais. Assim o efeito negativo é duplo: uma reposição que não repõe; a velocidade do aumento dos preços que não para de acelerar. O mercado de trabalho perde, de longe, a competição.

7 thoughts on “Salário perder para inflação leva à queda do consumo

  1. Estamos entrando no circulo da destruição.

    Trabalhadores ganham reajustes abaixo da inflação. Estes passam a comprar menos. Indutria tem menos pedidos. Comércio vende menos. Assim indústria e comércio reduzem a quantidade de trabalhadores. Governo arrecada menos. Para compensar a redução da arrecadação Levy Mão de Tesoura e dona Dilma aumentam os impostos.

    Para aumentar os impostos os nobres magistrados e as vossas Excelências se auto reajustam e implementam aos seu ganhos mais Bolsas isentas de IRPF.

    Ai a CUT, Força, etc. e Sindicalistas fazem acordos para os Trabalhadores terem reajustes menores que a inflação.

    Então o círculo da destruição volta a funcionar até termos uma nova revolução.

  2. O grande e experiente Jornalista Sr. PEDRO DO COUTTO argutamente nos expõe os efeitos da Recessão Econômica ( mais de 2 trimestres de Contração seguidos ), que se traduzem para os Trabalhadores Assalariados, em perda de Poder de Compra, e pior ainda DESEMPREGO.
    O ilustre Comentarista Sr. GUILHERME ALMEIDA complementa muito bem o artigo, e destaca que a CASTA Política e o Alto Funcionalismo se protege muito bem da baixa geral de Salários Reais.
    A causa da Recessão são os DESEQUILÍBRIOS causados pelo nosso Duplo Deficit. Deficit Fiscal (Gov. Fed. gastando bem mais do que os +- 37% do PIB que Arrecada), e Deficit do Balanço de Pagamentos Internacional ( Quantidade de Riqueza, medida em US$ Dollares, que entram ou saem do País) chegando OFICIALMENTE hoje na ordem de +- US$ 100 Bi/Ano. É uma “sangria”contínua na Economia do País, nos deixando totalmente anêmicos.
    Esses DESEQUILÍBRIOS quando chegam num certo ponto, como chegaram em DILMA I, tem que ser combatidos, sob pena de lá na frente cairmos em híper-Inflação e consequente Caos Social. E quem paga a maior parte da conta do “AJUSTE”, são os Economicamente mais fracos, os TRABALHADORES ASSALARIADOS.
    É falso dizer que nossa Elite Política/Econômica, e hoje no Governo, o PT-Base Aliada, não tenha um PLANO DE NAÇÃO. Tem, e o segue fielmente, é o PLANO DO MENOR ESFORÇO, tentar crescer Economicamente com POUPANÇA EXTERNA. Ainda ontem soltamos foguetes por conseguir com a China, em 35 Convênios, acesso a +- US$ 53 Bi de de POUPANÇA EXTERNA CHINESA, ( com exceção da venda de 60 aviões a jato ERJ-190 da EMBRAER SA, que essa parte é BOM NEGÓCIO), que tem CUSTO.
    O BRASIL tem de aprender a FAZER O SEU PRÓPRIO CAPITAL, a criar Dezenas de “EMBRAERs), e não depender muito de Poupança Externa, sob pena de viver periodicamente de “AJUSTES”. Abrs.

  3. Faltou dizer que neste mes , completamos 57 milhoes de ‘inclusoes sociais’ no Serasa, ou seja 57 milhoes de pessoas afastadas do credito. Tem aposentado pegando consignado ate para pagar conta de luz. Um buraco que demorara uns 10 anos para sairmos.

  4. Essa é a velha receita do FMI, inibir o consumo com a fome do povo.
    Sem consumo não há desenvolvimento. A quem interessa travar o país?

  5. Isso vai ter uma reversão quando o salário minimo voltar a ficar na casa de US$ 100. Aí boa parte das industrias de artigos baratos vai começar a ganhar competividade em cima da mão de obra barata.
    A famosa relaçao cambio/salário que vai tornar nossa mão de obra mais barata do que os salários de fome dos asiáticos da China, Vietnan, Indía e outros países de mão de obra barata.
    Já assistimos esse filme antes, mas dessa vez pelo menos saberemos muito bem em quem colocar a culpa por tamanho retrocesso. Os culpados vestem camisa vermelha com uma estrela.

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