Sambas do passado: carnavais, emoções, memórias

Pedro do Coutto

Uma beleza, visita ao passado, a antigos carnavais, à emoção e à memória que se incorpora e enriquece a vida e o caminho de todos nós.

Estou falando do musical de Sergio Cabral pai e Rosa Maria Araujo, no Teatro Casa Grande, que dá sequência ao Sassaricando, que sem dúvida marcou o calendário de arte popular do Rio de Janeiro. Foram as marchas no palco, sambas de carnavais distantes no espaço montado e remontado. Com isso, para aproveitar o verso do imortal da Mangueira em reverência a Monteiro Lobato, os autores enriquecem o cenário do Brasil.

Do Rio, exatamente nos momentos em que ele é mais carioca, nos acende a chama do tempo que Bide e Marçal apagaram no eterno Agora é Cinza, que se encontra no elenco da arte e da poesia que atravessa as décadas e só se esgotará – e se um dia – a emoção fosse capaz de se divorciar do ser humano. Como isso, graças a Deus, é impossível, não vai acontecer, o show de Cabral pai e Maria Araujo não sai da cena de nossa memória, da história de cada um de nós. O espetáculo é assinado por Charles Moeller e Claudio Botelho que nos proporcionam em sequência horas inesquecíveis. Direção musical (ótima) de Luiz Filipe de Lima.

A seleção musical é dividida em blocos, cada qual para um tema responsável pela inspiração de artistas como Noel Rosa, Cartola, Ari Barroso, Wilson Batista, Klécio Caldas e Armando Cavalcanti, Nássara, Benedito Lacerda. Bide e Marçal. Roberto Martins, Rubens Soares, o pugilista que compôs Chega Já é Demais, completado por Noel Rosa, interpretação primorosa de Francisco Alves. São tantos os momentos, são tantas as criações, que seria alongar demais uma lista que deve ser visitada com o palco do Casa Grande diante dos olhos e do coração.

Eu, Elena minha mulher, Tatiana, minha filha, curtimos muito e com muita alegria as duas horas e meia do espetáculo. À saída fiquei pensando na sensibilidade extraordinária da poesia das letras e do humor quem no fundo, elas contêm, unindo o sorriso ao amargor, subindo do coração à razão. Que viagem bonita ao passado, um aparte do qual sou testemunha, de outra tomei conhecimento por ouvir falar e escutar, como fiz várias vezes, obras da coleção do intelectual e jornalista José Lino Grunewald, que não se encontra mais entre nós. Vejo também filmes e fotos de tempos mais distantes. Mas eu falava em pensamento.

Me veio a certeza da importância do conjunto das obras musicais que na verdade nascem do povo e que os autores devolvem a ele em forma de arte e melodia. Pois o samba, como disse Noel, não vem do morro ou da cidade; sambar é chorar de alegria, é sorrir de nostalgia . Dentro da melodia. Foi isso que fizemos nós três com amigos nossos na noite de sábado. Foi uma noite lindíssima, franca, espontânea, só com adições, sem subtrações. Vale a pena participar assim, vale a pena viver assim. Deixando o tom e o dom artístico nos envolver e conduzir a um cenário fascinante de encontro de todos nas criações extraordinárias de alguns.

Acrescento que a poesia da MPB merece um estudo mais profundo do que aqueles que foram realizados até agora. Não que estes sejam ruins. Ao contrário. Porém são precisas novas leituras que se adicionem às já produzidas. Dois nomes indispensáveis me vêm à mente: Ferreira Gullar e Augusto de Campos. É isso aí. Assistam ao É Com Esse Que Eu Vou. Vamos todos nós.

Nas três próximas semanas estaremos, eu e minha mulher viajando para assistir a formatura de doutorado de nossa filha mais velha. A mais nova, segue também. Por isso, no site vão sair artigos que escrevi e armazenei.

Até a volta, portanto.

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