São Jorge e o dragão são duas dimensões de nós mesmos

Leonardo Boff

Sabemos que a figura do dragão é um tema recorrente em várias culturas, com significados até opostos. Assim, no Ocidente, é negativo: representa o mal e o mundo ameaçador das sombras. No Oriente, é positivo: símbolo nacional da China, senhor das águas e da fertilidade. Não raro, os pobres entre nós dizem: “Para me manter, tenho que matar um dragão por dia”.

Muitos antropólogos e psicólogos que trabalham sobre o tema dos arquétipos afirmam que o dragão representa uma das figuras transculturais mais ancestrais da história humana. É a percepção de que a nossa identidade profunda não nos é dada simplesmente pelo fato de sermos humanos. Ela tem que ser conquistada numa luta diuturna. Essa situação é representada pelo dragão.

Por isso, junto com o dragão, sempre vem o cavaleiro são Jorge, que, com ele, se confronta numa luta renhida. À luz dos estudiosos referidos acima, tanto um como o outro são partes de nossa realidade humana.

Isso é assim porque a nossa vida é sempre feita de luz e de sombras. Quem vai triunfar, São Jorge ou o dragão? Ambos coexistem, e sentimos suas presenças em cada momento: às vezes, na forma de raiva ou de amor etc. É aqui que entra a importância de uma identidade forte, um são Jorge que possa enfrentar as nossas sombras e maldades, o dragão, e fazer triunfar nossa parte melhor.

GUERREIROS E VENCEDORES

São Jorge é o que nos mostra como, nessa luta, podemos ser guerreiros e vencedores. Ele enfrentou o dragão: mostra a força do eu, da própria identidade, garantindo a vitória. Mas essa vitória não se conquista de uma vez por todas. Ela tem que ser renovada a cada momento, à medida que as amarras vão surgindo.

Há, contudo, um drama ao qual não nos podemos furtar. Por mais que lutemos e vençamos, o dragão está sempre nos espreitando. Ele nos acompanha. Mais ainda: é uma parte de nós mesmos.

Por essa razão, nas muitas lendas existentes sobre São Jorge, ele não mata o dragão, mas o vence, mantendo-o domesticado, amarrado e submetido aos imperativos do eu e da identidade pessoal. Ele não pode ser negado e eliminado, apenas integrado de tal forma que perca seu lado ameaçador e destruidor. Pode até nos ajudar a sermos humildes e evitar a autoconfiança demasiada.

A pessoa que não renega o dragão, mas o mantém sob seu domínio, consegue uma síntese feliz dos opostos presentes em sua vida. Essa pessoa emerge como um ser humano mais rico, mais sereno, mais compreensivo, tolerante e compassivo, irradiando uma aura boa ao seu redor.

DUAS DIMENSÕES

Repetimos: importa reconhecer que o dragão amedrontador e o cavaleiro heróico São Jorge são duas dimensões de nós mesmos. Nosso desafio é fazer com que são Jorge tenha a primazia e não deixe que o dragão nos derrote e tire o sentido e o gosto de viver.

Por fim, cabe uma observação de ordem filosófica: seguramente, aqueles que veneram São Jorge não sabem nada disso que explanei acerca da coexistência dos dois em nossa vida. Nem precisam saber. Basta que tenham consciência de que a vida é uma permanente luta entre o que é bom para mim e para os outros e o que é mau e deve ser evitado e combatido, e que acreditem que a virtude é preferível ao vício e que a palavra final terá de são Jorge, e não do dragão.

Nessa fé, saímos todos fortalecidos para os embates que ocorrerão pela vida afora com a assistência poderosa do guerreiro vencedor, São Jorge. (transcrito de O Tempo)

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

4 thoughts on “São Jorge e o dragão são duas dimensões de nós mesmos

  1. Caro BOFF, nós trazemos dentro de nós o CAIM E ABEL, deixamos o CAIM falar ,mais alto, e o resultado ai está, de alguma forma matamos nosso irmão em DEUS diariamente com nossa falta de AMOR FRATERNO pregado e exemplificado por JESUS, o CRISTO, o Egoismo é a ferramenta do CAIM.
    O Dragão e o Jorge, são simbolos, para ABEL lutar contra o CAIM, mas, lamentavelmete, Cam tem sido vencedor, e luta continua…
    Eu sou o Caminho, a Verdade e a VIDA, e ninguem vai ao Paí a não ser por mim, Jesus; ELE nos legou o “Evangelho” a “BOA NOVA”, Código de vida para nosso dia-a-dia, pouco estudado por nós, e muito menos exemplificado, e continuamos a plantar a DOR, com a “santa ignorância espiritual”;mergulhados na materialidade

  2. Caro Boff, os seres espirituais decaídos que vivem no mais profundo abismo e que tem está no topo da nefasta hierarquia tem a forma de Dragões. Isto porque, obstinados no mal a milênios, vão perdendo sua forma original até se transformarem em monstros. É o que a igreja católica chama de demônios.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *