Sarkozy tenta obter votos desafiando o islamismo em Paris

Pedro do Coutto

O presidente Nicolas Sarkozy, desaprovado por 71% do eleitorado francês, tenta erradamente recuperar o prestígio perdido e obter votos para o sucesso em maio de 2012 restringindo os hábitos mulçumanos e desafiando o islamismo nas ruas de Paris, esquecendo que a capital de seu país é historicamente um exemplo de liberdade, arte, beleza.

Reportagem excelente de Luís Kawaguti, enviado especial da Folha de São Paulo, publicada na edição de sábado 16, focaliza, depois do veto ao uso da burca e do véu islâmico, agora a disposição do governo de proibir orações mulçumanas nas ruas. O ministro do Interior, Claude Guent, tenta justificar Sarkozy dizendo que o estado é laico. Argumento primário.

Se assim fosse, as procissões tradicionais que saem de Notre Dame e Madeleine, duas igrejas monumentais e belíssimas não poderiam mais se realizar. Quando estive em Paris, em março, li o resultado de pesquisa de opinião pública do diário Liberacion revelando que, se as eleições fossem agora Sarkozy correria o risco de não ir ao segundo turno. Rejeitado por 71%, encontrava-se atrás de Marine La Pen. A candidata da direita tinha 24 pontos, ele 23. Uma faixa muito grande do eleitorado aguarda qual será o candidato do Partido Socialista. É natural. Os socialistas apresentam um amplo elenco de nomes, porém não se fixou em nenhum até o momento. Mas terá que terminar decidindo e obtendo a união. No quadro atual, nunca foi tão fácil vencer.

Desde 1965, quando De Gaulle instituiu novamente o voto popular, somente por uma vez gaulistas e socialistas deixaram de disputar o segundo turno, aliás invenção francesa. Lá chama-se “ballotage”. Em 65, foram ao segundo turno o próprio De Gaulle e Mitterrand. Na sucessão seguinte, Giscard D’Estaing e Mitterrand. Giscard ganhou.  Mas ao buscar mais um mandato foi derrotado por Mitterrand. Este venceu mais uma sobre Chirac. No curso da história, Chirac venceu Jospin. Equivocadamente, Lionel Jospin, numa composição parlamentar, aceitou ser o primeiro ministro. De Chirac. No pleito seguinte ficou sem mensagem e como candidato da oposição. Não foi ao segundo turno.

Chirac, assim, teve o apoio dos socialistas: foi vitorioso. Derrotou Le Pen. Na última disputa, Sarkozy ganhou de Segolene Royal no segundo turno. Esta a história dos combates políticos. Ao longo dos 45 anos do voto direto, apenas uma vez gaulistas e socialistas deixaram de se  enfrentar na ballotage.

Proibir atitudes e atos religiosos não é caminho positivo para as urnas. Sarkozy omite que o Islã não constitui apenas uma religião, mas também um código de conduta. Desafiar os mulçumanos admitindo que tal decisão possa acrescentar votos significa tanto uma falta de percepção quanto de consciência. Ao contrário de fortalecer sua posição, o abala ainda mais. A impressão que deixa é a de que a França e os franceses vão contemplar uma outra primeira dama nos Campos Elíseos no lugar de Carla Bruni daqui a pouco mais de um ano. Na primavera, em Paris.

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