Sarney deve liberar para a história trabalho da CPI do Riocentro

Pedro do Coutto

Leio na Folha de São Paulo, edição de segunda-feira 9, artigo do senador Renan Calheiros sob o título inventário de uma crise, no qual se defende das acusações que sofreu a partir do episódio Mônica Veloso. Acentua ter respondido e esclarecido todas as acusações e estar absolvido de todas elas.

Inventário pode ser de bens, de potencial hidrelétrico de rios, e também de fatos históricos. Entre estes nada mais importante do que a trilha da explosão ocorrida no Riocentro, 30 de abril de 81, onde não fosse o destino, teriam morrido milhares de pessoas. O Globo vem publicando uma série de reportagens excelentes de Chico Otávio revivendo o passado e iluminando a trágica farsa que se montou na época.

Em vez de uma bomba, está comprovado hoje, apareceram trinta anos depois, as fotos de mais duas no Puma modelo esportivo da Volks, do então capitão, hoje coronel da reserva, Wilson Machado. Sem dúvida um dos impunes executores do ato terrorista. Há um volumoso material no Senado, que constituiu uma CPI no esforço de chegar aos autores da tentativa de homicídio em massa. A Comissão de Inquérito foi presidida pelo senador Mendes Canale, do Mato Grosso. Um dos depoentes, por iniciativa do senador Franco Montoro, foi o jornalista Hélio Fernandes.

Por que Helio Fernandes? Porque no dia 26 de março, também, 1981, atentado com características semelhantes havia sido desfechado contra a Tribuna da Imprensa fazendo sua rotativa voar pelos ares e incendiando o prédio da Rua do Lavradio. Antes da Tribuna, os ativistas do terror haviam enviado uma bomba à OAB-RJ, que causou a morte da funcionária Lida Monteiro. Outra bomba, através de sinistra correspondência, deixou cego o servidor da Câmara dos Vereadores Ribamar de Freitas.

Várias bancas de jornais foram explodidas no Rio de madrugada. Governo Chagas Freitas, secretário de Segurança o general Valdir Moniz, por coincidência, era o representante do SNI, então chefiado pelo general Otávio Medeiros, no Rio de Janeiro. Chagas Freitas, claro não tinha autonomia no setor de segurança.

Convocado por Montoro, em face da semelhança entre os atentados e as detonações, Hélio Fernandes foi a Brasília no final de abril para falar da insegurança. Seu depoimento estendeu-se por seis horas. Acusou frontalmente o general Otávio Medeiros como o mentor de todos os crimes e apontou os autores do incêndio da Tribuna da Imprensa. Afirmou que sabia até os nomes de alguns agentes policiais e militares que detonaram as rotativas. Em relação ao Riocentro, sustentou que o governo João Figueiredo não determinava a prisão dos responsáveis porque não desejava ou não podia fazê-lo.

A CPI do Terror – como foi chamada na época – reuniu uma série de depoimentos que agora motivam o jornalista Chico Otávio. Porém um deles desapareceu. O de Hélio Fernandes, exatamente o que apontava os responsáveis nominalmente, incluindo suas tarefas e até seus locais de trabalho. Se o senador José Sarney não tomar providências para reconstruir a sequência histórica que O Globo está documentando em sequência, a história moderna do Brasil perderá muito com a omissão e a evaporação dos textos gravados e taquigrafados.

Sarney, um homem ligado à literatura, conhece bem a importância da preservação histórica dos documentos. Vários encontram-se no Congresso, do qual é presidente. O processo da Carta Brandi, (falsa) divulgada por Carlos Lacerda em 55, o impeachment de Carlos Luz e o de Café Filho, ambos no mesmo ano, a renúncia de Jânio Quadros, a posse de João Goulart.

A emenda das Diretas Já, a eleição de Tancredo Neves e a sua própria posse na presidência da República em 85. Sarney tem que encontrar e liberar os depoimentos sobre a noite de horror do Riocentro. Não pode contribuir para travar a história. Afinal a história , como disse Hélio Silva, não espera o amanhecer.

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