Sarney e a audácia dos desesperados

Vicente Limongi
“Hélio, Patética, burra, insolente, inoportuna e demagógica, a intervenção do senador Eduardo Lexotan suplicy ao discurso de Sarney, sobre Getúlio Vargas e Euclides da Cunha. Suplicy teve todo o tempo e chances do mundo para retrucar Sarney e defender as representações contra ele, todas arquivadas e julgadas improcedentes pelo conselho de ética. Suplicy fez colossal papelão. De repente, tomou-se por um torpe furor denunciatório e atropelou, com absoluta falta de educação parlamentar, o discurso de Sarney homenageando Vargas e Euclides. Francamente. Tem eleitor que gosta. Fazer o que.”

***

“Hélio, Depois de participar da sórdida orquestração contra Sarney e o filho, Fernando, e, perder de goleada, o Estadão de SP agora, quer mostrar serviço ao Palácio do Planalto, bajulando Antônio Palocci. É um marcante e melancólico exemplo do jornalismo brasileiro. Breve, outro jornalão, do Rio de Janeiro, entrará na disputa para ver quem é mais vassalo a favor de Palocci. Antes, bajulavam Dilma. como “pensam” que a ministra perdeu pontos, partem para descobrir “novos rumos e novas atrações”. Ridículos. Mas não perdem a pose.”

Comentário de Helio Fernandes
Todos têm direito à opinião, incluindo Sarney. Só que o (ainda) presidente do Senado devia ter estudado os episódios de Euclides da Cunha e de Vargas. Você sabe muito bem, Limongi, que Sarney não é estudioso, sua escola, “risonha e franca”, é a adesão. Serviu à ditadura, num golpe de habilidade, passou de pretendente a vice de Maluf a efetivo vice de Tancredo.

Discursou sobre essas figuras históricas, sem qualquer conhecimento, com montanhas de erros e equívocos, apenas para fingir de historiador e desviar o assunto da cassação.

Quando Vargas se matou (o que venho chamando desde aquela época de “gesto genial que o imortalizou”), Sarney era segundo suplente de deputado, ignorado e ignorante. Assumiu em 1956. Não tocou no assunto nos 55 anos transcorridos até agora. Por que discursar agora e sobre um episódio rigorosamente HISTÓRICO?

Sobre Euclides então, Sarney não sabe nada

Lamentável a fala sobre Euclides da Cunha. Confesso que, ouvindo o ex-presidente, tive pena dele. Não sabia rigorosamente nada sobre o episódio de Canudos e da participação de Euclides da Cunha. Este ficou lá menos de 15 dias, escrevendo para o jornal Estado de São Paulo, mas logo foi embora, sem participação maior.

A grande cobertura foi feita pelo Jornal do Comércio, do Rio, mas então o mais importante jornal brasileiro. O repórter José Carlos Vasconcellos (mais tarde diretor do jornal) ficou lá do primeiro ao último instante, desde que o Exército tinha lá apenas um destacamento, até que TRÊS QUARTAS PARTES DO EFETIVO DO EXÉRCITO HAVIAM SIDO TRANSFERIDAS através do Morro da Favela.

(Não tem a menor importância, mas Sarney devia saber que os morros do Rio passaram a serem chamados por esse nome a partir do momento em que o Exército montou seus canhões nesse Morro).

Mais tarde, já tendo saído do Exército, engenheiro e continuando no Estado de São Paulo, Euclides foi visitar o interior, principalmente o Norte/Nordeste.

Aí, Euclides escreveu e publicou “Os Sertões”, acabou toda e qualquer controvérsia. Foi uma sensação, um trabalho realmente magistral, consagrado como o maior livro já escrito NO BRASIL E SOBRE O Brasil.

Sem saber de coisa alguma, com a audácia dos desesperados, Sarney afirma, revelando sua prodigiosa tolice: “Euclides NÃO É O MAIOR ESCRITOR BRASILEIRO, fica entre os 10 MAIORES”. E querendo mostrar intimidade com a literatura e os valores intelectuais, pergunta, afirmando: “E o NOSSO MACHADO de Assis?”.

Respondendo para terminar: O “nosso” Machado (de Assis) é um escritor, ponto. Produto do “marquetismo avassalador”, que atravessou os tempos, vive das dúvidas da Capitu. Euclides viverá para sempre, por causa das certezas que REVELOU SOBRE O Brasil. Euclides é um ESCRITOR DESBRAVADOR e não se sabe até onde iria, se não fossem os episódios particulares, que tentam desvirtuar. Mesmo morrendo muito moço, Euclides chegou mais longe do que todos os outros. Principalmente o tão ENDEUSADO “NOSSO” Machado.

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