Sarney: O DVD da Contradição e do Lugar Comum, rotina em cima de rotina. Já tendo garantido a imortalidade, tenta agora a ambiciosa eternidade

Recebo essa gravação ditada pelo ex-presidente, que se constitui na maior coleção de tolices, vulgaridades e lugares comuns. Citado e registrado, no entanto como se fosse manifestação genial.

Vejam só o início, textual: “Ninguém governa o tempo que governa. Há tempos medíocres em que se administra apenas o cotidiano. Há tempos de desordem em que se busca a ordem. Há tempos de fartura e há tempos de escassez. Poucas vezes temos que administrar e conviver com a História ao mesmo tempo. Governei quando a História se contorcia, quando as decisões eram escolhas de rumos e de mudanças”.

Se já não fosse da Academia, este seria um discurso de candidato, que poderia ter o título colocado pelo próprio Sarney: “Introdução AOS TEMPOS de imortalidade”.

Ele mesmo, no melhor sentido do que está no DVD, poderia acrescentar: “Há tempos de morrer e tempos de sobreviver. Há tempos de escrever para si mesmo e tempos de escrever para a unanimidade-comunidade-coletividade”.

Como presidente, Sarney foi um fracasso inesquecível, não conseguiria o milagre de reviver e conviver com a realidade, transformando-a num ato de fé e de credibilidade. Louve-se apenas a coragem nada imortal de chamar a atenção para os “tempos de escolha de rumos e de mudanças”, coisas que não fez de maneira alguma.

As raras escolhas dos seus 5 anos de presidente, foram desastrosas, contraditórias inimagináveis. E como Sarney insiste que NINGUÉM GOVERNA O TEMPO QUE GOVERNA, concordemos: ele NÃO governou nenhum tempo, pela razão muito elementar de que NÃO chegou a governar.

Em 5 anos, (que pretendia que fossem 6 e alguns exigiam apenas 4) Sarney não fez nem desfez, Gastou um tempo enorme trocando de moeda, insistindo no lugar comum que não é apenas dele, que trocar ou transformar a moeda de um país, pode rotular o eufemismo que muitos chamam de governar.

Washington Luiz insistia que “governar é abrir estradas”, Sarney copiou a frase que alguém sussurrou para ele, e deixou implícito e explicito: “Governar o tempo que se governa, é mudar de moeda”. E logicamente de ministro da Fazenda.

Nesse item ninguém ganha de Sarney. Foi de Bresser Pereira a Maílson da Nóbrega, confirmando o que ele mesmo consagra no DVD: “Há tempos em que se administra apenas o cotidiano”.

Outro cotidiano dos tempos de Sarney foi a complacência e até a inconsciência com a inflação e a corrupção. Sarney não sabe, mas foi a maior de todos os tempos. Existe a inflação que derrubou Rui Barbosa, ajudada e estimulada pela aristocracia paulista e pela fantástica doação de terras aos que voltavam da estranha Guerra do Paraguai, e provocou a tragédia do “encilhamento”.

Não se pode esquecer a inflação da Segunda Guerra Mundial, que levou o ditador Getulio Vargas a mudar a moeda. Aí, nenhuma solução, mas pelo menos, explicação. Como o mundo inteiro só produzia armas e tinha que comprar tudo, o Brasil era naturalmente o grande vendedor. Mas não recebia, acumulava créditos.

Como era preciso pagar os produtores, o governo emitia sem lastro, a inflação subia de forma astronômica. Assim, em 25 de novembro de 1941, Vargas publicou no Diário Oficial: “A partir de 1º de janeiro de 1942, a moeda deixa de ser o “mil réis”, passa a ser o cruzeiro”. Não adiantou nada. (A não ser em tempos de acumulação de créditos, que foram desperdiçados pelo Marechal Dutra, ainda pior do que Sarney e FHC juntos).

(Isso já é outra história, são outros tempos, mas não custa lembrar um mísero item. Dutra assumiu com créditos de 14 BILHÕES DE DÓLARES. Como diria Sarney, não eram tempos do TRILHÃO. Dutra entregou tudo aos americanos, mestres em vender matéria plástica a preço de ouro, e comprar ouro a preço de matéria plástica.

A inflação dos tempos de Sarney era mesmo incompetência e incapacidade. Foi buscar Sua Excelência Maílson da Nóbrega, que estava jogado num porão de “guardados”, nem ele acreditou que seria ministro da Fazenda. Quando Maílson começou a tomar providências (?), o país compreendeu que não havia outro ministro. O estilo era diferente, mas Maílson era outro Bresser, com nova roupagem, comprada num brechó.

***

PS – Se puderem, procurem esse DVD, leitura interessante. Não sei quem mandou, não sei quem gravou, não sei quem pagou, nenhuma indicação, nenhum tempo perdido sobre isso.

PS2 – Sarney vai de contradição em contradição, negando palavra por palavra. Ordem e desordem, fartura e escassez, governar e não governar, viver o dia a dia e conviver com a História.

PS3 – Assim, do princípio ao fim. Objetivo? Como já garantiu a imortalidade entre apenas 40, pretende a eternidade entre 200 milhões. Nenhuma ironia, apenas a arrogância e a ambição da mediocridade.

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