Sarney, que ia a reuniões políticas em Brasília com um revólver 38 na cintura, agora se tornou defensor do desarmamento. Como dizia o Barão de Itararé, era só que faltava.

Carlos Newton

É surpreendente tomar conhecimento de que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), está liderando os líderes partidários na proposta para a realização de um novo referendo sobre desarmamento. Seu objetivo é votar um decreto legislativo que estabeleça nova consulta à população sobre a proibição de vendas de arma de fogo no país.

Sarney afirmou que a intenção é votar de imediato a matéria. “Rui Barbosa já dizia que só quem não muda são as pedras ou do bem para o mal e do mal para o pior. Nesse caso, estamos mudando do mal para o bem”, gracejou. Ele também apoiou a proposta do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, de debater com organizações não governamentais a antecipação da Campanha Nacional pelo Desarmamento, prevista para junho.

Como dizia Chico Buarque, “quem te viu, quem te vê”. É inusitado que Sarney esteja tomando essa iniciativa, porque ele próprio tem diversas armas e até gostava de andar armado. Quem não se lembra das vésperas da redemocratização do país, quando Sarney, que era presidente do PDS (base política da ditadura) decidiu abandonar o barco que afundava e apoiar o então vice-presidente Aureliano Chaves na formação do Partido da Frente Liberal (FPL), que se uniu ao PMDB para eleger Tancredo (e por mero acaso Sarney, a tiracolo).

(Aqui cabe um parênteses para um fato importantíssimo que poucos recordam: Não seria Sarney o vice de Tancredo. O nome preferido era o de Marco Maciel. O assunto não estava decidido e o PMDB resolveu mandar um ultimato ao PFL: aceitava qualquer um como candidato a vice, menos Sarney. A pressão foi um tiro pela culatra, porque Aureliano Chaves não gostou, não era de aceitar imposições, e virou o jogo, obrigando o PMDB a aceitar Sarney, que acabou presidente, era só o que faltava).

Pois bem, quando saiu de casa para ir apresentar seu desligamento do PDS e entrar no PFL, Sarney levava na cintura um revólver 38, que felizmente não precisou usar. Essa história é muito conhecida em Brasília, e até consta de um livro sobre a redemocratização, “O Complô que Elegeu Tancredo” (Editora JB, 1985), escrito em parceria por Gilberto Dimenstein. José Negreiros, Ricardo Noblat, Roberto Lopes e Roberto Fernandes. Segundo nosso amigo Carlos Chagas, o próprio Sarney admite o fato em sua recém-lançada biografia. Então, vamos conferir o texto de “O Complô que Elegeu Tancredo”:

“Em uma das salas do edifício Sofia, no Setor Comercial Sul, o senador José Sarney, revólver calibre 38 preso à cintura, tenso, rodeado de amigos, estava reunido com a Executiva do PDS para anunciar sua renúncia, em caráter irrevogável, à presidência do Partido”.

Muitos anos depois, em 23 de outubro de 2005, foi realizado um referendo sobre o tema. A maioria dos votantes (59 milhões de pessoas ou 64% dos votos válidos) optou por não proibir o comércio de armas e munições. E agora aparece o imaculado José Sarney a hipocritamente se lançar como grande defensor do suposto desarmamento.

Com o maior oportunismo, aproveitando que a sociedade está traumatizada pela chacina de Realengo, o senador agora defende a revogação do Estatuto do Desarmamento, aprovado pelo Congresso, após a consulta popular que decidiu pela manutenção da venda de armas no país. E diz que é necessário estabelecer uma política de “tolerância zero” em relação ao porte de armas.

Só está faltando agora o ex-deputado Roberto Jefferson, que costumava frequentar o plenário da Câmara com um 38 na cintura (todo mundo tinha medo dele), também aparecer em defesa da proibição da venda de armas no país.

A propósito, seria muito importante saber qual a opinião da ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, que teve parte de sua campanha eleitoral para a Câmara dos Deputados patrocinada pela indústria gaúcha Taurus, a maior fabricante de revólveres do Brasil. O que ela dirá agora?

No fundo, a discussão é bizantina, admite qualquer opinião, pois não faltam argumentos a favor ou contra. Respeito o pensamento dos outros, mas pessoalmente tenho minha opinião formada: sou a favor de venda de armas para que os cidadãos possam defender suas famílias, sobretudo os que moram no interior, em locais ermos. É um direito que lhes deve ser garantido.

Os suíços pensam assim, embora vivam no país tido como mais civilizado do mundo. A Suíça, apesar de ter o maior número de armas por habitantes (inclusive rifles potentes), registra baixíssimo índice de criminalidade e de homicídios. Este é um dado da maior importância, mas nunca é lembrado quando se discute o assunto. Para os suíços, o importante não é ter a arma, e sim saber quando, por que e como usá-la.

Aqui no Brasil, que tenta fazer diferente dos outros países (como ocorre com a taxa de juros, por exemplo), as autoridades vivem cercadas de guarda-costas armados. Ao invés de desarmar os bandidos, essas pretensas autoridades mantêm-se protegidas, mas insistem em desarmar a população decente e honrada, que precisa se defender, porque as condições de segurança inexistem. É como se a vida dos brasileiros fosse uma espécie de eterno Teatro do Absurdo, repleto de personagens contraditórios, especialmente os que fazem papel de políticos e governantes.

O plebiscito é uma grande bobagem, mais um factóide inventado por políticos oportunistas e desocupados, como Sarney. Não é preciso proibir nada. A venda de armas e munições no Brasil é muito restrita, desde a aprovação do Estatuto do Desarmamento, em dezembro de 2003. Desde então, uma arma de fogo somente pode ser adquirida mediante prévia autorização da Policial Federal.

Como a pessoa deverá fazer para adquirir uma arma? O interessado irá a uma loja especializada em venda de armas e munições e o vendedor solicitará autorização à Polícia Federal, que verificará os antecedentes do comprador. Se não houver antecedentes criminais, o pedido de compra será encaminhado ao SINARM, órgão que autoriza a venda. A loja só liberará a arma com registro. Traduzindo: somente pessoas de bem podem comprar armas. A meu ver, está correto. E que assim seja.

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