Se a Delta quebrar, Cavendish isola-se no mar das contradições

Pedro do Coutto

Numa entrevista ao mesmo tempo sincera e sensacional à repórter Mônica Bérgamo, Folha de São Paulo de quinta-feira 19, o empresário Fernando Cavendish admitiu diretamente que, com o escândalo que envolve a empresa, ela pode quebrar.

“Quando a mídia vem com intensidade – afirmou – provoca reação imediata dos órgãos de controle, os governos abrem sindicâncias e suspendem os pagamentos. Cria-se um clima péssimo. Os bancos sustam toda a linha de crédito. A Receita Federal aperta a fiscalização. Não tenho caixa. Se não receber as faturas entes de acabar meu dinheiro, vou quebrar” – acrescentou.

Fernando Cavendish disse à colunista Mônica Bérgamo que nunca falou com Demóstenes Torres, tampouco com o governador de Goiás, Marcone Pirilo. O único governador seu amigo é Sérgio Cabral. As declarações de Cavendish são espantosas. De plano, ele reconhece tacitamente temer os órgãos de controle, quando, se atuasse dentro dos limites da lei, não teria motivo para tanto.

Na sequência, sustenta que os governos com os quais possui contratos de empreitada abram sindicância. A mesma lógica aplicável à primeira questão que coloca, estende-se a esta segunda. Pois se não há irregularidades, as sindicâncias vão resultar em zero contra sua empresa. Se ele é um empresário honesto, tanto deveria fazer abrir-se sindicância ou não.

Pelo contrário. A sindicância comprovaria sua integridade. Mas não é isso o que ele próprio revela temer. Ele demonstra medo não é com as investigações em si, mas no que podem resultar de concreto. Uma das hipóteses a suspensão do pagamento das faturas, o que levaria à insolvência, como ele próprio afirma, anunciando a perspectiva de a Delta quebrar.

Com isso, claro, estaria fraturado o seu esquema de trabalho, seu estilo de atuação. Sem crédito, mas com dívidas, o empresário isola-se dos amigos entre aspas, que é o que mais existe por aí, e mergulha no mar das contradições. Amigos (entre aspas) dos que detêm o poder político ou se tornam distribuidores de dinheiro não faltam nunca. O problema são os amigos do depois. Desaparecem. Não atendem telefone. Atravessam a rua para não cumprimentar os companheiros da véspera. Sequer fingem um mínimo de educação. A pessoa vira alvo de uma hidrofobia social.

Chegam ao ponto de, nas reuniões até de família, excluir pessoas pensando que ficam bem na fotografia com aqueles que desejam, mais que agradar, bajular. São seres rastejantes. Conheci muitos pela estrada da vida, para lembrar o título do filme de Fellini. O primeiro aliás de sua consagração como artista. Mas esta é outra questão.

O fato essencial é que o desabamento da Delta, admitido com todas as letras pelo próprio presidente e controlador da empresa, abre, mais que uma cachoeira, uma torrente no mercado financeiro e no universo das obras públicas. Pois estes dois pólos caminham paralelamente. Muitos contratos de obras públicas, com os reajustes de sempre dos preços, implicam naturalmente em mais crédito para assegurar a rapidez das obras e assim garantir o retorno mais rápido às aplicações de capital.

Isso de um lado. De outro os negócios, como é comum, embutem, é claro, o pagamento das faturas. Maior presteza, melhores se tornam as aplicações dos valores recebidos. Portanto, verifica-se toda uma cadeia de interesses que, no caso da Delta, já está sendo interrompida, com sua exclusão nas obras do Maracanã, por determinação dos sócios majoritários no consórcio. Tudo isso em decorrência de um processo nítido de confissão por parte do próprio Cavendish.

Não basta ler suas palavras. É essencial interpretar o conteúdo que elas expressam. O pensamento.

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