Se a História fosse queimada, não haveria cristianismo

Pedro do Coutto

Num artigo magnífico publicado simultaneamente no O Globo e na Folha de São Paulo de 21 de julho, o jornalista Elio Gaspari destaca a importância do esforço da professora Silvia Hunold Lara, da Unicamp, para salvar enorme parte da memória nacional. Ela se dirigiu ao presidente do Congresso Nacional, José Sarney, para que evite a aprovação de projeto em curso que estabelece a queima, depois de cinco anos, de todos os processos mandados ao arquivo. Não se pode queimar a história, acentuou Gáspari com total razão.

Queimar a história – digo eu – a menos que os processos sejam digitalizados, seria destruir a memória nacional, a que existe hoje e a que vai existir amanhã. Fazer devorar pelas chamas da ignorância enorme parte da própria História do Brasil. Transformar em fumaça e frangalhos o que foi escrito. Atear  fogo representa impedir que os processos históricos sejam revistos e analisados à luz do progresso.

Imaginem os leitores se os autos da devassa tivesse sido queimados. Como se poderia reestudar a Inconfidência Mineira e a imagem de seu herói maior, Tiradentes? Como se poderia reestudar a Independência de nosso país? A Proclamação da República? A declaração de guerra, por Vargas, à Alemanha nazista, à Itália e ao Japão, em agosto de 42?

No Congresso Nacional dormem em sono profundo, mas à disposição dos historiadores formais e informais, processos como o da ditadura varguista de 37; a redemocratização de 45 e a constituinte de 46;  o processo da Carta Brandi divulgada por Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa; a CPI do Jornal Última Hora; as investigações do atentado da Rua Toneleros cujo desfecho foi o suicídio de Vargas; o impeachment, em 1955, do presidente em exercício Carlos Luz e do presidente Collor em 1992, para não alongar a lista de episódios traumáticos e dramáticos ao longo do tempo em nosso país.

Sem memória não se faz nada, escreveu Ferreira Gullar, em excelente artigo numa das últimas edições dominicais da Folha de São Paulo. Sem memória, disse ele, não pode existir sequer presente, quanto mais futuro. Para se poder precisamente dimensionar sua importância fundamental, digo eu, basta dizer que, não fosse a memória dos séculos, não haveria cristianismo. A morte de Jesus Cristo em Jerusalém ficaria circunscrita ao desfecho da cruz, sua crucificação pelo poder da Roma de Tibério, representado na Judéia invadida pelo interventor Pôncio Pilatos, e referendada pelo governador Herodes Agripa, e pelo Sinédrio de Caifaz, tribunal judeu de derradeira instância. Sem memória, as imagens de Cristo e da Cruz não poderiam ter sido aproveitadas pelo imperador romano Constantino para, 305 anos depois, oficializar a aceitação do catolicismo assinando a Ata de Milão.

Sem arquivo escrito, e olha que mil e cem anos antes da imprensa de Gutemberg, sem memória e sem história, não haveria cristianismo no mundo. E, até hoje, 1967 anos depois, o tempo universal e eterno se divide entre antes e depois dele. Mais um exemplo definitivo, este de revisão: quando, em 1947, foram encontrados os Manuscritos do Mar Morto, o Vaticano do conservador Pio XII, Pacelli, temendo alguma revelação de impacto, resolveu reformular seu conceito sobre Maria Madalena, reconhecendo sua verdadeira importância na estrada dos séculos e na consolidação da fé cristã. E se os manuscritos tivessem sido incinerados? Como ficaria a história?

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