Se a miséria não interessasse, ela já teria acabado

Pedro do Coutto

A revista Veja que circulou sábado, e está nas bancas, publicou reportagem efetivamente importante, com base em dados da ONU, sobre a distribuição de renda e a  pobreza em todo mundo. Compara épocas. Em 92, por exemplo, os vinte por cento considerados mais ricos detinham 82,7% da renda no planeta.

Com todo mundo falando na necessidade de um novo perfil em matéria de redistribuição de rendimento, era de esperar que, 12 anos depois, a pirâmide tivesse melhorado e ocorrido alguma descompressão. Nada disso. Em 2006, a concentração, em vez de diminuir, aumentou: os 11% melhor situados na escala, agora não mais refletidos na  imagem da pirâmide, mas sim na de uma taça de champanhe, passaram a deter 85% da riqueza universal.

É demais. Sobretudo levando-se em conta, como a reportagem também focaliza, que 40% dos habitantes da Terra, algo em torno de 2 bilhões e 700 milhões de seres humanos, vivem e subvivem com 3,3% do Produto Bruto
 Universal. O PBU, pelo último dado que possuo, situar-se no patamar de 45 trilhões de dólares. Os Estados Unidos são responsáveis por um terço desse total.

Verifica-se um processo contraditório entre a política e a economia, embora, no fundo da questão, predomine sempre o conceito de economia política ou política econômica. Já disse outro dia que aquele que tentar analisar o processo político, projetado na luta pelo poder, sem considerar as motivações e condicionantes do interesse econômico, vai desabar em erros sucessivos. São indissociáveis os dois fatores, seja sob qual regime for.

Atrás de tudo, ou, melhor dizendo, ao lado, existe sempre um fato, um impulso econômico, uma motivação econômica. Neste ponto, Karl Marx não errou. Equivocou-se na doutrina, acertou  na análise. É o maior analista da história. O fracasso do comunismo, na realidade, é a comprovação indireta da lente de análise marxista. O ser humano está, de fato, interessado em consumir e se capitalizar. Não em distribuir. O comunismo que passou no tempo, e só muito poucos não viram, para citar Chico Buarque, é
uma utopia, uma prática religiosa, só que sem Deus. E sem perspectiva da vida eterna. Não podia dar certo. Como está a renda em 2011?

Religião sem vida eterna é impossível. Não existe nenhuma delas que não acene com a nossa continuação para sempre. O comunismo, em sua essência, propõe – melhor dizendo,  propunha – um distributivismo cristão sem viagem à eternidade. Não dá pé. Mas estas todas são outras questões paralelas à concentração de renda, mas não propriamente integrantes do que se classifica como desigualdade social. Sempre haverá.

Pois as pessoas não são iguais. Se não são iguais, se as inteligências variam, como colocar dogmaticamente o tema da igualdade. Não pode ser. As diferenças sempre existirão. A pobreza também. Porém a miséria não deve continuar. Impossível sustentá-la sem o risco de um desequilíbrio institucional. A ONU também já revelou, em outro momento, que diariamente 20% da população universal vão dormir com fome porque não possuem recursos para comer, o mais elementar e, ao mesmo tempo, o mais essencial dos direitos humanos. Qual a explicação? Difícil compreender a frieza dos poderosos diante da vulnerabilidade dos mais fracos.

A miséria revela também, na mesma percentagem, o grau mundial de analfabetismo. Isso no século 21, quase dois mil anos depois de Jesus Cristo, já que ele morreu aos 33 anos de idade. Por que isso? Porque esse absurdo? Uma coisa entretanto é certa. Se a miséria não interessasse aopoder, tanto político quanto econômico, ela já teria desaparecido do mapa. Triste que não tenha se evaporado. É uma mancha vergonhosa para todos nós.

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