Se as estatais passaram a dar lucro, por que vender Furnas, Chesf, EletroSul e EletroNorte?

Lucratividade anunciada por Bolsonaro contrariou o posicionamento de Guedes

Pedro do Coutto

No discurso que fez ao abrir a sessão da ONU deste ano, o presidente Jair Bolsonaro fez uma afirmação que até aqui não foi destacada, nem no noticiário e nem nos comentários sobre os ângulos econômicos que se incluíram em seu pronunciamento. Ele afirmou, por exemplo, que as empresas estatais que davam prejuízos financeiros passaram a dar lucros em seu governo num espaço de tempo, portanto, de praticamente três anos.

Se as estatais passaram a ser lucrativas também sobre o prisma financeiro, além do caráter econômico e social, não há porque tentar privatizá-las, como é o caso de Furnas, da Chesf, da EletroSul e da EletroNorte que formam o sistema da Eletrobras e que, no fundo, é uma holding baseado nas empresas produtoras e transmissoras de energia elétrica. A privatização, desde o primeiro momento, foi defendida, como se constata  pelo ministro Paulo Guedes, que chegou  na reunião de 22 de abril de 2020 a dar ênfase a uma perspectiva de privatização até do Banco do Brasil: “vende logo essa empresa (usou outro termo), presidente”.

PRIVATIZAÇÃO – A lucratividade anunciada por Jair Bolsonaro certamente contrariou o posicionamento de Paulo Guedes, cuja proposta era a de realizar a privatização pela compra de ações no mercado que viessem a ser emitidas pela Eletrobras. Portanto, o projeto não tratava e nem trata da aquisição de ações do sistema que tem a Eletrobras como holding. Baseia-se aparentemente na colocação de novos papéis, o que transformaria a privatização em custo pouco acima de zero quando o comprador ou compradores assumissem a transação. Isso porque passariam a ser detentores das ações com participação nas decisões majoritárias.

Entre as decisões, poderia figurar, por hipótese, a emissão de novos papéis no mercado financeiro. Esta é uma questão essencial. Mas existem outras. A pergunta óbvia é a de que, se deficitárias tornaram-se lucrativas, em primeiro lugar o seu valor de mercado ampliou-se enormemente. Em segundo lugar, como me referi no título, não há razão para privatizar o que está fornecendo lucro no sistema estatal.

Somente me refiro ao setor elétrico porque é esse o ponto chave do projeto Paulo Guedes. Projeto que, por sinal, provocará forte reação eleitoral contrária à candidatura de Jair Bolsonaro nas urnas de outubro de 2022. Assim, dois fatores fundamentalmente contrários ao Planalto predominam no panorama político do país. Uma confusão.

MIL DIAS DE GOVERNO – Jussara Soares , Naira Trindade, Dimitrius Dantas, Gabriel Shinohara e Rayanderson Guerra, em reportagem publicada na edição de ontem, domingo, no O Globo, destacam que ao longo de mil dias de governo, a partir portanto de janeiro de 2019,  a média de crises no governo Bolsonaro é de três a cada trinta dias.

São múltiplas, sequentes, marcadas por avanços, recuos e por absurdos como a de cancelar eleições e não cumprir decisões do ministro Alexandre de Moraes, para citar apenas essas. A mais grave, porém, refere-se à absoluta desorganização na área do ministério da Saúde, no combate à Covid-19, bastando citar o episódio envolvendo a vacina indiana Covaxin, a intermediária Precisa  e o preço 50% acima do valor de mercado.

A Precisa estimou precisamente o valor de US$ 1,5 a unidade, quando o preço internacional é de US$ 1 por unidade. O combate à pandemia criou os piores reflexos, especialmente o que culminou com a demissão do médico Henrique Mandetta. Ao todo, lembram os repórteres, até agora foram substituídos 19 ministros. Na Saúde ainda, Marcelo Queiroga revela-se um desastre.

OUTROS EXEMPLOS – Mas não só ele. O que dizer de Ricardo Salles no Meio Ambiente? De Abraham Weintraub na Educação, que chamou os ministros do Supremo de vagabundos e que o presidente da República deveria prendê-los? Um capítulo à parte para não estender a mais alguns casos.
No caso de Sérgio Moro, este deixou-se levar pela perspectiva  de atuação que lhe foi falsamente aberta por Bolsonaro. Na realidade, naquela ocasião, como dono de uma imagem altamente positiva, a presença de Moro na Justiça avalizava o governo como um todo.

Foi um grande erro de Moro aceitar o cargo. Terminou demitido e agora procura candidatar-se à Câmara federal ou ao Senado no próximo ano. Não levou em conta, como lembra Naira Trindade, Jussara Soares e Evandro Éboli, O Globo, atenção constante num governo em que grupos de auxiliares lutam por prestígio junto ao chefe e com isso estimulam a tensão política e administrativa.

Isso de um lado. De outro, há ministro cuja atuação é totalmente desconhecida. Sergio Moro agora certamente reconhece o seu erro: se não aceitasse ser ministro da Justiça, hoje ele seria uma das grandes forças eleitorais do país. No momento, a mim parece que será certamente eleito deputado federal. Senador não garanto a mesma perspectiva.

MODELO DE CRISE – Esse é o panorama do governo e de um ministro que não deveria ser ministro por sua própria vontade, permanecendo na magistratura e buscando um mandato parlamentar nas urnas de 2022. Mas isso agora pertence ao passado. O fato dominante é que o Bolsonaro transformou o seu governo num modelo de crise permanente. São avanços e recuos. As urnas eletrônicas  não serviam e agora servem.

Participou de manifestações em Brasília pedindo o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso. Chegou ao ponto de ameaçar a realização das eleições para a Presidência da República.  Substituiu Castello Branco na Presidência da Petrobras pelos seguidos aumentos da gasolina e do diesel. Nomeou Luna e Silva que mantém exatamente a mesma política que prejudica eleitoralmente o chefe do Executivo.

A cada ponto em que aumenta a Selic, cresce em R$ 60 bilhões a despesa do governo com o pagamento de juros pela dívida interna na escala de R$ 6 trilhões. De contradição em contradição, Bolsonaro segue produzindo uma enciclopédia de crises, principalmente a crise social com parte da população sem dinheiro até para comprar alimentos.

22 thoughts on “Se as estatais passaram a dar lucro, por que vender Furnas, Chesf, EletroSul e EletroNorte?

  1. Fácil de responder essa pergunta. Para que não voltem a dar prejuízo, caso a catastrófica e$querda dê um golpe e volte ao poder, pois por vias normais e democraticas isso acontecerá.

    • O caso da Covaxin já esta mais do que explicado, NENHUM centavo de real ou dolar foi gasto. Ficou provado que o problema é que os senadores não sabem fazer conta e também não sabem diferenciar fatura proforma de fatura comercial, tendo a CPI um desmpenho desastroso em todos os sentidos.

      • Depois que o Jorginho fez com o Tucanorrupto Renam Tucanalheiros mais uma 4a. Via entra na parada para fazer sombra ao Mourinho e Joaquim Barbosa.
        Só não chamou o Tucanalheiros de trombadinha, mais o resto doeu até os joelhos do Tucaladrão…

        Jorginho para Presidente…!!!

  2. Porque não há mais nacionalistas neste país ! Existem mas são poucos. Nem a nossa língua está a salvo. Tudo agora é dito em inglês. Algumas empresas estratégicas mesmo dando prejuízo devem ser estatais . “Pra frente Sucupira”!!!!

  3. As estatais foram criadas, porque a iniciativa privada não queria investir na infraestrutura da Eletricidade, do Petróleo e da Metalurgia/Aço. Esse processo teve início no primeiro e no segundo governo Vargas, com apoio de militares nacionalistas.
    No regime militar/ civil grandes obras foram erguidas, cito o exemplo das Usinas Hidroelétricas de Itaipú e Tucuruí.
    Todo o parque industrial brasileiro era sustentado no início da década de 50, através de importações dos EUA e da Europa.
    Evidente, que isso desagradou o sistema internacional. Vargas foi atacado de todas as formas infames, o que levou o chefe da nação ao trágico gesto de dar fim a sua vida.
    Nos governos a partir de Itamar Franco, todos eles se destinaram a vender/ privatizar as Estatais, não importando se lucrativas ou não. A Vale do Rio Doce, privatizada no governo FHC, vendida por 3 bilhões valia 1 trilhão. Uma doação para bancos nacionais, Fundos de Pensão e investidores internacionais. E ainda uma parte foi financiada pelo BNDES.
    Agora, Bolsonaro e Guedes estão vendendo a preço de banana, a Petrobrás. Esses dois não moveram uma palha para construir e querem destruir. Bolsonaro ficou 30 anos no Parlamento e não há uma Lei da sua autoria e Guedes vivia uma vida de banqueiro intermediada por trabalhos no Chile de Pinochet. São dois entusiastas de regimes Ditatoriais. No regime democrático são dói zeros a esquerda. Inocuos por osmose.

  4. A privatização é viável. O problema é a forma.
    Porque não dividem o total de ações por 500 e as colocam a venda nos próximos 500 pregões? Não haveria como haver maracutaia.
    A EMBRAER ao ser privatizada a participação do governo foi vendida por US$ 145 milhões ao Bco Bozano Simonsen. Este revendeu 6 meses depois apenas uma parcela por US$ 480 milhões!
    E ninguém foi preso.

  5. Estatais são criadas para prestar serviço a população. O lucro é consequência.

    Liberais que dizem odiar o estado deveriam passar longe de estatais, mas estranhamente eles tem fetiches em administrar estatais para uma única função: endivida-las para na maior cara de pau dizer que estatais dão “prejuízos” e depois vende-las a preço de banana para grupos de estrangeiros que na sua grande maioria das vezes estão muito atrás em tecnologia das estatais brasileiras.

    Veja o caso da Petrobras em que nossa estatal desenvolveu tecnologia de perfuração na área do pre-sal, e agora os liberais brasileiros que não tem Pátria, querem entregar nossa tecnologia para estrangeiros que esses viralatas idolatram em bajular.

    • Assino embaixo Renato. Voce resumiu muito bem.
      Quando eles querem vender, vão sucateando aos poucos, não fazem concursos para substituir os empregados que se aposentam e impedem que as estatais consigam empréstimos para investimento.
      Depois pagam caro as propagandas no horário nobre, para desacreditar as estatais e chama- las de mastodontes.
      Não constroem, mas quando estão prontas, vendem para amigos nacionais e picareta as internacionais.
      Vejam o caso de privatização de aeroportos, iniciadas no governo Dilma, passando pelo governo Temer e finalizando agora com Bolsonaro.
      Os aeroportos de Viracopus/ SP e São Gonçalo do Amarante/RN privatizados se tornaram verdadeiros fracassos. Prejuízos e calotes em fornecedores e no valor de Outorga. Devolveram ao Estado e serão relicitados. Viracopus administrativo pela estatal Infraero, dava lucros anuais de mais de 600 milhões principalmente pelo modal de Carga Aérea.
      São Gonçalo do Amarante nunca deu lucro desde que foi inaugurado. Construíram um aeroporto moderno, distante 40 km da capital, Natal, em um Estado voltado para o turismo sazonal, com número reduzidissimo de passageiros mensais e sem Carga Aérea para sustentar os custos. Resultado: um grande mico.
      O Aeroporto do Galeão privatizado após pressão do governador Sérgio Cabral, em Consórcio com uma empresa chinesa e a Odebrecht, hoje está respirando por aparelhos. A Odebrechet já pulou fora.
      E ainda vejo defensores ferrenhos das Privatizações, como sendo a oitava maravilha do mundo, a solução para todos os males da Economia.
      Só falta dizerem que acreditam, em lobisomen, cabra cega e mula sem cabeça.
      Ó loco.

  6. Simples, pra garantir a boa vida dos empresários e banqueiros amigos.
    E aos doidinhos que defendem essa rapinagem com nosso dinheiro, vai esperar sentado pela queda no preço da energia, vai.

  7. O melhor momento para se vender alguma coisa é quando ela está valorizada ou se valorizando. Em termos das estatais elétricas, o correto não seria privatizá-las e sim desestatiza-las. Pode ser feito aos poucos, sondando o mercado, poderia ir se capitalizando a empresa com o governo diminuindo a participação de controle. Não é um bicho de 7 cabeças, basta que haja um minimo de competencia além da vontade politica.
    No que se refere a este desastroso governo o problema maior é a falta de competência. Em termos de politica energetica urge a criação de incentivos a alternativas sustentáveis como a energia eólica, solar e biomassa. Construção de grandes hidreeletricas é coisa do passado. Mas em grandes reservatorios é possivel implantação de placas solares que além de gerar energia, diminuiria a evaporação da agua dos mesmos, ajudando a diminuição de perda de agua por evaporação.
    Um perguntinha básica? Voces já viram alguma visita do presidente a parques eólicos, de energia solar ou de produção elétrica a partir da biomassa?

  8. Sandoval, ainda não contatei a visita presidencial em nenhum local mencionado, aonde se produza energia alternativa. Vamos esperar sentados, porque em pé cansa.
    Elle está preocupado com as redes sociais, cercadinho do Alvorada, Lives da quinta-feira e motociatas. Sobra tempo?

  9. Sou totalmente a favor da venda de estatal deficitária, mas vender empresa que dá lucro? Só pode ser coisa de maluco. E concordo com a mancada dada pelo Moro, se não tivesse caído no conto do mito mentiroso hoje ainda estaria nos braços do povo. Caso o Moro se candidate a deputado elege mais uma renca junto com ele, quem deve estar dando muita risada é o Álvaro, a bancada paranaense do partido vai explodir no número de deputados estaduais e federais.

  10. Ações na Bolsa compra-se na baixa pra vender na alta. Estatal lucrativa deve ser vendida pois quando vier abaixa o prejuízo fica pra quem comprou. O estado não deve ser mantenedor de cabides de emprego nas estatais.

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