Se Dilma negociar cargos para ter apoio, assinará sua rendição

Pedro do Coutto

O ministro Aloizio Mercadante afirmou – reportagem de Ranier Bragon e Márcio Falvão, Folha de São Paulo de ontem – que o apoio no Congresso Nacional será a condição exigida pela presidente Dilma Rousseff para que parlamentares, representando seus partidos, obtenham cargos no segundo e terceiro escalões do governo. A própria presidente da República cuidará pessoalmente da divisão, acrescentou o ministro chefe da Casa Civil. Bragon e Falcão assinalam que o grupo de Eduardo Cunha, novo presidente da Câmara, já tem uma lista de alvos.

A competência e o aval da legenda serão caracteres exigidos para as negociações. Incrível como uma questão dessa ordem possa ser colocada assim, à base de articulações que têm origem nas sombras de interesses quase pessoais, envolvendo uma série de reflexos pouco visíveis. Isso de um lado. De outro, sob o ângulo político, representará a rendição de Dilma Rousseff aos vencedores da batalha que se travou pela presidência da Câmara Federal. O Executivo terá capitulado frente ao Legislativo. Quando o equilíbrio rejeita qualquer tipo de rendição. No caso, inclusive, está em jogo não só a maioria parlamentar, mas a estabilidade do próprio governo.

Será possível que o nível político do país terá baixado tanto assim? Um autêntico toma lá dá cá restrito às lideranças projetadas em torno do Palácio do Planalto, as quais nada têm a ver com os anseios legítimos da população brasileira e do próprio país. Os componentes de tal acordo não poderiam – no passado – dizer o próprio nome das posições que estão assumindo.

SANTIAGO DANTAS

E por tocar nesse enfoque, eu recordo uma frase definitiva de Santiago Dantas, ao rebater argumento de Carlos Lacerda contra a posse de João Goulart em decorrência da renúncia de Jânio Quadros. “A posição não é legítima, porque nenhuma atitude é legítima se aquele que a assume não puder dizer, sem esforço, seu verdadeiro nome”. Repórter do Correio da Manhã, nunca esqueci a força da colocação de Santiago Dantas, um gênio do pensamento lógico organizado, um tradutor do complexo para o simples, uma verdadeira máquina de pensar.

Em minha opinião não existe legitimidade em acordos firmados de maneira em que foram anunciados numa espécie de pré-estreia pelo ministro Mercadante.

Chama atenção, inclusive, a forma com que fez a revelação, abertamente, aos repórteres. Como se fosse algo absolutamente normal, parte do jogo político. É claro que, no mundo, nenhum poder se livrará das regras implícitas inerentes a ele, as sutilezas, manobras, interesses econômicos. Porém há um limite para tudo. Não é cabível que, na tentativa de recuperar-se de uma derrota irrecuperável, a presidente Dilma Rousseff tenha de aceitar dividir o próprio poder, sua esfera singular de atuação.

Dividir, sim. Porque os nomeados por esse traçado caminho, em consequência, tornam-se “indemissíveis”. Ou então, se demitidos, antes do ato a presidente terá que fornecer explicações aos autores das indicações e, ao mesmo tempo, pedir-lhes a indicação dos substitutos. Como se vê, o problema não é simples. E a solução impossível. Até porque nas guerras as rendições são incondicionais.

14 thoughts on “Se Dilma negociar cargos para ter apoio, assinará sua rendição

  1. Dentro do CARO, confuso e caótico Sistema Político vigente, como diz o grande e experiente Jornalista Sr. PEDRO DO COUTTO, “se a Presidenta DILMA negociar cargos para ter apoio, assinará sua Rendição”. Mas a meu ver, se NÃO VETAR certos Nomes, estará mais Rendida ainda. O que é estranho é o Ministro-Chefe da Casa Civil ALOIZIO MERCADANTE vir a público, “alardear isso”. Isso se faz, não se fala. É natural que tendo perdido a Eleição para Presidente da Câmara dos Deputados, e Mesa Diretora, os Deputados que votaram contra o Governo, tenham seus “indicados” para cargos de 2ºs e 3ºs Escalões de Governo, VETADOS, pelo EXECUTIVO.

  2. Depois que disseram que fariam o diabo para ganhar as eleições, nada de anormal com essas “negociações”, onde integrantes do governo, do parlamento, entre outros personagens, vêm avançar o processo do “PETROLÃO” em relação a seus nomes. O país está em segundo plano!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *