Se fosse escrito hoje, o poema “A Queimada”, de Lêdo Ivo, não poderia ser mais atual

Frase Ledo IvoPaulo Peres Poemas & Canções

O jornalista, cronista, romancista, contista, ensaísta e poeta alagoano Lêdo Ivo (1924-2012), da Academia Brasileira de Letras,  aconselha (queime tudo o que puder) no poema “A Queimada”, pois a verdade não é para ser dita, ela é o eterno segredo. Vale ressaltar que, se este poema fosse escrito atualmente, poderíamos dizer que o teor foi inspirado em certas autoridades brasileiras.

A QUEIMADA
Lêdo Ivo

Queime tudo o que puder:
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a aterosclerose
os recortes antigos e as fotografias amareladas.

Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.
Seja como os lobos: more num covil
e só mostre à canalha das ruas
os seus dentes afiados.

Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.

Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita

4 thoughts on “Se fosse escrito hoje, o poema “A Queimada”, de Lêdo Ivo, não poderia ser mais atual

  1. Cabe aos alagoanos de bem nunca mais votarem em Arthur Lira (PP-AL), porque ele está se mostrando um canalha, corrupto, e aliado ao que há de pior, que é Jair Bolsonaro, e está sentado, sem levar ao conselho de ética mais de cem pedidos de impeachment do genocida Jair Bolsonaro.

  2. Esse poema de Ledo Ivo é um clássico.
    Mas, ele não se referia as questões do submundo da corrupção, da roubalheira, das mentiras das autoridades.
    Ivo remete as cartas de amor, aos e-mails enviados a amada, a confissão de amor eterno pelo telefone ou zap. Temia ele, que por um motivo ou outro essas confidências amorosas caíssem em mãos alheias e causassem sofrimento e dor.
    Por exemplo: uma paixão proibida. Dois amantes, apaixonadissimos, mas, com compromissos, porém, vivendo na clandestinidade. Então, um deles parte desse mundo. Os parentes acessam as redes, o celular, as cartas escondidas no baú do sótão empoeirado. Pronto, tudo é descoberto. O morto passa a ser execrado como um crápula, traidor o começa a caça as bruxas ao amante sobrevivente.
    Por isso, o poeta Ledo Ivo manda queimar tudo nesse poema A Queimada.

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