Se Lula e Dilma não são iguais, as equipes também não podem ser

Pedro do Coutto

Não existem dois seres humanos iguais no mundo. Claro, sem dúvida. Da mesma forma não podem ser idênticas as equipes de um governo e de outro. Lula governou com um ministério, Dilma governará com outro. Não quer dizer que alguns titulares não serão mantidos, ou remanejados para postos diferentes. É natural. O mesmo raciocínio se aplica ao BNDES, Banco Central, Banco do Brasil, Caixa Econômica e empresas estatais. Se as pessoas não são diferentes, seus estilos também, os horizontes não são os mesmos. Se esta lógica vale para o imediato, quanto mais para percurso ao longo do mandato da sucessora de Luís Inácio da Silva.

Começou a fase de transição. Surgem notícias, como a que O Globo destacou ontem, acentuando que Lula concorda com Antonio Palocci na Saúde, mas não na Casa Civil ou na área econômica. Se concorda com sua nomeação na área da Saude, é sinal que José Temporão não deverá ser mantido. Há sintomas de que Guido Mantega pode permanecer na Fazenda, mas Henrique Meirelles no Banco Central não. Por que isso? Simplesmente porque Rousseff condenou a atual política de juros que endivida a população. E se o responsável por ela é, mais do que Mantega, Meirelles. Mas Dilma conseguirá mudar a direção do Bacen? Terá que partir para um diálogo com os grandes banqueiros.

Basta dizer que a dívida mobiliária interna do país, como publicou no DO  o Secretário do Tesouro, Hugo Arno Augustin, atingiu 2,3 trilhões de reais, praticamente o valor do PIB. Aplicada a taxa Selic em cima do montante, os juros rendem aos bancos, sem risco, em torno de 240 bilhões por ano. Trinta por cento a mais do que toda  a  folha de pagamento do funcionalismo civil e militar. O funcionalismo custa 169 bilhões. Está no DO de 30 de setembro. O montante dos juros representa 90% da folha do INSS para pagar 25 milhões de aposentados e pensionistas. Os tecnocratas não gostam destas comparações verdadeiras.

Todos esses números e vários outros estratégicos fazem parte do universo político e tornam impossível qualquer análise política sem a ela incorporar os fatores da economia e a força dos interesses que a envolvem. Conheci – e conheço – alguns comentaristas que fracassaram ao separar um plano de outro. A análise política tem de ser feita sobre a realidade e não sobre aquilo que se supõe ser o universo estudado.

Suficiente dizer que não existe sinônimo para a palavra política. Ela é algo múltiplo, um     impulso, uma atmosfera, entre seus limites, momentos e rupturas. Uma síntese de desigualdades, uma conciliação entre os contrários.

Nunca no mundo houve dois governantes iguais. O governo de Dilma não poderá ser igual ao de Lula. Não quero dizer com isso que ela vá romper ou não com seu antecessor e eleitor maior. Desejo assinalar apenas que as diferenças são naturais. Mais que isso: são inevitáveis. Existem sintonias e não sintonias, simpatias e antipatias, convergências e divergências entre os seres. Muitas coisas vão mudar no país.

E se de um lado Dilma deve sua vitória a Lula, com o êxito nas urnas que marcou Lula no campo da aprovação pela sociedade, ela não pesou contra. O presidente que se prepara para deixar o palco central teria que  apoiar alguém. Se ela, Dilma, tornou-se a escolhida, foi porque o presidente da República a considerou capacitada e a de melhor personalidade para refleti-lo em votos. Assim é a política. Só a política? Não. Assim é a vida humana. Todos nós vivemos entre a expectativa e uma esperança. Será sempre assim.

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