Se não tivesse sido assassinada pela ditadura, seus cúmplices, apaniguados e arbitrários, a Tribuna da Imprensa estaria completando hoje 63 anos de história vivida, brava e destemida.

Helio Fernandes

Só um homem como Carlos Lacerda lançaria um jornal entre o Natal e o Ano Novo. Não é demérito nem depreciativo, apenas a realidade indiscutível. Pela convivência que tive com ele a partir da belíssima Constituinte de 1945/46, posso dizer: Lacerda queria mais um palanque do que um jornal, foi o que ele montou na Rua do Lavradio.

Na Constituinte, éramos 17 jornalistas credenciados. Eu era da revista O Cruzeiro, semanal, então escrevia um artigo com meu nome e vários com pseudônimos. Os fatos aconteceram durante 7 meses, foi a melhor constituinte, ultrapassou em muito a de 1891 e a de 1934. Com 24 anos de idade, foi meu melhor trabalho, que eu fazia com paixão.

Aí fiz grandes relacionamentos, incluindo Carlos Lacerda. Ele escrevia quase toda a segunda página do Correio da Manhã. O título geral da sua matéria era “Da tribuna da imprensa”. Significava que, dessa tribuna, ele “via” o mundo, opinava mais do que informava. E na verdade a vocação de Lacerda era mais de editorialista do que de repórter.

A Constituição foi promulgada em setembro de 1946, marcou eleições para governadores, deputados e vereadores em 19 de janeiro de 1947. Lacerda e Adauto Cardoso se elegeram vereadores, numa Câmara Municipal com 50 deles. Foi a melhor de todos os tempos. O Partido Comunista elegeu 19, a UDN 12, o PTB 11. Os outros 8, de partidos pequenos.

Naquele época o Partido Comunista era inteligente, “emburreceu” quando expulsaram Prestes. Eram debates frenéticos diários, só existiam dois microfones, e uma cátedra de onde falava o orador. Em 1948, o Partido Comunista teve o registro cassado, acabou o encanto. Logo Lacerda e Adauto renunciaram. Sem debates e polêmicas, de que adiantava o mandato?

Lacerda brigou com Paulo Bittencourt, deixou o Correio da Manhã, só pensava no seu jornal. Não tinha dinheiro, mas apesar disso parecer contradição, tinha uma capacidade espantosa de mobilização. Já se disse que ninguém ficava indiferente diante de Lacerda. Era adorado e odiado, na mesma proporção.

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FASCÍNIO E SEDUÇÃO

Usou o seu poder de fascínio e sedução, para capitalizar o empreendimento. O sucesso foi impressionante, principalmente com as mulheres. Chegou a juntar 8 mil delas, que levantaram tudo que era necessário para colocar o jornal na rua. Ele era o único acionista e proprietário, mas foram elas que levantaram dinheiro para tudo.

Essas mulheres compraram os prédios da Lavradio, as rotativas e linotipos, o que fosse necessário. Mais tarde, num achado de linguagem, Antonio Maria identificou essas mulheres como as “mal-amadas”. Não existia a menor possibilidade de ultrapassarem a faixa da admiração. Lacerda era um moralista completo, autêntico, sem nenhuma dúvida.

Com 17 anos, Lacerda subia as escadarias do Diário Carioca (então na Praça Tiradentes) levando artigos contra o país, duríssimos, mas que eram publicados. Tinha paixão pela mãe, dona Olga. E o ódio pelo pai vinha do fato dele ter uma amante, coisa normal da época.

Essas amantes, poderosas, exigiam um filho com mesmo nome do filho com a mulher verdadeira. O pai Mauricio Lacerda (notável personalidade, extraordinário orador) teve um filho fora de casa, que também foi jornalista. (Poderia citar 10 grandes homens públicos incluídos nessa dupla vida, que se chamava de “casa civil” e “casa militar”.

Finalmente saiu o jornal, mas não tão panfletário quanto ele desejava, distante do que se imaginava como jornal. As duas novidades, na primeira página: 1) Direção – Sobral Pinto, Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção, Adauto Cardoso, Prudente de Moraes, neto. 2) Uma forma de comunicação com o eleitor, que se chamava “redator de plantão. Como gostava de escrever, era sempre redigido por ele.

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O NOME DO JORNAL

A complicação surgiu com o nome para o jornal. Naquela época era possível registrar nomes e depois vender. Paulo Bittencourt (que não brigara com o Carlos) sugeriu o nome da coluna, só que em letra maiúscula: Tribuna da Imprensa. (Samuel Wainer, que lançaria seu jornal 2 anos depois, teve que comprar, no exterior, o título Ultima Hora).

Carlos Lacerda ficou com o jornal por 11 anos, as dificuldades foram enormes, insuperáveis. Depois deputado federal, se dedicava mais à política e à luta pelo Poder e contra o Poder, que ele achava a porta para a presidência. Sempre acreditou que chegaria a presidente, mesmo no ostracismo não abandonou essa ideia.

Com a mudança da capital, o então Distrito Federal transformado em Estado da Guanabara, realizou sua primeira eleição de governador. Lacerda logo se candidatou e se elegeu. Só que teve 29 por cento dos votos, ganhando (?) do comunista Sergio Magalhães, que teve 27 por cento. Mas foi derrotado para vice, Eloy Dutra ganhou do seu candidato, a eleição era esperada.

Lacerda, que fez campanha contra a posse de Vargas em 1950, por ter tido apenas 43 por cento dos votos, e contra JK em 1955 com 36 por cento, tomou posse com 29 por cento. Esqueceu que ele e o tenente-coronel Golbery (amicíssimos) exigiam maioria absoluta, que não existia em nenhuma lei. Golbery veio à posse de Carlos Lacerda (eu não fui), só romperam em 1964 na preparação do golpe, Lacerda já sem jornal.

Tomou posse em 5 de dezembro de 1960, desesperado por não poder fazer as duas coisas: o jornal e o governo. Os filhos ainda pequenos, aconteceu o milagre ou a sorte. Nascimento Brito, todo-poderoso no Jornal do Brasil como genro da condessa, queria um jornal todo seu. Sem saber dos problemas de Lacerda, procurou-o para comprar o jornal.

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LACERDA FICOU RICO

Lacerda nem acreditou, resolveu a duplicidade das funções e ficou rico. Com o que recebeu de Nascimento Brito, fundou a Editora Nova Fronteira, comprou a poderosa Aguilar da Espanha, a Imobiliária Nova York, dos irmãos Magalhães, criou uma imobiliária só para negócios na Baixada e outros municípios locais, e construiu o maravilhoso sítio no Rocio, adquiriu terras em Ubatuba.

Nascimento Brito encheu o jornal com gente de nome e sobrenome. Quem era quem no jornalismo foi para a Tribuna da Imprensa. Convidado, recusei, eu tinha um acordo total com João Dantas no Diário de Notícias. O Millôr foi, mas no seu estilo, exigiu “meu primeiro artigo tem que ser contra Dom Helder Câmara”.

Mas só durou um ano. No final de 1962, Nascimento Brito me fez a proposta irrecusável. Sem nenhum dinheiro, assumi o ativo e o passivo da Tribuna. Cheguei em novembro de 1962, em junho de 1963 já era preso, antes do golpe. Fui julgado pelo Supremo, o único jornalista que passou por isso em toda a República. Fiquei lá no plenário, vendo e ouvindo quatro ministros dizerem que eu era um herói nacional, quatro a me chamarem de traidor. (De quê?)

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PS – Tenho que parar, de outro jeito não acabo mais. Fiquei 46 anos, na maior resistência diária, nas duas ou três ditaduras que o país conheceu.

PS2 – No processo que a Tribuna moveu contra Médici e Geisel (em plena ditadura, fato inédito), juntamos mais de 3 mil páginas internas em branco, 1.065 primeiras páginas também em branco.

PS3 – Me recusei sempre a preencher espaços em branco com calhaus ou receitas de bolo, conforme exigência dos censores. Considerava que a concordância significaria subserviência e submissão. Como a ditadura não queria fechar o jornal, com medo da repercussão internacional, me prendia, mas os espaços em branco ficavam livres.

PS4 – Nesses 46 anos, dissipei todo o meu patrimônio, nenhum remorso ou arrependimento. Em dezembro de 2008, não deu mais. Sem falar no que escrevi em outros veículos, nesses 46 anos da Tribuna, escrevi cerca de 15 mil artigos e 15 mil colunas.

PS5 – Muita gente me pede, editores também. Se eu selecionasse 1 por cento do que escrevi, 150 artigos e 150 colunas, o esforço seria satisfatório. Gosto de mais de 10 por cento do que escrevi nesses 46 anos. Incluindo o último artigo impresso, o de 1º de dezembro de 2008.

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