Se Paes pede socorro para Conferência Rio + 20, que dirá para a Copa?

Pedro do Coutto

O prefeito Eduardo Paes – reportagem de Ludmila de Lima, O Globo de sábado – dirigiu-se à população do Rio no sentido de que concorde em alugar dependências de onde moram para hospedar visitantes estrangeiros, e também nacionais, que vão chegar à cidade em junho para participar , assistir e cobrir, no caso dos jornalistas, o evento Rio + 20. A bela foto que acompanha a matéria é de Paulo Nicolela.

São vinte anos depois, para lembrar o título famoso de Dumas pai, após a Rio 92 que debateu a ecologia, o meio ambiente e sua preservação. Teve grande repercussão. Porém nada foi feito. Pelo menos no estado do Rio de Janeiro e no país. A inércia e o imobilismo de sempre. Enganação como resultado. Mas este é outro assunto.

A questão em pauta, agora, é a escassez de ofertas na rede hoteleira. Claro. Pois, caso contrário, Eduardo Paes não faria o apelo que fez. Em vão, penso eu. Quem vai se dispor a liberar quartos e banheiros para receber desconhecidos? Muito difícil. Em primeiro lugar, significa tolhimento da liberdade familiar usual. Segundo, o constrangimento. Incomoda a presença de estranhos. Não há quem não reconheça a mudança de atmosfera. Terceiro, o problema do pagamento, que nem sempre se realiza. Em quarto lugar, para encerrar a lista de obstáculos, o temor natural de desaparecerem objetos, o que é comum.

Quando se sai de casa, não se sabe o que os estranhos poderão fazer. Tudo isso pesa contra. A favor apenas a perspectiva de melhorar um pouco a renda de um mês. Os riscos são enormes. Não vale a pena. Mas o problema principal ainda não se localiza na falta de visão do prefeito e da ausência de sensibilidade para com o comportamento humano.

Está na perspectiva que ele abre, perspectiva ruim, em relação à hospedagem para a Copa do Mundo em 2014 e, também, para a Copa das Confederações em 2013, o ano que vem. Se faltam moradias para um evento como o Rio Mais 20, por muito maior razão vão escassear para a Copa de daqui a dois anos. Não há termos de comparação entre um acontecimento e outro. Para a Copa do Mundo virá ao país uma verdadeira multidão de estrangeiros. A imprensa, a televisão, o rádio, a internet em peso. As agências de notícias trazendo todo um arsenal de equipamentos.

A Rio + 20 atrairá muita gente. Mas não será capaz de mobilizar a cobertura que mobiliza uma Copa. E não é só a hospedagem. São os aeroportos, o transporte, a circulação de pelo menos 100 mil pessoas, inclusive turistas em larga escala, atraídos naturalmente pela propaganda que as agências de viagem farão no exterior.

Se quem pode o mais pode o menos, como no velho ditado, quem não pode o menos não pode o mais. Se faltam habitações para junho de 2012, imaginem para julho de 2014. Extremamente preocupante o panorama anunciado e sinalizado por Eduardo Paes. Consequência da falta de planejamento que se reflete na tendência brasileira de deixar tudo para a última hora. Tudo. Até no acesso às sessões de cinema acontece.

Mas, sabendo disso, Eduardo Paes deveria ter previsto a realização de um trabalho sério dentro da realidade existente e inevitável. Não se muda uma cultura de comportamento em breve espaço de tempo. Demora. Dir-se-á: isso já deveria ter sido incutido no povo por administrações anteriores que se perdem na noite dos tempos. É verdade. Porém não quer dizer que não deva ser feito pelo prefeito de hoje.

Eduardo Paes, como revelou Ludmila de Lima, abriu a perspectiva de um desastre. Que não envolve apenas o Rio e o RJ, mas o país e, portanto, o governo Dilma Rousseff.

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