Se Ruy Castro recuperou-se internado, Ronaldo não podia jogar em 98

Pedro do Coutto

O jornalista Ruy Castro, leio na Folha de São Paulo de terça-feira 28, recuperou-se da convulsão, já se encontra felizmente em sua residência, depois de oito dias de internação no Hospital São Lucas. Fraturou o ombro, consequência da queda que sucedeu a mal súbito. Ora, se Ruy Castro, ao sofrer uma crise convulsiva, teve que permanecer oito dias numa casa de saúde sob cuidados médicos permanentes, é lógico que Ronaldo Fenômeno, acometido também por uma convulsão em 98, na manhã da final da Copa do Mundo contra a França, não poderia entrar à tarde em campo.

Por qual motivo Zagalo o escalou, depois de anunciar sua substituição por Edmundo? Qual a Influência exercida por Ricardo Teixeira, presidente da CBF, talvez reflexo de contrato entre as entidades e a Nike? Estas perguntas se perdem no tempo. Mas a comparação entre o brilhante escritor e o maior artilheiro das Copas inevitavelmente conduz a um panorama de absoluta impossibilidade.

Antes de recorrer à relatividade, vale acentuar a diferença de idade e também o fato de que Ronaldo Fenômeno somente se tornou o maior artilheiro em taças do Mundo depois da Copa do Japão, quando fez os dois gols em nossa vitória na final contra a Alemanha.

Convulsão é algo – me explica o médico Pedro Campello, meu amigo – que pode ter uma série de causas. Umas mais complexas, outras menos, mas nenhuma delas simples.A pessoa perde a consciência e a respiração por 30 segundos e vai ao solo. Ruy Castro fraturou um ombro. Entre as menos graves, pode a convulsão ser consequência de intoxicação, por febre alta, consequência também de uma infecção mais forte. Entre as causas mais complicadas , alinham-se a seqüela de um traumatismo cerebral, um acidente vascular, ou – situação mais extrema – epilepsia.

Nenhuma desta situações mais graves refere-se a Ruy Castro. De qualquer forma, o tratamento imediato requer pelo menos a aplicação de tranqüilizante injetável, como Valium. Injetável porque o estado convulsivo reflete-se no ato de engolir, razão pela qual não é aconselhável o uso de comprimidos. O paciente pode se engasgar e isso vir a atrapalhar ainda mais a respiração. Nos quadros convulsivos mais intensos, a perspectiva é a administração de barbitúrico.

Vamos ficar no lado mais leve. Porém mais que suficiente para proibir algum atleta de entrar em campo para jogar futebol. Esporte que inclusive envolve o choque corpo a corpo em seguidas situações. Aliás como aconteceu com o próprio Ronaldo no início da partida decisiva contra a França em Parc Des Princes, no Boulogne. Assim, se naquela triste manhã da sempre bela primavera de Paris, Ronaldo teve de fato uma rise convulsiva, claro teve que tomar um tranqüilizante injetável, na interpretação lógica de Pedro Campello e também na visão dos não médicos que apenas pensam com lógica.

O futebol é uma competição que exige muito dos atletas. Tanto assim que perdem de 2,5 a 3 quilos de peso em um jogo, de seu início ao apito final do juiz. Ronaldo estava lerdo na final de 98. Não poderia ter entrado, Zagalo, que conhece profundamente o futebol, sabe disso. Sabia na época, portanto.

Nós, torcedores, conhecemos futebol da arquibancada para o campo. Zagalo conhece do vestiário para o gramado. A diferença é enorme. Supondo que não tenha ocorrido uma convulsão, mas apenas uma crise nervosa, também não poderia ter sido escalado. Um jogador que amarela não pode entrar no time.

Zagalo conhece também muito situações desse tipo. É possível que tenha sido esta a hipótese. Quatro anos depois, na Copa Japão-Coreia do Sul, o treinador Felipe Scolari assumiu a figura do paizão de Tennessee Williams e passou segurança ao artilheiro. Grande jogador sem dúvida, mas também um ser humano. No fantástico universo do futebol, uns crescem com a responsabilidade, como Pelé; outros não. Precisam de apoio.

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