Se tudo é fascismo, nada é fascismo, e isso vale para golpe, ofensa, misoginia, homofobia, opressão…

Resultado de imagem para a arte de perder livroEduardo Affonso
O Globo

Há mil e uma técnicas para conquistar a pessoa amada, e não faltam nos postes da cidade anúncios de quem se disponha a trazê-la de volta em três dias, no caso de extravio. Mas não há um tutorial sequer sobre como perder, de forma indolor, quando o amor — ou o poder — acaba.

É que perder não é uma técnica — é uma arte. Perdem-se guerras, trens, as chaves de casa, a compostura. Perde-se tempo tentando convencer o outro, quando se sabe que isso não passa de artifício para acomodar dentro de si alguma meia verdade indigesta.

SEM MISTÉRIO – A arte de perder não é nenhum mistério. Perdem-se campeonatos, processos, oportunidades. A hegemonia política. O monopólio da verdade. E não há Pai Jonnathan de Ogum ou Vovó Jennyfer da Gamboa que os resgatem.

Palavras perdem o sentido. Estupro, ao significar tudo, significa nada. Se tudo é fascismo, nada é fascismo. E isso vale para golpe, ofensa, misoginia, homofobia, opressão.

É preciso saber perder com dignidade. A eleição, a discussão, o protagonismo. O presidente perde as estribeiras sempre que é criticado. A oposição perde a noção de ridículo ao inventar uma ditadura em vigor e um Armagedon a caminho — bastava apontar os erros que o governo se esmera em cometer.

AOS POUQUINHOS – Perdemos um pouco a cada dia. Um pouco de esperança, de disposição para o diálogo, de discernimento. E cada vez mais rápido. E com menos critério.

Por isto, este texto calcado no poema “A arte de perder”, da Elizabeth Bishop (na tradução de Paulo Henriques Britto). A poeta foi anunciada como a homenageada da Flip 2020, e houve quem não perdesse a deixa para lembrar que ela descreveu 1964 como “uma revolução rápida e bonita”. Que morou mais de 20 anos no Brasil e não perdeu o olhar e o paladar estrangeiros — achava os brasileiros preguiçosos, não gostava de goiabada com queijo…

A Feira Literário-Ideológica de Paraty promete fazer com Bishop — caso seja confirmada — o que não fez com outros agraciados que também viram com simpatia o golpe de 64, como Guimarães Rosa e Manuel Bandeira. Mais ou menos o que se ensaiou com Euclides da Cunha (“machista”, “racista”).

E OS OUTROS? – Drummond foi dedicado burocrata no governo Vargas. Gilberto Freyre defendia a “democracia racial” e se manteve próximo do Estado Novo. Machado de Assis escreveu para os brancos (à época só 15 em cada 100 brasileiros sabiam ler — e quase nenhum deles era preto).

Nelson Rodrigues não provocou a ira dos comunistas, nem Jorge Amado e Oswald de Andrade a dos anticomunistas (ou mesmo dos próprios comunistas, já que ambos os escritores fizeram autocrítica). Clarice Lispector não sofreu boicote dos antitabagistas nem Hilda Hilst foi sabotada pelos ateus — apesar de ter, de gravador em punho, tentado em vão registrar conversas com os espíritos.

E daí? Sua obra — assim como a de Lima Barreto, Mário de Andrade, Millôr, Vinícius, Graciliano Ramos, Ana Cristina César — é que é objeto de reverência, de debate.

SEM XENOFOBIA – Mas gente que é contra a xenofobia declara que não faz sentido homenagear uma estrangeira. Gente a favor da diversidade não quer discutir o diferente. Quer ressignificar, a partir da perspectiva que se tem meio século depois, um comentário pessoal feito dias depois de um evento. É como se se desse conta de perder um território, uma batalha — e lhe faltasse munição.

Por que não o monumental Pedro Nava, a arrebatadora Cecília Meireles, o irretocável João Cabral, o indefinível Manoel de Barros? Bem, Nava se matou (a Flip será um mês antes do “Setembro Amarelo”, de prevenção ao suicídio). Cecília escreveu aos 17 anos um poema dedicado a Nero (já temos piromaníacos de sobra), Manoel de Barros criava gado (crueldade animal), João Cabral era macho, branco, hétero…

MULTIFACETADA DEMAIS – Talvez por estar perdendo espaços, a esquerda considere Bishop — mulher, lésbica, eleitora do Partido Democrata — multifacetada demais para ser a Frida da vez.

Pode ser que a Flip perca a cabeça e volte atrás, agora com uma escolha sem mácula, portadora do selo de pureza ideológica, ambiental, racial.

É que demora um pouco para se dominar a arte de perder — a pessoa amada, o bonde da história, as ilusões. E não há — digam o que disserem os avisos nos postes da cidade — pai de santo que os traga de volta.

(Artigo enviado por Mário Assis Causanilhas)

A ARTE DE PERDER (Elizabeth Bishop)

Resultado de imagem para elizabeth bishopA arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

25 thoughts on “Se tudo é fascismo, nada é fascismo, e isso vale para golpe, ofensa, misoginia, homofobia, opressão…

  1. Tragédia brasileira
    Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade, conheceu Maria Elvira na Lapa – prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
    Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura… Dava tudo o que ela queria.
    Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
    Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
    Viveram três anos assim.
    Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
    Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bom Sucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos…
    Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.
    Carlos Drummond de Andrade – em tradução de Elizabeth Bishop

    • Brazilian tragedy
      Misael, civil servant in the Ministry of Labor, 63 years old,
      Knew Maria Elvira of the Grotto: prostitute, syphilitic, with ulcerated fingers, a pawned wedding ring and teeth in the last stages of decay.
      Misael took Maria out of “the life”, installed her in a two-storey house in Junction City, paid for the doctor, dentist, manicurist… He gave her everything she wanted.
      When Maria Elvira discovered she had a pretty mouth, she immediately took a boy-friend.
      Misael didn’t want a scandal. He could have beaten her, shot her, or stabbed her. He did none of these: they moved.
      They lived like that for three years.
      Each time Maria Elvira took a new boy-friend, they moved.
      The lovers lived in Junction City. Boulder. On General Pedra Street, The Sties. The Brickyards. Glendale. Pay Dirt. On Marquês de Sapucaí Street in Villa Isabel. Niterói. Euphoria. In Junction City again, on Clapp Street. All Saints. Carousel. Edgewood. The Mines. Soldiers Home…
      Finally, in Constitution Street, where Misael, bereft of sense and reason, killed her with six shots, and the police found her stretched out, supine, dressed in blue organdy.
      .

  2. No esquerdismo (socialismo) e no Islamismo tem muito disso.
    Como religiões políticas, grande parte de seus crentes obedece cegamente sua moral que estabelece quem é “bom” e quem é “mau”. O fiel e o infiel.

    Com o aparelhamento das nossas universidades hoje por gente assim, as fogueiras para a condenação dos hereges estão acesas.

    • Essa gente já chegou ao poder e por pouco nos transformou na Venezuela hoje.
      Temos que vigiar e orar para que isto não aconteça novamente.

      PS. Em matéria de violência, num regime socialista-fascista ela é bem menor, mas existe.
      O caso dessa gente a que se refere o artigo é de socialismo-comunista.

      Só para lembrar, a religião socialista, como Nietzsche a denominou, se dividiu em três vertentes: a comunista, a nazista e a fascista. Esta última foi implantada aqui por Getúlio em 35. Também na Argentina por Perón e no México com sua revolução que, com seu partido, o PRI, governou o México por mais de 70 anos.

      • “O diabo empalidece comparado a quem dispõe de uma verdade, de sua verdade. Somos injustos com os Neros ou com os Tibérios: eles não inventaram o conceito de herético: foram apenas sonhadores degenerados que se divertiam com os massacres. Os verdadeiros criminosos são os que estabelecem uma ortodoxia no plano religioso ou político, os que distinguem entre o fiel e o cismático.” Cioran

      • Amigo, por gentileza. poderia me passar a referência onde poderei encontrar a menção de Nietzsche sobre o comentário: “a religião socialista, como Nietzsche a denominou, se dividiu em três vertentes: a comunista, a nazista e a fascista.”
        Desde já agradeço.

        • Nietzsche denominou o socialismo como uma nova religião, que veio para substituir as antigas.
          No século seguinte ela se dividiu nas tres correntes que citei.

          “O socialismo é o fantasioso irmão mais jovem do quase decrépito despotismo, do qual quer herdar; suas aspirações, são, portanto, no sentido mais profundo, reacionárias. Pois ele deseja uma plenitude de poder estatal como só a teve alguma vez o despotismo, e até mesmo supera todo o passado por aspirar ao aniquilamento formal do indivíduo: o qual lhe aparece como um injustificado luxo da natureza e deve ser transformado e melhorado por ele em um órgão da comunidade adequado a seus fins.

          Em virtude de seu parentesco, ele aparece sempre na proximidade de todos os excessivos desdobramentos de potência, como o antigo socialista típico, Platão, na corte do tirano siciliano: ele deseja (e propicia sob certas circunstâncias) o Estado ditatorial cesáreo deste século, porque, como foi dito, quer ser seu herdeiro.

          Mas mesmo essa herança não bastaria para seus fins, ele precisa de mais servil submissão de todos os cidadãos ao Estado incondicionado como nunca existiu algo igual; e como nem sequer pode contar mais com a antiga piedade religiosa para com o Estado, mas antes, sem querer, tem de trabalhar constantemente por sua eliminação – a saber, porque trabalha pela eliminação de todos os Estados vigentes -, só pode ter esperança de existência, aqui e ali, por tempos curtos, através do extremo terrorismo.

          Por isso prepara-se em surdina para dominar pelo pavor e inculca nas massas semicultas a palavra ‘justiça’ como um prego na cabeça, para despojá-las totalmente de seu entendimento (depois que esse entendimento já sofreu muito através da semi-cultura) e criar nelas, para o mau jogo que devem jogar, uma boa consciência.

          O socialismo pode servir para ensinar, bem brutal e impositivamente, o perigo de todos os acúmulos de poder estatal e, nessa medida, infundir desconfiança diante do próprio Estado.
          Quando sua voz rouca se junta ao grito de guerra ‘o máximo possível de Estado’, este, em um primeiro momento, se torna mais ruidoso que nunca. Porém logo irrompe também o oposto, com força ainda maior: ‘o mínimo possível de Estado’.

          (Friedrich Nietzsche, “Humano, demasiado humano”)

  3. Artigo magnífico. Põe para refletir. As pessoas estão chatas, tudo é fascismo para quem não aceita que o outro pense diferente e eventualmente tenha até razão. E os verdadeiros fascistas se escondem na perda do significado das palavras.

  4. O autor pode respirar tranquilo. Agora tudo é cumunixmo. Os quadrúpedes podem quebrar seus discos dos Beatles. Afinal, graças ao Guru Olavo de Carvalho, sabemos agora que as letras da banda foram compostas por Theodor Adorno. Os quadrúpedes também podem queimar os seus discos de Rock: afinal, graças ao Dante Mantovani, sabemos que ““o rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto”.

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk xD

    • EM TEMPO:

      Depois dessa pérola do Dante, vai ter Quadrúpede Borxonete que nunca mais vai fazer sexo na vida, com medo de ativar a indústria do aborto……

      “Aiinnnnn, eu quero fazê sexo mas num quero ativar a indústria do aborto!!!!!!!!!!!”

      kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk xD

      • EM TEMPO 2:

        Os quadrúpedes podem poupar os discos do Angra e do Metallica. O Dante falou que essa duas bandas são legais…….

        “Aiinnnnn, eu sô conxervadô, Terraplanista e virei fã de Angra e Metallica!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”

        • A História está aí.

          Como vc não a conhece , nega que o comunismo, o nazismo e o fascismo, que vertentes da ideologia socialista, que Nietzsche a denominou como uma religião, sempre linchou aqueles que não compartilhavam de sua taras.

          Como sempre demonstrou em seus posts, você não deixa dúvidas sobre isso.

  5. Arte de perder? Que bobagem. Nós brasileiros, estamos cansados de perder.
    O que precisamos mesmo é praticar a arte de ganhar. Como seria isso? Estamos tão acostumados a perder que nem sabemos como é isso.
    Perder não é uma arte, mas é uma submissão, um conformismo com a situação.
    O homem só progrediu porque muitos procuraram vencer. Não se conformaram com a mesmice, não se acostumaram a sempre perder.
    Aí o jornalista faz analogias nada a ver. Tenta colocar comportamentos inaceitáveis na vala comum. Para ele, estupro, fascismo, xenofobia, etc.. são coisas triviais. Que não devem ser ressaltadas. Que nós acostumemos a perder. Que abdiquemos de vencer esses preconceitos.
    Que fase..

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