Segredo (agora) não é mais para quatro paredes

Pedro do Coutto

A divulgação por etapas, pelo site Wikileaks, de cerca de 240 ou 250 mil telegramas trocados entre representantes diplomáticos dos EUA no mundo principalmente a Secretaria de Estado provocou uma dupla tempestade: a que já aconteceu, pelo que já foi publicado em matéria de inconfidências e informações impressionistas de cada redator, e pelo que poderá suceder se forem divulgados conteúdos outros ainda mais profundos e sensíveis.

Na edição de 30 de novembro de O Estado de São Paulo foi publicado primoroso artigo do historiador Timothy Garton Ash, titular da cadeira de Estudos Europeus da Universidade de Oxford, focalizando o tema incluindo a explosão de revelações que, acentuou, são o sonho dos historiadores. Antes os pesquisadores precisavam de 20 a 30 anos para terem acesso a assuntos reservados. O Wikileaks encurtou essa distância para 30 semanas. Na mesma edição de O Estado de São Paulo, Hillary Clinton afirmando-se indignada,
disse ter ocorrido tanto roubo quanto vazamento.

Estamos em plena era da Internet,  portanto da informática, da globalização, do fim da privacidade, como aliás previu Francis Coppola no filme “Conversation”, exibido no Rio mais ou menos há 34 ou 35 anos. Era uma visão da véspera. Conformou-se plenamente. O futuro chegou ao presente. E eu me lembro do belo samba de Herivelto Martins, de 1946, “Segredo É Para Quatro Paredes”, gravação do então trio de Ouro na época formado por ele, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas. Mas voltemos aos dias de hoje.

Timothy Garton Ash analisa as mensagens pitorescas trocadas na mão dupla entre Washington e as embaixadas americanas no exterior, separando aquelas que revelam obsessiva preocupação com a segurança, o terrorismo, a questão nuclear, das demais. “O contra terrorismo contaminou – disse – todos os aspectos da política externa americana”. A produção de textos a respeito de espionagem é enorme, faria John Le Carré (autor do “Espião Que Saiu do Frio”) parecer um autor sóbrio. Mas procurei cotejar a apreensão com o que já saiu nos jornais com o material que ainda poderá sair. Aí é que se encontra o problema mais grave. O que foi publicado foi, não tem jeito. Ironias envolvendo o primeiro-ministro da Rússia, Putin, abordando o comportamento sexual de Berlusconi, a rigidez da premier alemã Ângela Merkel, a inconfidência do ministro Nelson Jobim, são outra coisa. Putin foi comparado a Batman e o presidente da Rússia, Medneved, a Robin.

Outra coisa será se o Wikileaks publicar assuntos financeiros envolvendo pagamento de comissões por vendas efetuadas e contratos firmados. Daí a preocupação maior, , sobretudo porque possivelmente existem casos em que diplomatas atuaram como lobistas e obtiveram recompensas. Pagamentos de comissões quase sempre incluem casos de suborno e overprice, cujas diferenças terminam sendo depositadas em bancos suíços. Esta, certamente, mais forte ponto de tensão de todo esse episódio. Desce o palco dos acontecimentos e negócios internacionais como uma sombra cuja transparência não pode ser desvendada. Porque, certamente, são bilhões de dólares em jogo.

Volume de dinheiro capaz até de sensibilizar Wall Street e as bolsas de valores de todo o mundo. Pessoalmente não creio na hipótese de os editores do Wikileaks chegaram a esse ponto de ruptura. Mas só em pensar na possibilidade, os que podem ser alcançados pelas informações perdem o sono. Perdem o sono e, claro, não adormecem. Afinal de contas, como diz o título de filme em exibição por aqui, “Wall Street não dorme”. Os depósitos na Suiça também não. Mas hoje, não é nem mais para quatro paredes.

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