Segurança em Medicina – do Titanic ao Costa Concórdia: “Vada a bordo, cazzo…”

Alfredo Guarischi

Frases curtas e densas passam para a história. Seus autores nem sempre. Neste caso do naufrágio na Itália, o autor tem um nada a declarar sereno, como um técnico cumpridor de sua missão – preservar vidas. “Fiz o que me cabia fazer…”

Na medicina tivemos alguns Titanics. Algumas vezes naufragamos após colidir em icebergs. Há a ilusão de termos atingido a perfeição e que coisas ruins jamais se repetirão. No Titanic, entre outros fatos, os botes e os coletes foram em número insuficiente. Por isso morreram mais passageiros embarcados nas classes inferiores e tripulantes. Foram trancafiados criminosamente. No sistema de saúde ainda existem cadeados.
Quando um moderno navio, Costa Concórdia, com mais de 4 mil pessoas naufraga e salvam-se mais de 95% das pessoas a bordo, poderíamos supor que foi feito o melhor. Ledo engano.

Este desastre poderia ser evitado e a evacuação foi inadequada. Não estamos em 1912. O navio tinha tudo de mais moderno. As pedras não saíram do fundo do mar para furar seu casco. Sonares e comunicação não faltavam. Havia botes e coletes para todos. Treinamentos são realizados para lidar com imprevistos. Não faltam normas.

As embarcações se modernizaram, pois houve demanda e tecnologia. Vikings e Fenícios viraram história. Navegar, além de ser preciso, virou um lucrativo negócio. O mesmo ocorreu na medicina.

Profissionais de saúde, como marinheiros, perderam o espírito de desbravadores. Na saúde o sacerdócio transformou-se na necessidade por múltiplos empregos. A maioria ainda acredita na forma antiga – vocação. Os vestibulares confirmam. Mas não temos como sustentar nossas famílias sem receber pelo nosso trabalho.

Ainda somos privilegiados se olharmos os professores de nossos filhos e outras categorias profissionais que fazem o espetáculo continuar. Como eles, também não temos acesso à bilheteria. Parecemos marionetes. Estamos numa estrada como Alices e seus imortais parceiros.

A medicina de hoje possui modernos “transatlânticos”. Dispomos de equipamentos de dar inveja ao nosso ancestral grego. Não somos mais os vikings do passado, polivalentes – em todos os sentidos. Somos uma equipe composta de médicos, com diversas especializações, dividindo o cuidar do paciente com enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, técnicos diversos e um número enorme de profissionais. Mas, mesmo assim, ocorrem naufrágios.

Hoje salvamos muito mais vidas do que no passado, mas poderíamos evitar alguns acidentes e salvar nossos náufragos em maior quantidade.

O Costa Concórdia já tem um culpado confesso. Tem pelo menos um herói que recusou o título. Alguns países inventam heróis para comercializá-los. Alguns “bons moços ou moças”, após tragédias, pegam carona no populismo e vão à busca de ganhos pessoais ou políticos.

Mas este naufrágio tem outras causas para ter ocorrido, pois não existe acidente sem precedente. As evidências começam a surgir. Em medicina ocorre o mesmo. Morte na porta de hospitais, troca de medicamentos, cirurgias no local errado decorrem de ações de pessoas, porém o sistema de saúde não tem uma cultura de segurança adequada.

Erraram e continuaram errando, sem dolo. Na maioria destes casos, existem outros fatores (sistêmicos) que uma caixa-preta ajudaria a desvendar. Enxergar os outros sistemas ajuda entender o que acontece em nosso convés – da medicina.

Como na navegação, a maioria dos profissionais de saúde não abandona o barco. Fiquemos juntos e mudaremos o sistema. Cidadãos de branco, no mar e na saúde, não devem abandonar suas raízes vikings e gregas.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *