Sem consumo não pode haver crescimento econômico

Pedro do Coutto
Em uma entrevista de página inteira ao repórter Valdo Cruz, Folha de São Paulo de sexta-feira 31, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, afirmou que o consumo não será mais carro-chefe do crescimento econômico brasileiro. O maior peso para impulsionar o Produto Interno Bruto – acentuou – virá dos investimentos. Francamente, como pode ser isso? Os níveis de consumo e os investimentos não são excludentes ou contraditórios entre si. Pelo contrário. Um maior volume de investimentos depende do consumo pelo mercado.
Dos níveis de consumo depende também a taxa de emprego, acarretando consequentemente o recuo do desemprego. Inclusive o problema não é só federal As receitas dos Estados, com base na arrecadação do ICMS, dependem diretamente do consumo. Pois as alíquotas incidem sobre o que é consumido. O presidente do Banco Central não levou em conta a circulação da economia nas unidades da Federação. ICMS: o próprio nome indica. Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços. O ICMS, exemplo do Rio de Janeiro, incide fortemente nas contas de energia elétrica. Isso de um lado. De outro, o IPI, o Imposto sobre Produtos Industrializados, tributo federal, incide diretamente no processo de consumo. Incide sobre automóveis, toda a linha branca, computadores. Possui forte peso na economia. E repousa sobre os preços (de consumo) ao lado do ICMS. Um federal, o outro estadual.
MERCADO DE TRABALHO
Do consumo depende também a capacidade do mercado de trabalho absorver mão de obra. Uma questão interessante pode-se  inclusive colocar: como num PIB que cresceu apenas 0,69% no primeiro trimestre deste ano em relação ao último trimestre de 2012 a taxa de desemprego se manteve na escala, considerada normal, de 5,8%? A explicação só pode se encontrar no consumo, não nos investimentos. Pois os investimentos federais previstos no orçamento do atual exercício, conforme está publicado no Diário Oficial de 29 de maio, a partir da página 37, estão previstos na escala de apenas 110,8 bilhões de reais. O montante orçamentário vai a 2,2 trilhões de reais. Os investimentos federais, inclusive os do PAC, representam em torno de 5% da lei de meios. As despesas com o pagamento de juros e encargos da dívida interna estão previstos no montante de 152,6 bilhões. Maiores, bem maiores, que os investimentos.

Mas não é essa a questão essencial. Pois alguém poderá dizer e os investimentos privados que se adicionam aos estatais? Perfeito. Mas estes dependem do mercado potencial de consumo dos setores aos quais se dirigem. O investimento está numa ponta. O consumo final em outra. No meio da estrada passa o crescimento econômico. Tanto assim que o próprio Alexandre Tombini, na entrevista a Valdo Cruz, afirma que a elevação dos juros pagos pelo governo aos bancos de 7,5 para 8% ao ano destina-se a reforçar a confiança dos consumidores, além de empresários. Portanto ele mesmo sustenta a tese da essencialidade do consumo. Sem consumo não há progresso e emprego.

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7 thoughts on “Sem consumo não pode haver crescimento econômico

  1. Sr. Pedro, o que Tombini diz, todo mundo já está “careca” de saber. O crescimento baseado no consumo esgotou-se há dois anos atrás. E só por meio do investimento público e privado é que o Brasil poderá crescer. Veja os pib’s dos dois últimos anos. O próprio consumo vem reduzindo – crescendo a taxas cada vez menores. Insustentável continuar o crescimento pelo consumo; não pela declaração de Tombini, mas, por constatação. A declaração de Tombini é redundante e “batida”.

    Resta saber o que o governo vai continuar fazendo para aumentar a taxa de investimento na economia. Dois passos para isso já foram dados – as concessões de exploração do petróleo e dos portos.

    Quem tem de complementar a declaração de Tombini é a equipe econômica da Dilma. O governo está numa encruzilhada cercado pela inflação, câmbio e gasto excessivo da máquina pública. Acresce-se aí o déficit no balanço de pagamentos; pelo que já estamos queimando as reservas cambiais.

    Os recursos são escassos para investir e fazer o Brasil continuar crescendo.

    Por parte do governo, refiro-me aos recursos orçamentários, temos apenas 2% do PIB destinados a investimentos. Recursos considerados, verdadeiramente, para investimentos – R$85,56 bilhões -, segundo o orçamento. O restante que o Sr. menciona, entra no conjunto de despesas correntes.

    Não sou a favor da emissão de moeda porque gera inflação de oferta monetária, mas, penso que é uma opção o governo emitir moeda e levantar recursos para investir pesado em logística de modo a atrair o capital privado para o investimento. Por que não? Os Estados Unidos e o Japão estão fazendo isso. No nosso caso, temos um impeditivo que é a inflação.

    Para controlar a inflação, haverá grande afluxo de dólares em busca das taxas de juros e mesmo em investimentos. O passo inicial foi dado por Mantega ontem, retirando o IOF sobre as aplicações financeiras de renda fixa. A questão é inundar de recursos a administração pública e o mercado tando de reais quanto de dólares. A equipe econômica regulará a inflação pelo câmbio e pela taxa de juros.

    Somos muito dependentes do investimento estrangeiro direto (IED), cujo estoque de capitais representou 31% do nosso PIB em 2010 e 28% em 2011 (acréscimo de 2,8% de um ano para outro), e vem crescendo. É um volume de recursos tão significativo, que podemos dizer que não seríamos a 7ª potência econômica mundial se não fossem esses recursos. Portanto, se quisermos expandir este estoque de IED, temos de preparar a infraestrutura para isso. Deixar o país preparado e propício para os grandes investimentos nacionais e estrangeiros.

    Estes recursos não virão baseados apenas nas concessões. Temos de pensar na emissão de mais dinheiro e não na emissão de mais títulos.

    O orçamento da União e suas limitações:

    LOA 2013 – EXECUÇÃO ORÇAMENTÁRIA (em bilhões)
    ……………………………………..
    RECEITA………………………PREVISTA
    Receita administrada…………..R$746,55
    Receita não administrada……….R$150,71
    Arrecadação líquida INSS……….R$310,51
    Receita financeira…………….R$912,51
    Não informado…………………R$45,63
    TOTAL………………………..R$2.165,91
    …………………………………………..
    DESPESA……………………….DOTAÇÃO INICIAL
    Pessoal e encargos sociais………..R$225,98
    Juros e encargos da dívida………..R$152,88
    Amortização financeira da dívida…..R$747,17
    Outras despesas correntes…………R$858,64
    Investimentos……………………R$86,56
    Inversões financeiras…………….R$62,86
    Reserva de contingência…………..R$31,82
    TOTAL…………………………..R$2.165,91
    ………………………………………..

  2. Como é bom ler um artigo do brilhante e experiente Jornalista Pedro do Coutto. Sempre informativo e compreensível. Ser compreensível é muito importante, porque tem gente que não é. Essa análise da entrevista do Presid. Banco Central Sr. Alexandre Tombini, nos dá uma visão geral da importância do Consumo, numa Economia. Hoje, representando +- 62% do PIB, ele é a parte mais importante. Entendo, porém, que sendo: o PIB = Consumo + gastos do Governo + Investimentos (Público e Privado) + Exportações Líquidas. E como o Consumo, com o Povo endividado em +- 44% de sua Renda/Salários, este ítem não tem potencial de crescer muito, vai crescer lentamente. Os gastos do Governo, que já é Deficitário em +- 3% do PIB, não apresentam também potencial de crescer muito. As Exportações Líquidas, lamentavelmente estão minguando, conforme nossa Conta Corrente mostra. Sobra então o Investimento. O Investimento (Público +- 2% do PIB, e o Privado +- 16,5% do PIB, Total 18,6% do PIB, estão baixos e tem bom potencial de crescimento. Como sabemos que +- 10% do PIB, em Investimento, é para repor Capital gasto, a chamada Depreciação, temos só +- 8,5 % do PIB para efetivo aumento da Produção. A meta do Governo Dilma/Temer é elevar o Investimento para 25% do PIB, contribuindo o Governo com mais 1,5%PIB, e a Iniciativa Privada mais 5% PIB. É por isso que eu digo que a Presid. Dilma tem que tomar “uns tragos com o Pessoal da FIESP”, para ANIMAR esses Empresários medrosos. Realmente, agora chegou a vez do Investimento crescer e puxar para cima o PIB. Como nosso Desemprego de 5,8% da Força de Trabalho está razoável, um crescimento do PIB de 3,5% em 2013, e 5% em 2014 (ano estratégico), estaria muito bom. Abrs.

  3. Prezado Sr. Wagner Pires.

    Como sempre, o senhor trazendo brilhante aporte ao excelente artigo do Sr. Pedro do Coutto, Mestre na dificílima arte de escrever bem. Apesar de toda a Carga Tributária, achei baixa a Receita Administrada, que entendo são os Impostos, Taxas, etc, Federais, em R$ 746,55 Bi, em relação só com o que precisamos para a Amortização Financeira da Dívida Pública (giro + amortização da Dívida) em R$ 747,17 Bi. Se entregássemos toda a Carga Tributária para os Credores da Dívida Pública, ainda assim levaríamos décadas para Zerar a Dívida. Coisa de Loco o Custo de nossa Dívida Pública, ainda bem que um País “não vai a falência”, como dizem os Banqueiros. Acho que Moeda emitida para fim produtivo, especialmente como sugeristes para Investimento em Infra-Estrutura, NÃO É INFLACIONÁRIO. Apenas que o Governo deveria fazer secretamente, pois Acordos Internacionais de conversibilidade de Moeda, etc, não permitem isso. Parabéns e Abrs.

  4. Mestre Bortolotto. Fiz a sugestão de emitirmos mais dinheiro pensando em ti. Pois, não é de hoje que propões esta prática. Até então, ficava eu reticente por saber do risco da inflação galopante.

    Entretanto, como disse, estamos reféns do câmbio, da própria inflação e dos gastos da máquina pública, pelo que, dificilmente alcançaremos suficiente superávit primário.

    Entramos em um círculo vicioso e sem saída aparente. As concessões ajudam, mas não são suficientes. Sobre trocar a dívida interna pela externa, esta janela já se fechou, pois, os juros americanos – que balizam a economia mundial – voltaram a subir.

    Sendo assim, para termos recursos a serem destinados aos investimentos, e isso deve partir do governo – investimento em infraestrutura básica – só mesmo imprimindo mais moeda. Os recursos orçamentários estão represados. Portanto, mais moeda destinada exclusivamente aos investimentos infraestruturais, criando certa pressão inflacionária, muito provavelmente seria contida pelo governo mediante os mecanismos que já citei.

    Quanto à receita, veja que ironia, a maior parte dela vem do lançamento de títulos do governo – a chamada RECEITA FINANCEIRA. Ou seja, 42,13% das receitas da União vêm da emissão de títulos junto aos bancos. É ou não é uma tristeza?!

    Por isso é que a Dilma está correndo pelas concessões, que entram nas RECEITAS NÃO ADMINISTRADAS junto com dividendos e FGTS; ela está atrás de + receita e + investimento privado ao mesmo tempo.

    Grande abraço!

  5. Abrindo a conta receitas previstas da União – orçamento 2013 (R$bilhões):
    ……………………………………………………………………..
    Receita total………………………………….R$2.165,91
    ………………………………………………………………………
    1 – Receita Administrada……………….R$746,55
    – Imposto de Importação….R$33,72
    – IPI…………………………………R$61,86
    – IR………………………………….R$282,0
    – IOF………………………………..R$37,07
    – COFINS…………………………R$189,20
    – PIS/PASEP…………………….R$50,45
    – CSLL………………………………R$73,03
    – Outras administradas……..R$19,22
    ……………………………………………………………………….
    2 – Arrecadação Líquida INSS……….R$310,51
    ………………………………………………………………………..
    3 – Receita não administrada………..R$150,71
    – Concessões…………………….R$13,47
    – Dividendos…………………….R$34,40
    – Seguridade do servidor…..R$11,55
    – Salário educação…………….R$16,32
    – Compensação financeira…R$14,42
    – Demais receitas………………R$36,94
    – Receita própria………………..R$12,50
    – FGTS……………………………….R$3,05
    …………………………………………………………………………
    4 – Receita Financeira…………………….R$912,51
    …………………………………………………………………………
    5 – Não informado…………………………..R$45,63

  6. Parece que ninguém está se dando conta que chegamos a um ponto que era previsto desde os tempos da ditadura. Como o sucateamento do ensino e a abertura de milhares de “escolas” caça-níqueis, nosso crescimento está sendo bloqueado por um simples problema: a falta de mão de obra básica e qualificada. Por mais que todos reclamem da infraestrutura, da carga tributária e da falta de cuidado do poder público a qualidade dos gastos, corrupção, superfaturamento e tudo o mais, o que falta neste país neste momento é mão de obra. Com um desemprego virtualmente inexistente e a situação de pleno emprego há algum tempo, somente poderemos crescer se houver um salto de produtividade. Mas isso somente ocorrer se, além de gastos em infraestrutura, investimentos, tivermos gente para tocar a bola para frente. E isso não temos, porque estamos pagando o preço de décadas de descaso com a educação. Peguntem aos logistas, pequenos empresários, construtores, mestres de obras, que são os que realmente tocam este país. Tem mão de obra de algum tipo por aí?

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