Sem dizer a que vem

Carlos Chagas

Enquanto José Serra mantém-se em cone de sombra, quem bota o bico de fora, em nome dos tucanos,  é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em artigo assinado na imprensa e intervenções num seminário comemorativo do Cebrap, o sociólogo não poupou Dilma Rousseff, chamando-a de boneco do Lula, sem idéias próprias.  Inexperiente, a candidata topou a briga com o sacristão, em vez de esperar para enfrentar o padre. Insistiu em que as eleições de outubro serão travadas entre o passado e o presente, ou seja, numa permanente comparação entre os governos Fernando Henrique e Lula. Em vez de falar do futuro, ou seja, de seu programa de governo, preferiu enfatizar as realizações do atual presidente.

Ainda que a passos de tartaruga, a sucessão presidencial segue seu curso. Tem sido diferente em eleições passadas.  Juscelino Kubitschek, por exemplo, apresentou-se com o trinômio “energia, transporte e alimentação” quando nem havia deixado o governo de Minas. Desdobrou-se pelo país anunciando metas e planos específicos. Até prometer a construção de Brasília ele prometeu, quando o Planalto Central era um ermo. Jânio Quadros não perdia um palanque, dos quatro ou cinco que freqüentava diariamente, afirmando como combateria a corrupção, de que forma iria corrigir a Previdência Social e enfrentar o endividamento externo, sem esquecer a necessidade de o Brasil abandonar o alinhamento automático com os Estados Unidos.  Depois do interregno militar, Fernando Collor bateu o Lula detalhando a suposta  modernidade que imprimiria à sua administração.  O próprio Lula relacionava as medidas sociais necessárias ao país. Fernando Henrique fez do Plano Real seu  carro-chefe mas pormenorizou o que precisava vir em seguida, em seu entender, o neoliberalismo.

Lula, para  ganhar a eleição, falava em  três refeições diárias para os brasileiros, participação de todos na renda nacional, reforma agrária e até limitação dos lucros das empresas, até que divulgou a contraditória Carta aos Brasileiros, desdizendo parte do que prometia e tranqüilizando as elites financeiras. Apesar da reviravolta, sabia-se o que pretendia, no governo.

Agora, o tempo passa e Serra permanece mudo, ao tempo em que Dilma parece confirmar a pejorativa imagem feita por Fernando Henrique. Há quem mantenha as esperanças no pronunciamento da candidata na sessão de encerramento do Congresso do PT, daqui a poucos dias…

Assim não chega lá

Marina Silva não aproveita a oportunidade para surfar entre a indecisão de José Serra e a falta de conteúdo de Dilma Rousseff. Mantém-se  aferrada aos conceitos louváveis do ambientalismo sem contrabalançá-los com as necessidades do desenvolvimento nacional. Ao insurgir-se contra o asfaltamento da rodovia Manaus-Porto Velho,  dá a impressão de pretender a Amazônia condenada a permanecer um imenso jardim botânico, precisamente o que pretendem as ONGs fajutas e os governos interessados em sua internacionalização. Agora, levanta-se contra a usina do Belo Monte, uma segunda Itaipu capaz de resolver a questão da energia na região. É uma pena, porque qualidades ela possui, pelo seu passado e por suas intenções.

O problema continua

Não haverá  um brasileiro, mineiro ou não, capaz de ficar contra a candidatura do vice-presidente José Alencar ao governo de Minas. Caso confirme a hipótese, será eleito por aclamação.

O problema é que no palácio do Planalto falta imaginação.  A indicação de Alencar deveria solucionar todos os conflitos, dentro e fora do PT, mas tamanha é a trapalhada que a briga  ficou apenas transferida para a indicação do candidato a vice-governador. Será Patrus Ananias ou Fernando Pimentel, precisamente os dois que lutam pela candidatura do PT ao palácio da Liberdade.  Era tempo de o presidente Lula ter decidido quem seria o companheiro de chapa de Alencar e quem iria indicado para o Senado. Até no cara e coroa a querela poderia estar resolvida. Quem parece satisfeito é o ministro Hélio Costa, do PMDB.

Não entendeu nada

O presidente Hugo Chavez, da Venezuela, deveria fazer um “curso de Brasil” antes de intrometer-se em nossas questões políticas internas. Porque brindou a mídia com infeliz análise sobre a sucessão presidencial de outubro. Manifestando-se em favor de Dilma Rousseff, disse que os Estados Unidos fazem grande esforço para a direita vencer, ou seja, para derrotar a candidata do PT.  Deveria saber que José Serra, pelo seu passado, encontra-se mais à esquerda do Lula, quer dizer, de Dilma Rousseff. Foi quem combateu o neoliberalismo quando  ministro do Planejamento, por isso mesmo deslocado para a Saúde, onde derrotou os laboratórios internacionais de medicamentos e obrigou a produção dos genéricos, além de insurgir-se diante do pagamento de royalties para as vacinas contra a AIDs.

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