Sem homens de frente, seleção nem ameaça, nem decola

Pedro do Coutto

A melhor explicação para a derrota contra a França, e também para a derrota de novembro, contra a Argentina, a meu ver encontra-se sinteticamente no título do artigo. O técnico Mano Menezes vem manifestando preferência por escalar jogadores tipicamente de meio campo, com Ronaldinho Gaucho,  em novembro, e Robinho, que enfrentou tanto a Argentina quanto a França. Dá a entender que não gosta de atacantes que não voltem para buscar a bola no meio campo ou mesmo na zona de defesa.

Assim não dá. O time perde sua característica ofensiva e, com isso, não ameaça o adversário, tampouco prende os zagueiros atrás. Ao contrário, com todo mundo tocando a bola e trocando números excessivos de passes para chegar à área adversária, tal armação deixa a defesa à vontade e obriga os volantes a percorrerem uma distância maior do que aquela que percorreriam caso tivessem como lançar a bola à distância para os atacantes.

Isso de um lado. De outro, com todo mundo recuando para armar as jogadas, a seleção brasileira termina oferecendo mais espaço entre as suas linhas e assim torna-se mais vulnerável. Com uma distância maior entre o início das articulações de ataque e sua finalização, este estilo reduz o poder ofensivo. Além do mais, Robinho e Alexandre Pato não são jogadores ideais para o choque com os zagueiros, inevitável no futebol. São craques, evidentemente, hábeis com a bola, porém leves para o combate vigoroso e curto dentro do espaço às portas do gol.

Perdemos jogando mal para a França. Claro que Hernanes praticou uma falta alucinada em Benzema, por sinal o autor do gol que selou nossa derrota. Atuar com dez é sempre precário. Mas apesar da estupidez do expulso, que perdeu o lugar no escrete, jogando fora sua sorte, o estilo de jogo contra a França, quarta-feira, já vinha sendo desenvolvido antes e não convencido ninguém. Equipe alguma  pode atuar sem pelo menos um homem de frente, que tenha peso e equilíbrio nos cheques e consiga chutar à curta distância, mesmo acossado pelos marcadores. Sem esta peça não há como alguma equipe conquistar a Taça do Mundo. E nós vamos disputá-la daqui a três anos, no Brasil, 64 anos depois da inauguração do Maracanã, templo do futebol pentacampeão do mundo, na rota de mais uma tentativa para o hexa.

Além da questão tática, vejo surgir um outro problema. Lendo a coluna de Juca Kifouri, Folha de São Paulo de quinta-feira, passo a saber que Mano Menezes possui um empresário para sua atividade de treinador. Kfouri acrescenta que o empresário do treinador é igualmente o de alguns jogadores convocados. Há uma incompatibilidade inconveniente, sem dúvida. Melhor seria que Menezes mantivesse apenas seu contrato com a CBF e assim eliminasse de plano quaisquer dúvidas a respeito de sua preferência por este ou aquele atleta. Mas esta é outra questão. Não está obrigatoriamente vinculada ao modo de atuar.

O jeito de jogar da Seleção de Ouro não vem assustando os adversários, tampouco entusiasmando todos nós, torcedores. Termina convergindo para uma repetição de lances previsíveis, que nada têm com a essência de imprevisibilidade, marca do futebol brasileiro. Robinho toca para Ronaldinho ou Renato Augusto, este para Alexandre Pato, mas tudo isso, não dentro, porém em torno da área inimiga. Toque predominantemente leve, pouco agressivo, quase acariciante. Não inquieta, não perturba, não incomoda. Pelo contrário. Deixa o outro time mais à vontade ganhando confiança.

O futebol, desde 1950, quando a tática uruguaia derrotou a técnica brasileira, vem passando por várias evoluções. Mas a figura do atacante decisivo, o homem fatal de Nelson Rodrigues, não desapareceu. Nem desaparecerá.

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