Sem juros, Silvio Santos lucra com o desastre

Pedro do Coutto

Um sinal de mais de um lado, um sinal de menos do outro, com a inflação e os juros no meio, assim se divide a vida financeira. O apresentador Sílvio Santos só deseja os juros quando a seu favor e os reajustes quando têm que pagar as dívidas de suas empresas. Incrível. Numa entrevista ao repórter Felipe Patury,  Sílvio Santos revela que aceitou pagar o crédito de 2,5 bilhões de reais que recebeu do Fundo Garantidor de Crédito, por intermédio do Banco central, no prazo de dez anos e três de carência, desde que os encargos adicionais fossem condicionados à correção monetária pelos índices do IBGE. Juros não.

“Juros não pago”, disse a Patury. Quer dizer ele praticamente impôs condições para cumprir sua obrigação. Absurdo completo. Todos sabem que os juros dos bancos a empresas, solventes ou não, capitalizadas ou não, atingem a escala mensal de 2%, no mínimo. O Banco Central, ao aprovar tal operação, parece desconhecer. Ou então assume a diferença entre a realidade e a fantasia. Fantasia, aliás, é o forte de Sílvio Santos, um artista fantástico, um motivador de multidões.

Assim ele é como pessoa, como personalidade, das mais fortes, como alguém capaz de motivar empreendimentos no mundo econômico e financeiro. Mas não como administrador responsável. Compreende-se. Ele não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. É humanamente impossível, tem que delegar poderes. Aí mora o perigo. Não só para ele, mas para todas as pessoas. O Banco Panamericano foi um exemplo. Estava descapitalizado. Tanto assim que Sílvio Santos conseguiu vender 49% dele a Caixa Econômica Federal por 780 milhões de reais. Vem para Caixa Você Também, diz a propaganda. Sílvio Santos foi nessa. E se deu bem. A CEF (quer dizer o governo) tornou-se sócio de 49% de uma dívida. Mau negócio. O patrimônio líquido do Panamericano é de 1 bilhão e 300 milhões, muito menor do que o crédito de 2,5 bi e ao ativo quase zerado. Quase zerado porque da carteira de títulos no montante de 9,1 bilhões de reais a maior parte havia sido revendida a outros bancos que com os papeis reabasteceram instituições a eles vinculadas.

Esta operação fica clara diante da leitura da reportagem de Karina Lignoli e Patrícia Duarte, O Globo de 13 de novembro. O Panamericano não deu baixa nos títulos renegociados que assim permaneceram no balanço como ativo, quando na verdade não estavam em seu poder. Mas comecei dizendo que SS planeja, e de fato está conseguindo lucrar com o desastre. Claro. O crédito de 2,5 bilhões deverá ser resgatado em dez anos a partir de 2013. Sem juros, sobre ele pesa apenas a correção dos padrões monetários. Desta forma, o governo Fundo Garantidor de Crédito recebe à base de 5,3% ao ano – de acordo com os valores de hoje – enquanto o governo, através da SELIC, paga aos possuidores dos papeis federais 10,75%.

Se Sílvio Santos aplicar em títulos do Tesouro, vai receber anualmente 10,75 e pagar somente 5,3% (e a partir de 2013). Um bom negócio, não?
Para ele, apresentador, empresário e artista, péssimo para o erário público que está sendo transformado em agente produtor de um prejuízo contra si próprio. Nos juros, a verdade. Tanto assim que há exatos cem anos, Henry Ford disse ao banqueiro J.P.Morgan, meio brincando, meio sério: “Sem juros compro até a Ilha de Manhattan”.

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