Sem maioria no Congresso, só resta a Bolsonaro trazer o Centrão para um jogo limpo

TRIBUNA DA INTERNET | Partidos do Centrão já se preparam para ...

Charge do Nani (anihumor.com)

Percival Puggina

Leitor escreve perguntando “até que o ponto o governo pode ser responsabilizado pelo mato sem cachorro no qual se enfiou”. Ele considera que isso aconteceu “mesmo diante de muitos avisos, deixando-se o governo engolir pelo STF, pelos políticos da velha política e, talvez o pior, pela ala militar”. A pergunta é importantíssima e a reprodução da resposta solicitada por muitos leitores.

A responsabilidade pessoal do presidente ou de seu governo é nula nesse particular. A história da República mostra que governo sem maioria parlamentar ou não governa, ou não conclui o governo. Getúlio Vargas, Jânio Quadros, João Goulart, Fernando Collor, Dilma Rousseff e Michel Temer contam essa história.

PRESIDENTE IMPOTENTE – Os avisos de que a situação do governo se complicava na relação com as demais instituições não alteram o fato de que o modelo institucional orienta o agir político, tanto dos cidadãos (eleitores) quanto dos que à política se dedicam (partidos e seus dirigentes, e detentores de mandatos eletivos).

Vota-se no presidente presumindo que ele disporá de um poder que se impõe sobre os demais, quando, no modelo brasileiro, como estamos vendo, ocorre o inverso. Tal realidade só se altera se o governo comprar sua maioria parlamentar, como fizeram Fernando Henrique, Lula e Dilma (esta até perdê-la).

A compra dessa base, na regra do Congresso, se faz por unidade de voto parlamentar e as bancadas são peritas em precificar essa atividade de seus congressistas. A grande mídia militante criticou Bolsonaro por não “negociar com o parlamento”, e agora o critica por fazê-lo…

STF, UM CASO PERDIDO – Isso quanto às duas casas do Congresso. Já o Supremo, como tenho escrito, só deixará de se antepor, sobrepor e pospor ao governo quando houver alterações em seu plenário. É preciso entender que todos os atuais ministros amargaram derrota pessoal na eleição presidencial.

Todos votaram contra o Bolsonaro e, pelo menos oito dos 11, são tão de esquerda quanto qualquer “intelectual” petista. Não ocultam essa condição nem a correspondente animosidade, que já ultrapassou os limites do escandaloso.

Mínima alteração ocorrerá em novembro, quando o presidente indicar o substituto de Celso de Mello. Câmbios mais consistentes dependerão, como tenho dito, de um trabalho da sociedade sobre o Senado para que este dê curso às denúncias de crime de responsabilidade (impeachment) ali engavetadas por Alcolumbre.

SEM GOLPE MILITAR – Quanto aos militares, afora algumas raras opiniões do vice-presidente desalinhadas do governo, como no caso do aborto, não os vejo complicando a vida do presidente. Eles apenas deixam claro que se negam a fazer o que não devem (intervenção) nos outros poderes em relação aos quais não têm prerrogativas constitucionais e nunca foram nem serão a isso solicitados pelo presidente.

Essa é uma questão exaurida. Apostar nela é alimentar o discurso dos inimigos nacionais e internacionais do governo (incluída a grande mídia que adora jogar o assunto no colo do presidente) e atrasar o que de fato precisa ser feito, a pressão política através dos cidadãos, sobre o Senado, para que cumpra seu papel em relação aos desvios de conduta do STF.

No nosso modelo institucional o presidente é totalmente impotente em relação a esses aspectos. A única ação que lhe cabe é trazer o centrão para um jogo limpo. O resto não está em sua alçada. No entanto, pergunto? Que dizer da inércia da sociedade? Por que, em cada estado, os eleitores não confrontam seus três senadores para que cumpram seu dever? Eles não o farão espontaneamente se a sociedade não lhes der e impuser o exemplo por democrática pressão popular.

8 thoughts on “Sem maioria no Congresso, só resta a Bolsonaro trazer o Centrão para um jogo limpo

  1. Leitor escreve perguntando “até que o ponto o governo pode ser responsabilizado pelo mato sem cachorro no qual se enfiou”.

    Resposta: A responsabilidade pessoal do presidente ou de seu governo é nula nesse particular.

    Em suma, o governo é irresponsável por estar num mato sem cachorro. Pudera! É de lascar.

  2. Parabenizo o autor, Percival Puggina pelo artigo que espelha uma realidade insofismável.
    No cerne desse problema está uma Constituição elaborada no calor emocional do fim de 21 anos de governos militares, manipulada na sua redação – vide a confissão do Nelson Jobim, e estruturada para um modelo parlamentarista de governo.
    O resultado é esse que se vê, desde outubro de 1988.
    Urge, portanto, a atualização e modernização da Lei Maior.

    • Aleluia! Até que alguém tem a coragem e visão de apontar a causa mater de nossa disfunção política e social. Meus aplausos, Sr Mário, espero que sua sugestão seja entendida, aceita e difundida. Coincidentemente, minha jabuticaba do dia de hoje, publicada três artigos mais abaixo, coincide com sua importante conclusão.

  3. A culpa sempre são dos outros. O Presidente é um pobre coitado, bonzinho, bem intencionado que tem que se chafurdar na lama pra administrar o país.
    O caminho é um só: impichamento. Vamos assim até que aparece alguma força política capaz de dar um basta n Estado Cleptocrático, sustentado pela Indústria da Miséria Humana e a da Corrupção.
    É só passar a pandemia que esse outro aventureiro será catapultado do cargo.
    As futuras viúvas já justificam e lacrimejam, sabedores do fim único e possível.
    Essa ladainha das carpideiras, sejam de centro, direita ou esquerda, já me causam vômitos: a Globo, a Imprensa, o STF, a perseguição política, o Sistema.
    Ora um Estadista é para enfrentar e resolver os problemas estruturais do país, que me parecem não serem esses álibis.

  4. O autor da matéria retrata com fidelidade que a nossa Constituição está mais para prostituta do que para “cidadã” como apelidada pelo Dr. Ulisses.

    Basta que se leia a parte na qual está escrito …”A compra dessa base, na regra do Congresso, se faz por unidade de voto parlamentar e as bancadas são peritas em precificar essa atividade de seus congressistas.”

    e a banca de negócios funciona dia e noite.

    Brasília foi construída para ser o que é.

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