Sem perceber, é Bolsonaro quem estimula o surgimento de um candidato alternativo, na terceira via

O eleitor está mais consciente? | Gazeta do Cerrado

Charge do Pelicano (Arquivo Google)

William Waack
Estadão

Jair Bolsonaro está ganhando fácil a corrida para saber qual ocupante do Palácio do Planalto conseguiu perder mais rápido o capital político conquistado numa eleição direta e plebiscitária. É curioso observar como ele mesmo “trabalhou” para criar um vácuo político imediatamente ocupado.

De fato, nunca o Executivo brasileiro foi tão controlado, contido ou encurralado pelo Judiciário e Legislativo. Têm razão os generais de pijama que cochicham a Bolsonaro que STF e Congresso extrapolaram suas competências.

NÃO HÁ CONSPIRAÇÃO – Mas não se trata, como pretendem Bolsonaro e seus seguidores (em diminuição acentuada) de uma “conspiração”.

A principal responsável é a atuação do próprio Bolsonaro e sua extraordinária incompetência política. No momento em que enfrentar a crise da pandemia e suas consequências para a economia demandaria uma altíssima capacidade de liderança, coordenação e foco estratégico, o “centro” do poder está ocupado por uma curiosa aliança tácita, volátil e fluida de juízes e parlamentares.

Bolsonaro tinha uma grande pauta de mudanças e reformas logo que assumiu que hoje se resume em permanecer onde está. Cedeu instrumentos de poder real e efetivo (como o controle do Orçamento) e foi obrigado a respeitar limites de atuação política (estipulados pelo STF) pela mesma razão: não ter visão, capacidade de condução e muito menos entender o que é a política, embora tivesse passado 27 anos no fundo da Câmara dos Deputados.

O JOGO DO PODER – Ele sabe muito bem, por outro lado, que o jogo dos donos do poder em Brasília obedece aos fatores de longa memória, a saber: compadrio, patrimonialismo, corporativismo, teias de laços pessoais e oligárquicos, acomodação de interesses à custa dos cofres públicos, clientelismo. Nessa rede que se revelou indevassável (que o diga a Lava Jato) Bolsonaro está manietado, pessoal e politicamente.

Sua mais recente “cartada” é jogar o jogo dos donos do poder no Judiciário, por meio das nomeações que terá de fazer para tribunais superiores e na Procuradoria-Geral da República. É ocupar por dentro instâncias decisivas de poder político, como tem sido o Judiciário brasileiro (e o Ministério Público Federal).

O caminho é o mesmo que movimentos como o chavismo percorreram, por exemplo, até desfigurar o que existia de democracia (a base disso é a lealdade ao chefe e não à lei ou instituições).

SISTEMA INTACTO – No caso do Brasil o perigo dessa “marcha por dentro das instituições” é muito menor. O chamado “sistema” continua intacto. E, ao contrário de outros “ismos” da nossa história política (varguismo, ou lulismo), o bolsonarismo é um conjunto de propostas e ideias sem definição clara, rumo definido, coordenação eficaz e com escasso domínio dos instrumentos clássicos de poder ou coerção.

Bolsonarismo é mais um estado de espírito do que qualquer outra coisa.

Talvez a única “base social” nítida do bolsonarismo seja a ligação de seus expoentes políticos com as denominações políticas e religiosas evangélicas – mas, aqui, cabe lembrar aos seguidores do “mito” (um atributo que está resvalando para o ridículo) que o conjunto de forças evangélicas é fracionado, dividido entre si e alguns de seus principais nomes apoiaram todos os governos anteriores e provavelmente o farão no futuro. Não acham que devam “lealdade” ao presente chefe.

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“ESTADO DE ESPÍRITO” – Por último, esse “estado de espírito” bolsonarista – o da polarização, defesa da ignorância, intolerância e boçalidade política geral – está construindo depressa no grande e movediço terreno das atitudes das pessoas um movimento contrário caracterizado por indignação, cansaço, tristeza e falta de esperanças nesse “mito” e, por enquanto, em qualquer outro candidato (o que inclui Lula).

Mas esse candidato surgirá: a demanda foi criada por Bolsonaro, assim como ele mesmo atendeu a uma clara demanda. Segue convencido de ter sido beneficiado por um milagre (sobreviveu à facada) e que só Deus pode tirá-lo de onde o colocou. Ignora-se se as forças diversas do chamado Centrão, às quais Bolsonaro entregou seu futuro político, o fazem por acreditar em desígnios divinos. O fato é que, no momento, acham mais conveniente deixá-lo por lá.

14 thoughts on “Sem perceber, é Bolsonaro quem estimula o surgimento de um candidato alternativo, na terceira via

  1. Bolsonaro foi um fracasso e o povo está convencido disso. Minha esperança é que os cariocas se conscientizem de que também os seus filhos não têm condições para representar ninguém as well.

  2. Minha única preocupação é a indicação que ele tem o poder de fazer para a vaga de ministro do STF que se abrirá em junho.
    Meu medo é que de última hora ele indique o Zero Um para o cargo tal como pretendeu fazer em 2019 indicando o Zero Dois para Embaixador!

  3. Quando se faz a leitura correta do que querem expressar com matérias jornalística, nada mais é do que querer desqualificar aqueles que quebram os tentáculos do dinheiro público.
    Bolsonaro não é nenhum perfeito , aliás não existem perfeitos; o que interessa é saber que ele vem contrariando os que mandavam e desmandavam nesse país .
    Vejam os que estão todos os dias a acusa-lo de tudo que não presta , são os mesmos que sempre estavam comendo uma boa parte do Bolo .

    Não se lê uma linha exaltando qualquer iniciativa do Bolsonaro !
    A corda vai arrebentar …CPI, os investigadores não possuem currículo , possuem ficha corrida !!

  4. Por falar em “terceira via”.
    Uma terceira via lançada para sentar na cadeira mais suja do Unverso foi o famoso Global Luciano Hulk Cor-de-rosa que sempre esteve ao lado de ladrões corruptos facínoras bandidos e vagabundos
    E quem lançou a Hulk Rosinha.??
    Quem foi o lixo que teve essa grande ideia “genial”, tirada da cartola francesa..?

    Luciano Huck foi ideia do FHC.

    https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,luciano-huck-foi-ideia-do-fhc-que-tem-o-direito-de-errar-diz-arthur-virgilio,70003653010

    • PS.

      Quando seus amigos começaram a frequentar as páginas policias por causa da corrupção e alguns que foram direto para as Cadeias, o Global imediatamete corria para suas redes sociais apagar as fotos que tinha com os amigos ladrões corruptos….

      Amigos para Sempre
      Muy Amigos

      eh!eh!eh!eh

  5. Zero Hora, Rodrigo Lopes dia 29.4

    O inicio de sua coluna, não define claramente o caos que vivemos e porque o vivemos?

    É difícil se acostumar à “normalidade” de Joe Biden (foto), depois de quatro anos em que acordávamos com tuites raivosos de Donald Trump, meticulosamente preparados para provocar manchetes. Mas, se nesses cem dias, lembrados hoje, o democrata trouxe de volta ao Salão Oval a arte da boa política, não se pode dizer que faltaram notícias.

    Não tenhamos medo de mudar.

    A maviosidade, o conflito diário para saciar o desejo de sangue de seus fanáticos, esconde o desejo de poder absoluto e a incompetência abismal.

    Mudar , ainda mais, o atual quadro , não e uma opção , é um ato de sobrevivência.

    Não tenho nenhuma simpatia por Hulk, mas Bolsonaro, infelizmente já conhecemos e sabemos onde chegaremos.

    Vamos continuar a busca.

    Afinal, o Brasil tem 220 milhões de indivíduos nao precisamos escolher entre dois dos piores

  6. “Movimentos que o chavismo percorreu”, esse militante petralha pensa que todo brasileiro é imbecil ou deficiente mental?O STF totalmente aparelhado e o insignificante vem com essa conversa de bêbado em balcão de botequim?E reclamam que a mídia tradicional está desacreditada, acabou para vocês, a leitura de suas opiniões interessa apenas para conhecer o pensamento do inimigo, nada além.

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