Sem sapatos, mas com os pés

Carlos Chagas

Misto de filósofo e poeta, tendo vivido quase cem anos e viajado por todo o Oriente Médio, mais a Índia, o Egito, a Pérsia, a Etiópia e o Norte da África, Mulid ud-Din Abdala, conhecido como Sadi, inovou a literatura do Islã nos anos 1.200 por contar e cantar o óbvio. Certa feita explicou que parou de queixar-se por não ter sapatos quando conheceu um homem que não tinha pés.

O episódio se lembra a propósito da reação dos partidos da base parlamentar governista hoje em guerra com a presidente Dilma por não conseguirem mais ministérios, diretorias, nomeações e benesses como desejariam. Já conseguiram muito, mas querem sempre mais.

Queixam-se de não ser atendidos em seus pleitos e exigências e ameaçam votar contra os projetos do governo, não por discordarem ou sequer por possuírem opinião sobre os textos, mas simplesmente para conseguir sapatos.

Deveriam perceber que ainda conseguem andar, mesmo descalços, quando poderiam muito bem não ter pés. Longe de ter sido aplacado, o confronto entre o palácio do Planalto e o Congresso poderá acirrar-se esta semana.

A presidente Dilma repete não aceitar chantagens e prefere o adiamento de qualquer votação importante na Câmara e no Senado, imaginando serenarem os ânimos. Mas a turma da goela aberta mostra-se disposta a insistir. Querem derrotar o governo no Código Florestal, na Lei da Copa e em outras propostas delicadas. O risco é de não conseguirem sapatos e de perderem os pés.

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SE CORRER O BICHO PEGA, SE FICAR…

Passam as semanas e a presidente Dilma, salvo manobras em segredo, não se dispõe a escolher os sete integrantes da Comissão da Verdade que terão dois anos para investigar a participação de antigos agentes do poder público na prática de torturas e crimes ainda mais graves durante os anos do regime militar.

Enquanto isso, avoluma-se o número de oficiais da reserva das forças armadas signatários do manifesto de protesto contra a lei aprovada e seus possíveis efeitos. Já passam de 150 os generais que assinaram. Mais os coronéis e outros companheiros, breve chegarão a mil.

Parece claro que punições por excessos e malfeitos permanecem fora de cogitação, dada a Lei da Anistia reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal e ainda agora reafirmada por um juiz da primeira instância, no Pará, por conta de denúncia contra o coronel Curió.

Mesmo assim, despertarão graves conseqüências a apuração e a identificação dos autores daquelas práticas execráveis. Uma delas é de que os trabalhos da Comissão da Verdade serão expostos integralmente pela mídia, e que os acusados pretendem defender-se denunciando ações e personagens do terrorismo.

Porque também se torturou, assassinou e seqüestrou do outro lado. Nomes vão aparecer, de lá e de cá, muitos que parecem longe de estar na reserva. Em suma, um ajuste de contas que a anistia apagou, por mais doloroso que seja.

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