Sem Trump, o que sobra para Bolsonaro no cenário mundial, além de Polônia e Hungria? Nada.

Charge do João Bosco (O Liberal)

Eliane Cantanhêde
Estadão

Confirmadas as previsões de vitória do democrata Joe Biden, não sobra pedra sobre pedra da política externa do presidente Jair Bolsonaro, que usou até a vacina contra covid para atacar a China, chicoteou os parceiros do Brasil na Europa, gerou desconfianças inúteis no mundo árabe e apostou suas fichas numa suposta “amizade” com o republicano Donald Trump. A vitória de Biden, porém, muda literalmente tudo.

Sem Trump e sem os Estados Unidos, o que sobra para Bolsonaro no cenário internacional, além de Polônia e Hungria, ambos secundários e tão desacreditados quanto o Brasil desde janeiro de 2019? Portanto, a derrota de Trump é uma derrota de Bolsonaro, assim como sua vitória seria também de Bolsonaro e do projeto nacional-populista que os quatro países tentam exportar para o mundo.

ALINHAMENTO TOLO – Além de se aventurar num mal disfarçado alinhamento automático com Washington, Bolsonaro foi ainda mais incauto ao meter o Brasil num confronto de gigantes. O resultado é que o Brasil pode perder os dois simultaneamente: a China, que já busca fornecedores e mercados alternativos, e os EUA, porque Biden não tem compromissos com o Brasil, pelo contrário.

A derrota de Trump para Biden tem reflexos também na política interna brasileira, porque deixa Bolsonaro sem discurso e sem uma forte referência de extrema direita. Com o PT em baixa e o ex-presidente Lula caminhando para o ocaso político, é improvável que só “varrer o PT” seja suficiente para a reeleição em 2022. E quem ainda acredita em “nova política”, “combate à corrupção” e outros slogans jogados no lixo bolsonarista?

QUESTÃO AMBIENTAL – Um outro efeito na política interna pode ser que, quanto mais Bolsonaro caia com Biden, mais o vice-presidente Hamilton Mourão suba e mais a pauta ambiental entre no centro das relações.

Ficando Trump, nada mudaria nessa seara. Ele não dá a mínima para queimadas na Amazônia e Pantanal. Mas com Joe Biden haverá graves cobranças, como ele já deixou claro na campanha eleitoral.

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