Sem um homem de frente, Brasil não ganha de ninguém

Pedro do Coutto

A frase que está no título deste artigo, para citar o belo poema de Ferreira Gullar, é uma frase gasta. Mas nem por isso menos verdadeira. No futebol, sem um atacante que perturbe os zagueiros na entrada da área adversária, nenhuma equipe por mais hábeis que sejam seus jogadores, consegue alcançar êxito. A seleção brasileira de mano Menezes é um exemplo. Em texto recente, comentando o zero a zero com a Venezuela, fiz esta observação. Volto ao mesmo enfoque agora, logo após o inesperado empate que conseguimos com o Paraguai.

O técnico tornou a repetir o esquema neutro que vem adotando. Quatro homens no meio campo, todos trocando passes para o lado entre si, nenhum atacante típico avançando e penetrando na área adversária. Paulo Ganso em campo no estilo do antigo center half, posição que desapareceu do futebol há muito, a qual portanto as novas gerações de jornalistas e atletas não conheceram.

De Ramirez para Ganso, de Ganso para Neymar, de Neymar para Jadson. Este ainda conseguiu fazer um belo gol. A distância da seleção de ouro da defesa paraguaia tornava-se maior do que o razoável. Resultado: a defesa passa a jogar com mais tranquilidade e, com isso, cresce na partida. O time ocupa mais espaços do jogo.

O panorama era dos piores. Dois a um para o Paraguai e corríamos o risco de uma desclassificação na quarta-feira contra o Equador. Um risco grande, uma vergonha para nosso futebol, um vexame para todos nós, torcedores. Aí, faltando dez minutos para o fim, teria acontecido um milagre? O gol de Fred estaria escrito há seis mil anos, como costumava dizer Nelson Rodrigues? Não. Apenas entrou em campo um jogador que sabe atuar na frente. E finalizar. Era o que estava faltando. O homem de frente é indispensável.

Porque este atua exatamente num perímetro difícil, onde as jogadas sãomais duras e nervosas, a zona do agrião a que se referia João Saldanha. Tem que enfrentar fortes trancos, entrar em bolas divididas, suportar choques com os homens da defesa, mais pesados que os atacantes. Por isso, Neymar, o próprio Pato, muito leves, preferem, prudentemente, vir tocando a bola de trás e só partirem para a finalização quando o lance está muito mais para eles do que para a zaga. Fenômeno natural. Em primeiro lugar, é mil vezes mais fácil destruir do que construir. Em segundo, a defesa joga de frente para a bola, só não acontecendo isso quando os cruzamentos vem da linha de fundo.

Linha de fundo. Como a ela chegavam Garrincha, Jairzinho, Julinho Botelho, que antecedeu a ambos. Tesourinha que apareceu no futebol na década de 40, antes dos três. Contra o Paraguai se alcançamos a linha de fundo por três vezes apenas foi muito.

Não agredíamos, não incomodávamos os paraguaios. Eles foram crescendo na partida. Chegaram mesmo a nos dominar. Tive a sensação da derrota, sexto sentido que o torcedor tem em matéria de histórias de bola, mas o acaso surgiu. Mano Menezes, um  treinador sem criatividade, de tática escassa, boa figura humana, mas que me parece sentir demais o peso da responsabilidade, foi iluminado por uma rara centelha: substituir Neymar por Fred.

Não foi certamente uma decisão fácil. Sobretudo porque a Folha de São Paulo de sábado publicou que Neymar está com um contrato milionário garantido no Real Madri. Uma substituição pode reduzir o valor final do passe e assim diminuir as comissões tradicionais que estão envolvendo o esporte. Mas o técnico sem dúvida acertou, embora movido pelo impulso do desespero. Um homem de frente salvou a seleção da derrota. Ficou a lição mais uma vez. Vamos esperar que a comprovação da tese mantenha o time ofensivo contra o Equador. Amém.

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