Sentindo a queda de Palocci, Lula lançou-se candidato para 2014

Pedro do Coutto

Acredito que o título acima seja uma boa síntese para o panorama visto da ponte sob o prisma do ex-presidente Lula. Ele interveio na questão que está na primeira página dos jornais e incentivou Dilma Rousseff a assumir a defesa de Antonio Palocci, mas, como no filme de Billy Wilder, até certo ponto.

Até certo ponto, porque ele sabe muito bem, com a sensibilidade política que Deus lhe deu, que a situação de Palocci é insustentável. Está balançando, vai terminar caindo, sobretudo porque sua permanência desgasta de forma acentuada a imagem da presidente e imobilizar o governo. O ministro chefe da Casa Civil transformou-se num problema e, a partir das denúncias que surgiram, deixou de ser uma solução política para o Poder Executivo.

Pelo contrário, Ele, Palocci, a meu ver, acabará pedindo para sair. Afinal de contas, um ministro de estado não pode ser arguido pelo Procurador-Geral da República quanto à origem de seus bens e se tornar alvo de possível denúncia do Ministério Público. De repente, não mais que de repente, ele próprio sentirá a atmosfera pesada à sua volta. A vida é assim. E nenhuma posição é legítima, na definição de Santiago Dantas, quando aquele que a ocupa não puder dizer seu verdadeiro nome.

Sem Palocci, mais uma vez afastado de um governo, a exemplo da indagação poética contida no belo samba de João Sérgio, 1978 – Como será o amanhã ? – Lula percebeu o vazio que se abriria, melhor dizendo, se abrirá, no espaço político do poder, de modo geral, e do PT em particular. Tratou portanto de preenchê-lo com a força de sua  popularidade e de sua figura sintonizada com a opinião pública. Ele provou isso nas eleições de 2002, 2006 e 2010. Venceu disparado.

Hoje, tenta  transferir a magia para o amanhã mostrando tanto  ao Partido dos Trabalhadores quanto ao PMDB que não interessa à aliança estabelecida aceitar qualquer aceno da oposição.
Oposição? Na verdade ela não existe. Quem a lidera efetivamente? Quem se opõe ao governo? Geraldo Alckmim? Aécio Neves? Fernando Henrique? José Serra?

Exceção de Serra, nenhum desses deu uma palavra sobre o caso Palocci, tampouco a respeito das cartilhas impróprias aprovadas pelo ministro Fernando Haddad. Falei com exceção de Serra. Sabem porquê? Simplesmente porque o ex governador de São Paulo afirmou à imprensa confiar e estar ao lado de Palocci. A coligação PSDB-DEM-PPS qual posição tomou? Nenhuma. As cobranças partem dos jornais – O Globo, Folha de São Paulo, Estadão – e uma delas pelo senador Jarbas Vasconcelos, que é do PMDB. O vazio de um lado corresponde ao vazio de outro.

Mas em parágrafos atrás me referi ao apoio da presidente Dilma, até certo ponto, ao seu chefe da Casa Civil. É só ler com atenção a matéria publicada em O Estado de São Paulo da sexta-feira 27, assinada por Tânia Monteiro e Vera Rosa. Acompanha a reportagem foto enorme da presidente falando à imprensa, no Planalto, ao lado do próprio Palocci. A expressão no rosto de Palocci diz tudo. E Dilma afirmou o seguinte: “Quero assegurar a vocês (jornalistas)  que o ministro Palocci está dando todas as explicações para os órgãos de controle, inclusive para o Ministério Público”. Basta analisar as palavras da presidente para dimensionar a importância da crise.

Aliás, a terceira envolvendo a Casa Civil nos governos Lula e Dilma. Primeiro foi a demissão de José Dirceu. Segundo foi a demissão de Erenice Guerra. Agora a dificuldade ainda não resolvida com Antonio Palocci. O cargo é de exercício difícil. Requer qualidades múltiplas, a maior delas a extrema confiança, a blindagem contra tentativas de aproximação, vacina contra deslumbramentos, e não permitir que pessoa alguma possa falar em seu nome ou exibir amizade que nem sempre existe. Não é fácil.

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