Será que o ministro Mercadante já recebeu o título de “doutor em Economia” da Unicamp? Que a presidente Dilma tanto sonhou conquistar (e até pensou que tinha “conquistado”)

Carlos Newton

Nenhum jornal noticiou (pelo menos, não vi nada a respeito, nem na internet), mas na última segunda-feira o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, teria recebido na Universidade de Campinas o título de Doutor em Economia, apesar de não ter cumprido as regras impostas aos demais doutorandos do Curso de Pós-Graduação do Instituto de Economia.

Por exemplo: segundo o regulamento, ele só poderia adiar a apresentação da tese uma só vez, e apenas pelo prazo de seis meses. Pois o ilustre ministro postergou a apresentação pelo desprezível prazo de 20 anos. Além disso, de acordo com o regulamento, Mercadante só poderia receber o título de especialização latu sensu, jamais o título de “Doutor”.

Mas todas essas regras foram quebradas, e Mercadante também desrespeitou a tradição de o doutorando apresentar uma tese que discuta a teoria econômica. Ao invés disso, exibiu um calhamaço de 519 páginas sobre o governo Lula, anunciando o nascimento do “Novo Desenvolvimentismo” – um modelo baseado em crescimento e distribuição de renda.

Com frases quase sempre na primeira pessoa do plural, como se tivesse liderado ou integrado a equipe econômica de Lula, lá se foi Mercadante (“Superamos a visão do Estado mínimo”; “Não nos rendemos à tradição populista”; “Retiramos 28 milhões da pobreza”; “Melhoramos muito o atendimento na saúde”).

Como já noticiamos aqui no blog, o novo doutor dedicou boa parte de sua preleção a críticas ao governo de Fernando Henrique Cardoso, com ataques ao neoliberalismo e ao Fundo Monetário Internacional. E acabou sendo ironizado pelo ex-ministro Delfim Netto, professor titular da USP e que participava da análise da defesa da tese.

“Esse negócio de que o Fernando Henrique usou o Consenso de Washington… não usou coisa nenhuma!”, disse Delfim, arrancando gargalhadas. “Ele sabia era que 30% dos problemas são insolúveis, e 70% o tempo resolve”, acrescentou, lembrando que o cenário internacional foi favorável ao governo Lula e destacando que o bolo não cresceu apenas por vontade do presidente petista.

“Com o Lula você exagera um pouco, mas é a sua função”, disse Delfim a Mercadante, fazendo gozação: “O nível do mar subiu e o navio subiu junto. De vez em quando, o governo pensa que foi ele quem elevou o nível do mar…”

“O Lula teve uma sorte danada. Ele sabe, e isso não tira os seus méritos”, concordou o professor João Manuel Cardoso de Mello (Unicamp), que reclamou de “barbeiragens no câmbio” e definiu o Fome Zero como “um desastre”. No final, a comissão decidiu outorgar o título de “doutor” a Mercadante, que deveria ter recebido no último dia 17, mas nem o portal da Unicamp registrou o fato.

O título de doutor é o maior orgulho do acadêmico. No PT, chega a ser um fetiche. Até mesmo a presidente Dilma Rousseff chegou a se declarar “doutoranda” em Economia na mesma Unicamp, apesar de nem mesmo ter conseguido o título de mestrado.

Como assinalamos recentemente aqui no blog, agora esses “exageros” nem interessam mais. Como presidente do Brasil, Dilma Rousseff vai se encher de títulos de “doutor honoris causa”, que as universidades dão a qualquer um. Desde que o “laureado” (ou “laureada”) esteja no Poder, é claro.

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