Sérgio Bittencourt, uma ausência marcante, pois para sempre será lembrado

Sérgio Bittencourt – Wikipédia, a enciclopédia livre

Sérgio Bittencourt foi um jornalista e compositor de enorme talento

Carlos Newton

Jorge Béja é uma pessoa fascinante e surpreendente. Além de ser um grande jurista,  dedicou-se à Advocacia como se fosse uma religião, sem jamais cobrar um centavo de seus clientes, agindo como o portentoso Sobral Pinto, que era remunerado apenas pelos chamados ônus de sucumbência. Ou seja, quando defendia algum réu de processo penal ou trabalhista, desde o início Dr. Sobral sabia que nada receberia ao final da causa.

A diferença entre os dois é que Sobral Pinto era meio santificado, sua vida era dividida entre a casa, o escritório e a Igreja do Cenáculo, onde assistia missa todos os dias, sempre de terno preto, desde a morte de um dos filhos. Já o advogado Jorge Béja se dividia entre o Direito e a Música, circunstância que o levou a se tornar amigo íntimo de futuros ídolos, como Raul Seixas, Paulo Coelho, Aldir Blanc e outros iluminados, que lhe passavam suas músicas para que ele escrevesse as partituras e fossem registradas.

O DIREITO VENCEU – Na disputa com a Música, que  levou Béja a se apresentar ao piano até para o atual Papa Francisco, no Teatro Colón, em Buenos Aires, a paixão pelo Direito saiu vitoriosa e o jovem Jorge Béja foi se firmando como advogado, embora trabalhasse também como repórter no Jornal do Brasil e na Rádio Nacional, onde conheceu e ficou amigo de Sérgio Bittencourt, que era um dos jornalistas e compositores de maior sucesso no país.

Nesta quarta-feira, Béja lembrou sua amizade com Sergio Bittencourt num belíssimo comentário publicado aqui na TI. Pedi-lhe autorização para transformar o texto em artigo, com objetivo de ganhar maior visibilidade. mas ele me convenceu a também escrever sobre Sérgio Bittencourt, de quem fui amigo e trabalhamos juntos na Rádio Nacional e na TVE.

GRANDE CRONISTA – Antes de conhecê-lo, eu já tive grande admiração por Sérgio Bittencourt, que ainda muito jovem já era cronista do Correio da Manhã e escrevia um texto diário, que eu jamais deixava de ler. Na época ele fez a última entrevista de um ícone do jornalismo, o gaúcho Apparicio Torelli, famoso como Barão de Itararé, que era um dos meus ídolos e não tive oportunidade de conhecer.

Ficamos logo amigos. Apesar de muito famoso, Sérgio era o simples e acessível, trabalhar com ele era um prazer. Suas música faziam um sucesso estrondoso, como “Modinha”, que venceu um dos Festivais da Canção, interpretada por Taiguara, e “Naquela Mesa”, que chegou a ser gravada até pelo maestro francês Paul Mauriat.

PROBLEMA DE SAÚDE – Sérgio Bittencourt era hemofílico e sofria muitas dores, andava com dificuldade, usando bengala. Tinha de tomar remédios pesados para resistir à dor. Na mesma época, a TV Globo tinha uma apresentadora lindíssima, casada com o ator Marcos Paulo. Chamava-se Márcia Mendes, tinha problemas de saúde e também tomava analgésicos fortes. Ela morreu do coração, aos 34 anos, antes de Sérgio (a Wikipédia está errada, diz que ela teve leucemia aos 32 anos)

Eu soube que ela tomava um remédio chamado Algafan, vendido sem receita e que viria a ser proibido devido a seus gravíssimos efeitos colaterais. Fiquei arrasado com a morte de Sérgio Bittencourt, aos 38 anos, de parada cardíaca. Eu trabalhava no programa de Cidinha Campos e comentei no ar que a causa da morte poderia ter sido o analgésico, que se tornara um dos medicamentos mais vendidos no país.

Se na época eu já conhecesse Jorge Béja, imediatamente o procuraria para mover uma ação contra o laboratório multinacional Darrow, destinada a condená-lo a indenizar a família do grande jornalista, que para sempre estará faltando naquela mesa.

12 thoughts on “Sérgio Bittencourt, uma ausência marcante, pois para sempre será lembrado

  1. Sérgio e eu, quanta saudade!A Paulo Peres, um fato, uma lembrança. E muita saudade.

    Sérgio Bittencourt e eu sempre nos damos bem. Muito bem. Fomos amigos. Muito amigos. Amizade pura, desinteressada e que começou em 1969 ou 1970, não sei precisar o ano.

    Sérgio e eu trabalhávamos na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, Edifício A Noite, na Praça Mauá. Sérgio no 21º andar. Eu, no 20º, onde ficava o Departamento da Radiojornalismo. Tudo era de tamanho grande: salas, corredores, elevadores, gabinetes, redação, box dos telex ( naquela época era telex, France Press, United Press, Association Press e duas outra agências internacionais, cujos nomes me escapam agora ).

    Comecei apurador de notícias, depois repórter de rua e antes de ser nomeado advogado da emissora, fui redator do Repórter Nacional, que era lido pelo famoso Éwerton Correia e fazia concorrência com o Jornal do Brasil Informa, noticioso na então Rádio Jornal do Brasil.

    Sérgio veio à minha casa duas vezes. Foi visita. Ele cantou, compôs, tomou uísque, uma vez almoçou, outra jantou e eu toquei piano para ele.

    Todos os dias nos cruzávamos nos corredores da Rádio Nacional e sempre nos abracávamos. Cada um dava um beijo no outro.

    Até que um dia eu passei por ele e não o abracei, não o beijei, nem olhei para ele. E ele passou por mim e nada disse. Este silêncio, gesto hostil da minha parte, se repetiu por mais duas vezes. Na quarta ele parou e me disse:

    “O Béja, você está aborrecido comigo por que? Passa por mim, não olha. Não olha e nem fala. Não olha, não fala, bixa a cabeça e vira o rosto. Que mal fiz a você?. Já por duas semanas deixou de comparecer ao meu programa na TV Tupi e sua cadeira de jurado dos calouros ficou vazia. Que mal fiz a você”?

    Eu olhei dentro dos olhos dele, e disse: “Você me fez e me faz chorar. Chorar muito. Você compôs uma música cuja letra antecipa o que eu tenho medo de passar e sei que vou passar. O mesmo amor que você teve e tem por seu pai, Jacó do Bandolim, eu tenho pelo meu pai. A mesma dor que você expressa na letra da música e a dor que eu sei que vou sentir, mais cedo ou mais tarde. Mas vou sentir. É por isso que não gosto de ouvir a sua música e nem de olhar para você que a compôs”.

    Quando acabei de dizer isso, olhando dentro dos olhos do Sérgio (éramos só nos dois em pé, num dos largos corredores da emissora,) Sérgio caiu em prantos. E disse que me compreendia. Me dava razão. E me pedia perdão. Dizia que não queria perder minha amizade. E implorou para que aquela letra nos uníssemos mais, muito mais do que unidos éramos. A letra dessa música que eu fiz não pode nos separar, mas unir ainda mais”, disse Sérgio para mim, que chorei muito também. Pareciam duas crianças, um abraçado no outro chorando. E éramos duas crianças no sentimento, na amizade, na pureza, na decência, em tudo o que é nobre e elevado.

    Foi assim que voltei à amizade com o Sérgio. Amizade, aliás, que nunca tinha sido desfeita nem rompida. Era a tristeza que falava mais alto.

    É justamento esta música e letra que Paulo Peres reproduz reproduz hoje aqui na Tribuna da Internet: “Naquela Mesa”. Eu sabia que um dia iria sentir tudo aquilo. Tudinho. Por isso nem gostava de ouvir alguém cantar a música.

    O tempo passou. E Deus ainda me preservou dessa dor por cerca de 27 anos, até o 21 de Junho de 1997 chegar. E chegou. E eu senti. Sinto e sempre sentirei. Aquela mesa ainda está aqui na mesma casa, no mesmo lugar. A cadeira também é a mesma.Mas vazia, E desde então (21.6.97) naquela mesa alí que está me olhando enquanto escrevo agora e chorando, naquela mesa não se sentam mais três, como sentávamos Papai, minha esposa e eu. Naquela mesa passou a sentar apenas dois. O lugar dele está vazio.
    responder
    Jorge Béja1 de julho de 2020, 09:30 at 09:30
    Ouçam e vejam Que Beleza!. Quão Sublime!

    https://www.youtube.com/watch?v=g2dpHFDKtoYza!
    Área de anexos
    Visualizar o vídeo Elizeth Cardoso – “Naquela mesa” (Sergio Bittencourt) do YouTube

    Elizeth Cardoso – “Naquela mesa” (Sergio Bittencourt)

      • Eu, não tão garoto, assistia sempre o program do Flávio e ainda lembro emocionado da apresentação de “Naquela mesa…” logo após a morte de Jacob. Lembro perfeitamente da Márcia Mendes, realmente ela era linda e elegante. Bons tempos…

    • Prezado Nelson.

      No programa “A Grande Chance”, entrava dentro do “Programa Flávio Cavalcanti”, que o próprio Flávio apresentada. Todos os “jurados” eram talentosos. Você citou o Sérgio Bittencourt e Carlos Renato. Mas também estavam lá o José (Zé) Rodrigues, que não ria e dava nota zero em quase todos os candidatos. Tinha o maestro Erlon Chaves, Márcia de Windson, que dava nota 10 a todo mundo, o José Messias, o costureiro Denner, Mister Eco…e outros mais. O programa era aos domingos, das 18 horas à meia-noite.

      Depois, “A Grande Chance” passou a ser exibido apenas às quintas-feiras e não mais aos domingos, embora o “Programa Flávio Cavalcanti” continuasse aos domingos, mas sem o quadro “A Grande Chance”. E a partir de certa época o Sérgio Bittencourt passou a ser o apresentador do “A Grande Chance” e ele me convidou para ser jurado. Foi quando pude conhecer pessoalmente e conviver com Denner, José Rodrigues, Erlon Chaves (sabia tudo de música, era maestro de verdade), Márcia de Windson, Carlos Renato, José Messias, Mister Eco, Humberto Reis (Sérgio, Humberto e eu trabalhávamos na Rádio Nacional). Bons e inesquecíveis tempos. Tudo era real. Muito poucas — ou nenhuma — vaidades. Tudo era ao vivo. Nada combinado. Os candidatos todos nós conhecíamos na hora, quando se apresentavam. Eles iam durante a semana ensaiar quando nenhum de nós estava na televisão. Quanta saudade!

  2. È dr. Beja. A vida é uma eterna cançao. Não sei fazer versos,mas os devoro com uma fome insaciável.

    ” E quando o sol da vida já declina
    Mostrando-nos ao longe a sombra do poente
    È-nos doce parar na encosta da colina
    E volver para trás o nosso olhar plangen te…

    …Que doiradas canções nossas bocas não lançaram, entao perdidas pelo ar?
    Mil sonhos despersos, canções feitas sem nexo
    E que nós nunca mais haveremos de cantar…

    …Estas pobres canções tão simples , táo banais
    Mas onde existe ainda um pálido reflexo
    Do tempo de passou e que não volta mais
    ( Guerra Junqueiro. Livro: A Musa em Férias)

    • Belíssima passagem de Guerra Junqueiro Elmir Bello nos apresenta. Muito agradeço. Muito agradecemos, nobre tribunário. Nobre e Bello até no nome.

  3. Fiquei emocionado com o relato do Dr. Beja.
    Naquela mesa tá faltando a minha mãe, não telefona mais, às 06:00 da tarde, para saber do filho. Coração vazio de saudades, porque tem que ser desse jeito?
    Me fizestes chorar também, com essas lembranças, que são nossas e de todo mundo.
    Dói muito e não passa nunca. Que fazer?
    Márcia Mendes era realmente linda. Ela apresentava o Jornal Hoje. A trilha sonora de abertura e fechamento do agora chamado de Jornal da Tarde era uma música de Elton Jonh, que esqueci. Alguém pode me lembrar?
    Também assistia a Grande Chance. O genial Sérgio Bitencourt era sério e profundo conhecedor de música. Raras vezes deu a nota dez.

  4. Prezados Beja CN e colegas

    Esta musica tambem me emociona e me traz saudades dos amigos que se foram.

    Participo de um grupo e amigos que se encontra quinzenalmente desde 1985 (suspenso agora pelo covid).

    Alguns infelizmente já nao estão mais conosco mas sao sempre lembrados a cada encontro em que quase sempre ouvimos, cantamos e nos emocionamos com dois inos que dizem muito ao nosso grupo.

    Naquela Mesa e Nada Além

    Muito obrigado por também me fazer lembrar dos amigos que se foram especialmente um deles parceiro e companheiro de muitos acontecimentos embalados ao som destas musicas.

    grande abraco

    • Nada além de uma simples ilusão.
      Música de Ataulfo Alves e Mario Lago.
      Assisti a um show de Mário Lago, com o Cantor Chamom, no Teatro Dulcina, em frente a Câmara dos Vereadores. Lago num banco, comentava sobre cada música dele.
      Disse que tem dias, que desce uma nuvem do céu, e inunda todos nós de uma depressão, de um desconforto vindo do Cosmo.
      Tá fazendo falta nas mesas do Brasil.

  5. Carlos Newton,
    Belíssimo texto.
    Sergio Bittencourt tinha muito talento.
    Muito boa a lembrança da jornalista Márcia Mendes de rara beleza.

  6. Bem, assim dá mais gosto de ler e comentar nessa Tribuna, é um refrigério para a sensibilidade e bem longe dos ódios destilados por alguns.
    Parabéns aos que nos brindaram com excelente postagem.

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