Sérgio Cabral aumenta em 14% os pisos salariais, mas exclui funcionalismo

Pedro do Coutto

Com base na lei federal instituída no tempo de FHC, que faculta, embora não determine, o governador Sérgio Cabral encaminhou projeto de lei à Assembleia Legislativa elevando em 14% o salário mínimo na área estadual e, na mesma proporção, os pisos de todas as demais categorias que reúnem cerca de 1 milhão e 500 mil empregados celetistas, os que ganham acima do mínimo nacional. A CUT criticou a iniciativa dizendo que o aumento deveria ser de 27%.

Dois fatos, duas contradições. A do governador que fixou o realinhamento em 14 pontos, o dobro de inflação encontrada pelo IBGE para 2011, mas deveria estendê-lo ao funcionalismo do Estado por simples coerência. E da CUT que pedia 27% e, igualmente por coerência, deveria reivindicar da presidente Dilma Russef que aplicasse os 27% também ao mínimo nacional, aos aposentados e pensionistas do INSS, aos servidores públicos federais civis e militares.

Não tem sentido que ambos não sejam coerentes assim. Defendem a aplicação de um aumento para os outros e não fazem o mesmo, no caso do governador, quando se trata de sua própria esfera. E a CUT diz uma coisa em relação ao governador e outra em relação ao Palácio do Planalto.

Como é possível acreditar na sinceridade de um e de outra? Mandar os empregados particulares assumirem uma obrigação adicional é fácil. Homologar a iniciativa para si é outra história. A CUT também enveredou há tempo, desde a posse do presidente Lula, em janeiro de 2003, pelo rumo da mendacidade. Deixou de lutar por melhores salários e se transformou numa espécie de sublegenda do PT.

Por falar em sublegenda política, o mesmo fenômeno envolveu a UNE de tantas tradições de luta pela liberdade e pela justiça. CUT e UNE, para citar Hemingway, parece que deram adeus às armas. De reformistas passaram a entidades conservadoras. É pena.

E não só lamentável como prejudicial ao país e à democracia. Porque o regime democrático necessita do contraditório, de oposição, não se caracteriza através da manifestação pública de uma só voz. De uma só verdade. Não. Pelo contrário. A democracia é um regime de várias verdades, o que leva os governantes a terem que decidir num processo de síntese. Não pode imperar uma só vontade. E sim a média de todas as vontades. Claro que o governo, como a própria palavra define, tem que governar, trata-se de um poder executivo.

Mas não governar exclusivamente para determinadas correntes, determinadas forças de pressão, determinados interesses econômicos e financeiros. Não se trata de comandar um esquema de puritanos, porém de estabelecer os limites do possível e do aceitável sem esforço. Apesar de tudo, haverá sempre a divergência. Até hoje, pelo menos nos dois mil anos da era cristão, não há notícia de um sistema de poder que tenha sido capaz de contentar todos os seus integrantes. Ainda bem.
As cisões são inevitáveis. Não existem no planeta dois seres iguais, que concordam a respeito de tudo e não divirjam a respeito de nada. Mas isso é uma coisa. Utilizar dois pesos e duas medidas para questões iguais é outra muito diferente. Sérgio Cabral e a CUT estão agindo assim, o que não os deixa bem na fotografia da opinião pública. O governador ainda está destinando um acréscimo bem acima da inflação, apesar de sua vigência começar em março, não em Janeiro. Mas a imagem da CUT no espelho distorce-se totalmente. Assume a posição do capitalismo para nós, o socialismo para os outros. Porém em matéria de contradição, acrescento uma terceira: a de Carlos Minc, secretário de Meio Ambiente do RJ.
Quando se verificou vazamento numa perfuração da Chevron, ele partiu para os jornais e emissoras de televisão. Agora, no episódio do vazamento de um campo da Petrobrás, nada diz. Ocultou-se sob a cômoda sombra da omissão. Dois pesos, duas medidas. De atuante tornou-se escapista. Em pequeno espaço de tempo.
A vida é assim.

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