Sergio Cabral culpa eleitorado pelos desabamentos

Pedro do Coutto

Numa entrevista publicada na edição de O Globo de sábado, página 21, logo após visitar a tragédia do Morro do Bumba, Niterói, o governador Sergio Cabral, em mais um momento de rara infelicidade, culpou toda a sociedade pelos desabamentos que deixaram um rastro sinistro de mais de 200 mortos, milhares de desabrigados e destruição de construções precárias em áreas de risco. Como os eleitores fazem parte, é claro, da sociedade, o governador foi profundamente injusto ao atribuir responsabilidade a todos aqueles que nenhum vínculo possuem com as conseqüências dramáticas decorrentes das fortes chuvas que inundaram a cidade do Rio, capital, a de Niterói e de vários outros municípios fluminenses.

Um absurdo completo o que afirmou, já que existem órgãos na administração pública responsáveis pela aprovação de projetos que se destinam a examinar, aprovar e autorizar as obras de construção de moradias e sua localização. Sérgio Cabral, em vez de culpar o prefeito de Niterói, Jorge Roberto da Silveira, por exemplo, que há anos aprovou a ocupação no Morro do Bumba, preferiu tentar dividir a culpa por todos os habitantes. Um absurdo completo.

O que poderia a sociedade, como um todo, fazer para impedir o surgimento de uma situação de risco como essa? Nada. Uma coisa é ter culpa, outra é ter dolo, intenção de praticar um crime, outra é o excesso culposo, na qual se enquadra a Prefeitura de Niterói, uma outra é não ter culpa nenhuma. Esta última análise, por sinal, envolve a quase totalidade da população, portanto da sociedade e do eleitorado. Não vejo como possa ser atribuída a mínima culpa, por exemplo, aos moradores do Leblon, Ipanema, Madureira, que sequer sabiam do projeto de construção e urbanização de uma favela edificada sobre uma área de antigo lixão de alto risco.

O governador, buscando diluir as responsabilidades, afastou do foco central os autores das autorizações. Culpar os pobres  que lá foram residir é outra atitude injusta. A política salarial implantada no país de 64 para cá, excetuando os períodos Itamar Franco e do próprio Lula, que reajustaram os salários, foi causando um processo de aviltamento dos valores do trabalho. Os salários perderam disparado a corrida contra as taxas de inflação do IBGE e da FGV. Resultado: a favelização foi crescendo sem parar. Em 1961, os moradores de favelas eram 300 mil, 10% da população do Rio. Hoje, para uma população que duplicou em 50 anos, os habitantes em favelas e cortiços atingem 2 milhões, 33% da população global da cidade. Como exigir discernimento da faixa mais pobre? São milhares de famílias tentando pelo menos morar. Não estão nos morros porque querem. É porque não podem pagar aluguel, muito menos prestação da casa própria.

As correções aplicadas sobem muito mais do que seus salários. Na raiz dos problemas, está sempre a questão dos salários. Mas este ângulo essencial, não foi tocado pelo governador para explicar a origem de tudo. Administradores públicos e políticos fazem promessas de sentido eleitoreiro. Quem está no desespero aceita as condições. Esquece o risco fomentado pelas promessas que são os alçapões da falsidade. Como culpar quem está no desespero? Injusto. Até cruel. Culpa se atribui a quem a tem, de fato. Além do mais, não se pode querer transformar as vítimas em culpados. O governador Sergio Cabral errou feio. Eximiu os verdadeiros responsáveis para não perder votos, dizendo a verdade. Preferiu o ilusionismo. Falhou. E muito.

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