Sérgio Cabral e Eduardo Paes esqueceram Noel Rosa

Pedro do Coutto

O ano de 2010, que marca o centenário de nascimento de Noel Rosa, um gênio,um dos maiores poetas do país de todos os tempos, dentre eles o mais reeditado, está se aproximando de seu fim, mas até agora nem o governador Sergio Cabral, tampouco o prefeito Eduardo Paes, se lembraram de realizar em memória do poeta da Vila Isabel a homenagem que a cultura e a arte brasileira devem a um jovem que teve de fazer sua obra depressa: ele não chegou aos 30 anos.

Como há vinte anos, mais ou menos, a Rede Globo colocou no ar um espetáculo musical, aliás excelente, dirigido por Augusto Cesar Vanucci, destacando o artista, que falava do céu, dialogando com Sílvio Caldas, na Terra. O esquecimento político, duplo aliás, pois Noel era carioca da gema,como se dizia antigamente e como se diz hoje quando nos referimos a uma das melhores casas noturnas da Lapa que ressurge. Uma casa de samba, reduto do passado que se eterniza no romantismo dos versos e das canções que  se foram com o vento e com o tempo.

Incrível a omissão. Principalmente do governador. O prefeito não é ligado à cultura, nem a ela dá a atenção devida. Mas Sérgio Cabral é filho de um grande jornalista, uma das melhores figuras do Rio. Que se destaca entre os biógrafos de Noel e responsável por várias reedições de sua obra. Recentemente inclusive falou sobre aquele gigante do verso na Academia Brasileira de Letras, e, junto com Ruy Castro, participou de um debate na Livraria Argumento, Shopping Leblon.

Não é possível que Sérgio Cabral, o pai, não tenha comentado com o filho a importância extraordinária de Noel Rosa, importância inclusive que cresce com o tempo. Aliás como há 70anos destacava Orestes Barbosa, autor de “Chão de Estrelas” e da ‘Mulher que ficou na Taça”. Noel ficou na taça poética da eternidade e, por falar em taça, ele imortalizou esta imagem, inspirando-se em Orestes, ao completar de madrugada, para Francisco Alves gravar na manhã seguinte, o “Por que bebes tanto assim rapaz?” – maior samba de carnaval composto até hoje. Explico. Não vamos confundir samba com marcha. A maior marcha, de Lamartine Babo, é “O Teu Cabelo Não Nega”, já “Por que Bebes?” é o maior samba de carnaval. O início foi do pugilista Rubens Soares, que não conseguia dar sequência aos versos que marcam o ritmo da batucada.

Quem tiver dúvida consulte “Noel Rosa, Uma Biografia”, do excelente jornalista João Maximo, em parceria com o músico Carlos Didier. Aliás, a maior obra escrita até hoje sobre o poeta da Vila, sua vida, sua arte, seus amores incertos, interrompidos pelas noites de boemia. “No Tempo de Noel Rosa’, de Almirante (Henrique Froeis), é outra obra básica a destacar o artista de todas as épocas. De sempre, cada vez mais atual a cada dia. Sobre ele também muito importante o verbete da Delta Larousse que Antonio Houaiss dirigiu, e cuja edição foi concluída no final de 1967.

Mas e a parte sonora? Não se perdeu como alguns possam pensar com o fim da coleção de Lúcio Rangel e com a venda da coleção de José Ramos Tinhorão. Nada disso. Está de pé a fantástica coleção do jornalista, poeta e escritor José Lino Grunewald, meu saudoso amigo, creio que quase completa do legado original de Rosa, desde o tempo em que ele gravou “Com Que Roupa?” Com o bando dos Tangarás, em 1930, conjunto do qual Almirante fazia parte. A coleção do grande Grunewald está adormecida, mas viva com seu filho Bernardo e sua viúva Ecila. Talvez para surpresa do destino, JLG, que se encontrou com ele no Céu, tornou-se responsável por um tesouro de arte.

Sobre este tesouro, como na canção de Sílvio Caldas e Paulo Tapajoz, o pranto que a lua chora goteja, goteja agora, nos oitis do Boulevard. Sergio Cabral e Eduardo Paes têm duas semanas para corrigir uma omissão incrível.

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