Sérgio Cabral, o aborto e o silêncio da CNBB

Pedro do Coutto

No dia 22 de outubro deste ano, na reta de chegada do segundo turno da sucessão presidencial, O Estado de São Paulo publicou declarações de Dom Geraldo Lírio da Rocha, presidente da CNBB, e Dom Dimas Barbosa, secretário geral, condenando enfaticamente qualquer posição política favorável, não ao aborto, em si, do qual ninguém pode ser a favor, mas da retirada de sua prática da lei penal, o que está correto. A manifestação dias depois endossada pelo Papa Bento XVI, visava claramente abalar a candidatura Dilma Rousseff. Causou impacto, claro, mas não se refletiu nas urnas. Estas confirmaram plenamente as pesquisas do IBOPE e Datafolha. Entretanto ficou consignada a posição ideológica.

Melhor dizendo: ficaria. Não ficou. Tanto assim que agora, principal manchete de O Globo de quinta-feira, o governador Sérgio Cabral afirmou-se favoravelmente ao aborto, recorrendo até a comparações grosseiras em nível muito baixo daquele que a opinião pública exige de um governador de estado, e os dois principais representantes da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil nada disseram. A entidade preferiu o silêncio. Silêncio comprometedor e revelador de uma acentuada omissão contraditória. O Vaticano, por seu turno, parece não desejar manifestar-se. Caso contrário, o Observatore Romano, órgão oficial da Santa Sé, já teria saído com um de seus tradicionais artigos, realçando a posição conservadora da Igreja Romana.

Aliás, em matéria de omissão recente, a adotada relativamente ao governador Sergio Cabral não foi a única. Nem o Papa Bento XVI, tampouco a CNBB, assumiram qualquer posição contrária a pena revoltante da Sakineh Astiani pelo governo do Irã. Mahomoud Amedinejad, até ele, cedeu à pressão internacional, e tenta transformar a condenação milenar por apedrejamento pela forca medieval. Em nenhuma das duas formas, a Santa Sé de Roma disse coisa alguma. Assumiu obliquamente o silêncio dos inocentes para aproveitar o título em português do filme famoso há poucos anos exibido no Brasil.

A CNBB não podia se calar diante do governador Sergio Cabral para ser coerente consigo mesma. Afinal está em choque frontal uma divergência profunda. A defesa do aborto não pode ser condenada na véspera das urnas e ser ignorada depois da apuração dos votos, como se tudo estivesse bem entre Cristo e Cesar. O Vaticano, que na ocasião das eleições brasileiras, veio à frente do palco, depois de computados os sufrágios não poderia retirar-se para os bastidores. Mas fez isso. Recolheu-se às sombras obscurantistas do passado. Assim agindo repete a mesma lacuna cometida pelo Papa Pio XII em relação à desumanidade e atrocidades do nazismo de Hitler. De omissão em omissão, de contradição em contradição, a Igreja Católica perde espaço.

Volto ao caso do apedrejamento. A Igreja de Roma, que arrebatou para si a imagem de Jesus Cristo 305 anos depois da crucificação, teve que condenar a perspectiva de apedrejamento de Sakineh porque o Filho de Deus, em Jerusalém, pouco antes do trágico desfecho da cruz, impediu o apedrejamento de Madalena. Pena judaica da época. A crucificação era pena romana. Madalena, Maria Betânia, Maria de Magdala, para a Delta Larousse, eram a mesma pessoa. Estão inclusive  na visão de Ticiano, renascentista, que integra a eterna coleção da família Pitti, em Florença. A arte é um momento da consciência humana. Não da omissão. Ou da vacilação pendular de dizer uma coisa hoje e assumir outro posicionamento amanhã.

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