Sérgio Moro e a “omertà das organizações criminosas”

Sérgio Moro tornou-se exemplo de magistrado atuante

Percival Puggina

Os líderes do grupo governante e os que, nos meios de comunicação e nas redes sociais, dão suporte político à organização atuante nos escalões do poder, são contra as delações premiadas. Aqui, é importante distinguir e, simultaneamente, identificar as parcerias. Não é incomum que criminosos se instalem no poder, conspirem e pratiquem atos lesivos ao patrimônio público. O jornalismo investigativo e as instituições nacionais identificaram tais condutas em 2005, e não pararam mais de apontar ilícitos cometidos em exercício das funções de governo e administração. Nesse caso, o apoio político à permanência da organização no poder, a louvação dos réus e dos condenados, a tentativa de desqualificar as acusações e as sentenças para sustentar eleitoralmente o grupo assaltante, devem ser, sem meias palavras, qualificadas como formas de cumplicidade.

Portanto, reprovar as colaborações premiadas, tão úteis ao desmonte de algumas dessas estruturas e à recuperação de valores furtados, é o mesmo que apoiar o crime em prejuízo do interesse público.

O jornalismo chapa-branca vem insistindo nessa prática, tentando desvirtuar e desacreditar esse instrumento instituído por lei federal, equiparando-o às formas vulgares de traição. Dedicam-se ao photoshop da imagem desgastada de seus protetores ou de seus protegidos. Fazem acrobacias retóricas em defesa do projeto de hegemonia em curso no país.

COISA DE DILMA

A presidente Dilma deu o sinal verde para a campanha de difamação da colaboração premiada ao assemelhá-la à delação arrancada sob tortura. Mas aí é coisa da Dilma e a gente tem que entender como coisa da Dilma. Não é o caso de jornalistas, analistas, líderes políticos e militantes mais qualificados. Nestes casos é desonestidade intelectual e cumplicidade. Estão dispostos a contribuir e efetivamente contribuem para que nada mude.

Merecem destaque, então, as palavras do juiz Sérgio Moro, na sentença de condenação de ex-executivos da Camargo Correa, divulgada ontem. Afirma o magistrado: “Quem, em geral, vem criticando a colaboração premiada é, aparentemente, favorável à regra do silêncio, a omertà das organizações criminosas, isso sim reprovável. Piercamilo Davigo, um dos membros da equipe milanesa da famosa Operação Mani Pulite, disse, com muita propriedade: “A corrupção envolve quem paga e quem recebe. Se eles se calarem, não vamos descobrir jamais” (SIMON, Pedro. Audiência pública com magistrados italianos. Brasília: Senado Federal, 1998, p. 27).

Este é um momento, portanto, em que os lados ficam perfeitamente definidos. Opor-se à colaboração premiada, no âmbito da ação política junto à opinião pública, é defender a omertà, a regra do silêncio. Ainda que as motivações sejam as mais diversas, o efeito acaba sendo o mesmo.

6 thoughts on “Sérgio Moro e a “omertà das organizações criminosas”

  1. Sem Blatter, que enfim se rendeu à realidade e renunciou, a Fifa pode enfim passar por um processo de desintoxicação.

    E a CBF?

    O equivalente a Blatter, no futebol brasileiro, é a Globo.

    Enquanto a Globo estiver metida no futebol brasileiro, nada vai acontecer.

    O espírito da Globo é o que todos conhecemos: predador. Na relação entre a Globo e o futebol brasileiro, a Globo ganhou extraordinariamente e o futebol brasileiro se reduziu à miséria.

    Alguma coisa, obviamente, não funcionou na sociedade. Quer dizer, funcionou apenas para a Globo.

    A Globo tem que sair do futebol brasileiro, como Blatter saiu da Fifa.

    Mas vai sair?

    É difícil, dado o poder na Globo. Mas também era difícil imaginar Blatter fora da Fifa, mesmo depois da eclosão do escândalo.

    Há um caminho que pode levar a uma faxina real na CBF, e ele passa por Ricardo Teixeira.

    Se a PF e a justiça realmente apertarem Teixeira, os desdobramentos podem ser interessantes.

    Imagine que seja oferecida a ele a delação premiada.

    Que histórias ele não tem a contar dos anos, muitos anos, de parceria entre a CBF, a Globo – e a Fifa.

    A Globo, nos anos de influência de Teixeira (e do antigo sogro Havelange) na Fifa, sistematicamente ganhou os direitos de transmitir a Copa para o Brasil.

    Bizarrices ocorreram.

    A Globo levou as Copas de 2010 e 2014 por 220 milhões de dólares, pagos à Fifa, 100 milhões pela primeira e 120 pela segunda. A Record foi preterida com uma oferta de 360 milhões de dólares.

    Para a Copa de 2014, a Globo colocou no mercado oito cotas de patrocínio, cada uma delas por 180 milhões de reais.

    Como o dólar estava em dois reais, isso significava 90 milhões de dólares por cota.

    Isso dá um total de 720 milhões de dólares. A Globo não é de dar descontos, e então o faturamento deve ter sido aquele mesmo.

    Qual o gasto para cobrir? O maior mesmo é a compra dos direitos. Sequer imagens a Globo teve que gerar, pelo contrato.

    Suponhamos, com boa vontade, que a Globo tenha gastado 50 milhões de dólares para armar a cobertura da Copa.

    Você gasta 120 mais 50. O total é 170. E fatura 720.

    Existe negócio melhor?

    É assim que os Marinhos se tornaram a família mais rica do Brasil.

    Ricardo Teixeira e João Havelange tinham força, no passado, para influenciar nas decisões da Fifa.

    O que a Globo não teria feito para manter a Copa em casa?

    Fora o dinheiro, há um ganho imenso de audiência e de prestígio na transmissão de uma Copa, coisas que se transformam em mais negócios lucrativos.

    O difícil, no Brasil como conhecemos, é acreditar que Ricardo Teixeira vai ser cobrado pela polícia e pela justiça como Marin será nos Estados Unidos.

    Mas se for, e se ele falar numa delação premiada, a CBF vai ser desinfetada, como a Fifa pós-Blatter.

    (Acompanhe as publicações do DCM no Facebook. Curta aqui).
    Paulo Nogueira
    Sobre o Autor

    O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

  2. Enquanto isto, aqui no Brasillll, o diretor de Planejamento e Engenharia da controlada Centrais Elétricas do Norte do Brasil (Eletronorte), Adhemar Palocci, solicitou licença de seu cargo na empresa.

    Adhemar é irmão do ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil Antônio Palocci. O pedido de licença é feito três dias após o presidente licenciado da Eletronuclear – outra subsidiária da Eletrobras – Othon Pinheiro, ter sido preso na 16ª fase da Operação Lava-Jato da Polícia Federal.

    Leia mais em: http://zip.net/bjrJ6w

    Leia mais em: http://zip.net/bjrJ6w

  3. Percival Puggina é lamentável que você nos brinde com um artigo FORMIDÁVEL E ESCLARECEDOR e venham os bizonhos, despolitizados e insuficiêntes ideológicos a falar de Blater e Ademar Palocci. Eu estou agradecido pelo teu artigo. Parabens companheiro. Sei que sou um contumaz crítico de quase tudo e de quase todos. Mas hoje você merece NOTA 10.

  4. Antigamente se dizia que malandro de verdade, não apanhava da polícia. Quando era preso, bastava o policial
    perguntar e o “meliante”, contava tudo.
    Velhos costumes que já não existem mais. Agora bandido tem que ter a garantia de que vai ganhar alguma coisa, para contar um pouco do que sabe e contando só o que interessa a si, ou ao seu grupo.
    Alguns até chamam os delatores de “traidores” , esquecendo de também dar nome a quem recebeu um cargo público, sempre bem remunerado, e que não correspondeu a confiança depositada.
    Não há traição maior, do que o roubo de dinheiro público. O indivíduo recebe o cargo, que é do povo, e passa
    a rouba-lo, miseravelmente. Tem algum outro nome para a prática?
    Estes ladrões devem é receber o castigo mais severo possível, sem nenhuma premiação, porque são seres
    imundos e degenerados. Jamais vai se saber quantas pessoas morreram, mas que poderiam ser salvas, se estes vagabundos não os tivessem roubados.
    Se não houver outra forma de se descobrir a verdade, que seja através desta tal de delação premiada, mas que o “premio”, seja muito inferior ao castigo, pelo crime cometido.

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