Seriam os carnavalescos terroristas?

Carlos Chagas

Vem aí o Carnaval. Apesar de o Século XXI praticar muito mais a nudez do que a folia mascarada de décadas atrás, dúvidas inexistem de que milhares de foliões irão para as ruas humoristicamente disfarçados. Aliás, este ano, devem prevalecer as máscaras do ministro Joaquim Barbosa, como antes as de Dilma, Lula e outros.

Junto com os disfarces assistiremos multidões ocupando praças, ruas e avenidas, interrompendo o tráfego, invadindo calçadas, até quebrando vitrinas e aqui e ali empenhadas em entreveros físicos, para não falar no prejuízo para bancas de jornal, catracas do metrô e similares.

Seriam os carnavalescos terroristas? Dando demasiada vazão à euforia, precisariam ser confundidos com os manifestantes empenhados em protestos contra a alta no preço dos transportes, as más condições de educação e saúde públicas, e até contra a copa do mundo? Mas se estes, por força de uma nova lei, forem tratados como os vândalos infiltrados nos movimentos, aqueles que depredam, assaltam e até matam? Em se tratando de manifestações pacíficas, apesar de excessos, o risco será misturar seus personagens com os dedicados às comemorações carnavalescas. Coibir uns não será colocar outros em xeque?

Fala-se do novo projeto de lei que a presidente Dilma enviará ao Congresso nos próximos dias. Suas intenções são boas, de evitar o crime e o vandalismo, mas o perigo é de confundir-se o protesto, pacífico apesar de tumultuado, com a ação deletéria e criminosa de grupos infiltrados nas manifestações, os chamados black blocs. Vai todo mundo para a delegacia, tendo a massa, antes, sido brindada com gás lacrimogêneo, spray de pimenta, cassetetes e balas de borracha? Esses instrumentos atingem todo mundo, apesar de destinados apenas aos vândalos.

Aqui, fecha-se o círculo: e se os black blocs resolverem aparecer no carnaval? Já estivesse votada a nova lei e, assim como os manifestantes mais ou menos pacíficos dos tempos atuais, os foliões carnavalescos também seriam tratados como terroristas.

A hora é de cautela, para o Congresso. Nada de aprovar tudo o que interessa ao palácio do Planalto, ainda mais quando se pretende misturar manifestações com terrorismo. E sem esquecer que por trás do açodamento da presidente Dilma em ver votadas as novas restrições está o dedo sujo da Fifa, imaginando proteger turistas estrangeiros sem o pudor de interferir em nossa legislação.

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