Sermão de Dom Orlando também reflete a posição do Papa no compromisso com a vida

“Pátria amada não pode ser pátria armada”, diz o arcebispo

Pedro do Coutto

No sermão feito durante a homilia pela passagem da celebração de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, o arcebispo Orlando Brandes, na realidade, fez um ataque direto à política do presidente Jair Bolsonaro que defende o armamento da população, é contra a vacina no combate à Covid.19, além de apoiar as fake news para desinformar à sociedade no esforço de apoiar o seu governo.

Reportagens de Sérgio Roxo, O Globo, Tatiana Cavalcanti, Folha de S. Paulo, e José Maria Tomazela, o Estado de S. Paulo, edições de ontem, reproduzem de forma excelente o episódio registrado na Catedral de Aparecida. A repercussão foi e está sendo muito grande, proporcional à importância da manifestação, a qual, no fundo, reflete sem dúvida alguma a posição do Papa Francisco e do Vaticano ao que se refere ao relacionamento com Brasília.

PÁTRIA AMADA – Dom Orlando Brandes disse que a “pátria amada não pode ser pátria armada”, mas que deve ser uma uma república sem mentiras e fake news, uma pátria amada sem corrupção. É a pátria amada com fraternidade. “Somos todos irmãos, construindo a grande família brasileira”, acrescentou.O reflexo do acontecimento cresceu ainda mais porque à tarde (o sermão foi pela manhã) o presidente Bolsonaro compareceu à missa novamente celebrada na Catedral.

Dom Orlando Brandes acentuou que as suas palavras representam uma mensagem para todos os brasileiros, lamentou a morte de 600 mil pessoas pela Covid-19 e destacou a importância da vacina e da Ciência, exatamente o oposto do que o chefe do Executivo adota e defende. Sérgio Roxo acrescenta na matéria de O Globo que o sermão de Dom Orlando foi mais um ponto de desencontro entre a Igreja Católica e o governo num relacionamento abalado por pronunciamentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil quando Dom Walmor Oliveira de Azevedo divulgou um vídeo de crítica ao governo. Em abril de 2020, 152 arcebispos assinaram uma carta aberta com fortes críticas ao governo Bolsonaro, frisando sua apatia pelos mais pobres.

Agora, o distanciamento entre a Igreja Católica e o Palácio do Planalto foi ampliado. Na Folha de S. Paulo, Anna Virginia  Balloussier focaliza o encontro de Aparecida como uma prova a mais do desconforto existente entre o presidente da República e os bispos do Brasil. Os bispos têm criticado também a falta de uma política que concretamente enfrente o desemprego de milhões de pessoas. Os acontecimentos de Aparecida refletem também a diferença que separa algumas correntes evangélicas da Igreja de Roma. As consequências eleitorais deste distanciamento, a meu ver, são inevitáveis. O episódio de Aparecida do Norte foi um dos acontecimentos de maior peso político dos últimos meses.

INFLAÇÃO – Reportagem de Rafael Balago, de Washington, Folha de S. Paulo de ontem, destaca a entrevista de  Gita Gopinath, economista-chefe do FMI  ao Financial Times na qual sustenta que é necessária muita vigilância com o crescimento da inflação quando se referiu especialmente ao Brasil. O Brasil apresenta uma perspectiva inflacionária que só é ultrapassada pela Nigéria. O Fundo Monetário Internacional, matéria de Ricardo Leopoldo e Gabriel Bueno da Costa, O Estado de S. Paulo, projeta para o Brasil um crescimento do Produto Interno Bruto de apenas 1,5%, o que representa uma quase estagnação já que o crescimento demográfico brasileiro no período de 12 meses está na escala de 1%.

Na minha opinião, nenhum crescimento efetivo da economia pode-se registrar quando no campo social existem mais de 14 milhões de desempregados. É impossível. Isso de um lado. De outro, conforme digo sempre, é preciso saber sobre qual número absoluto do PIB incide a percentagem de 1,5%. Isso porque quando uma percentagem de crescimento é projetada sobre um resultado não muito positivo, a comparação fica sujeita a distorções.

Na reunião anual do FMI, o ministro Paulo Guedes, que viajou acompanhado pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, culpou os setores de alimentação e de energia pela alta da inflação no Brasil. Numa tentativa clara de se eximir por sua política, o ministro da Economia sustentou que a alta de preços no mundo está sendo global.  

ENDIVIDAMENTO – Carolina Nalin, Júlia Motta e Polyanna Brêtas publicaram uma reportagem extremamente importante no O Globo de ontem sobre o endividamento de 59,9% da renda média anual das famílias, o que representa uma proximidade bastante estreita com o limite de rolagem das dívidas em função dos juros cobrados pelo mercado.

A pressão social assim aumenta a cada dia. E, como vem acontecendo, atinge a alimentação, elevando em consequência ainda mais os riscos à saúde humana.

9 thoughts on “Sermão de Dom Orlando também reflete a posição do Papa no compromisso com a vida

  1. Desde o Papa Paulo VI, a igreja católica através dos seus religiosos, estão proibidos de se manifestarem politicamente! Mas nos casos em que a vida humana esteja sendo ameaçada um posicionamento se faz necessário.

  2. Discordo de tudo que o artigo mostra e dos citados como fonte de informação.
    Aliás, abomino padres e bispos de passeata. Essa gente tinha que cuidar da parte espiritual deles próprios e dos fiéis. Essa gente deveria se preocupar e olhar para o passado, do que aconteceu com os regimes que ora defendem a boca miúda. Deveriam ter cuidados com os próprios desejos, vai que eles se concretizem.
    O farisaísmo penetrou o amago dessa igreja, farisaísmo e hipocrisia marca a atitude desses militantes do caos.
    Me preocupa mais a pedofilia, pederastia dentro de boa parte do clero e a desfaçatez com que criticam a pátria armada, a guarda suíça que protege o Vaticano não usa flores, essa própria basílica onde o cara de Judas falou é protegida por segurança armada.
    Enfim, não houve nada de cristianismo no ato, houve sim manifestação de ideologia esquerdista, haja vista como esta está reagindo, se a esquerda tivesse poder esse arcebispo seria canonizado na hora.
    O Papa Pio XII excomungaria esse arcebispo.

  3. Corajoso e irretocável o artigo de Pedro do Coutto.
    Clap, clap, clap!
    .
    .
    Quanto aos sepulcros caiados que porventura venham contestar o discurso contundente do Bispo em Aparecida – e eles virão -, não passam duma clara demonstração de vassalagem ao criminoso (ladrão e genocida) ora encastelado no ilusório poder. Ademais os “bispos” neo-evangélicos, esses SIM, estão frontalmente contra os ensinamentos críticos.

  4. Realmente a Igreja brasileira insiste em dividir os católicos apelando para o papa Francisco, é um golpe baixo que para muita gente funciona. Para mim, não porque argumentação demagógica e rasteira não cola, já passei desta fase. O direito a posse de armas não obriga nenhum cidadão a exercê-lo. Eu não tenho arma mas defendo o direito de adquirir uma, defendo a liberdade e o direito, coisa que difere do entendimento de Dom Orlando.

    • Se Deus impedisse os raios em igrejas, sem o uso de para-raios. Nas igrejas ao invés de ter pessoas de fé; teria pessoas interesseiras, que não tem fé.

      PS: Aqui na igreja do meu bairro; Deus além de mostrar sua existência, “provendo” um engenheiro para colocar o para raio; ainda “proveu” uma equipe, que fez toda a parte elétrica da igreja. E só quem tem fé, acreditou nesse milagre. Interesseiros não acreditam.

  5. Dom Orlando Brandes falou sobre a realidade brasileira atual, o abandono dos pobres, dos negros e dos índios.
    Hoje, só quem está se dando bem no Brasil é a bancada da bala, da Bíblia e do agronegócio do atraso e da derrubada indiscriminada de árvores .
    Isso não tem nada a ver com esquerdismo, o novo inimigo dos bolsonaristas, só falam nisso para desviar a atenção da inflação, da crise Hídrica, do risco de apagão e da corrupção na compra de vacinas, conforme exposto na CPI.
    E agora, ainda vem o escândalo do Pandorra Papers, que expôs o ministro Guedes e o Presidente do Banco Central, Campos Neto, em contas secretas em paraísos fiscais. Se fosse o Lula, já estariam pedindo cadeira elétrica ou prisão perpétua. Outra coisa, Lula nunca foi esquerdista, inclusive o poderoso general Golbery gostava dele.
    A propósito, nenhum esquerdista, digamos assim, foi pego nessa maracutaia dos paraísos fiscais. Presidentes do Chile e do Equador estão na lista e vão sofrer processo de impeachment.
    No Brasil, Guedes pode dormir em paz, porque não vai acontecer nada, neca de pitipiriba.
    Se o ministro da Economia, Guedes, não acredita nos dividendos das aplicações financeiras do seu país, da área que ele Guedes comanda, quem vai acreditar?
    Com a palavra a poderosa Federação dos Bancos, que cobram juros altos dos empréstimos concedidos e se aproxima de zero nas aplicações financeiras? Neste particular, Paulo Guedes buscou a razão, a lógica né, mas o que pegou no caso, é que ele comanda o Ministério da Economia, portanto, moralmente, no cargo deveria fechar sua conta no paraíso fiscal. Se não quisesse perder dinheiro, deveria pedir demissão. Ganhar nas duas pontas não pode.
    E ainda querem falar e criticar o vizinho.
    Criticam da boca para fora, no governo faz pior.
    Parabéns Pedro do Couto, pelo brilhante arrazoado.

  6. A inflação é um castigo para as famílias mais pobres. Apesar de afetar a todos indistintamente, os mais ricos da sociedade têm massas de manobra para driblar esse dragão da maldade inflacionário. Os pobres sem aumento de salário, que nunca acompanham a escalada de preços nos supermercados e nas bombas de gasolina, sofrem todo mês para equilibrar suas contas.
    Paulo Guedes e Bolsonaro estão pouco ligando para os reflexos da inflação na vida do povo. O ministro então, esse jogador financeiro em paraisos fiscais, faturou 51 milhões. É tanto dinheiro, que poderia se pudesse, viver 1000 anos, que o dinheiro não acabaria. Guedes não sabe o preço do feijão nem do arroz. Com essa dinheirama toda amealhada ao longo de pouco mais de 70 anos, ele está com o boi na sombra. Não precisava mais trabalhar. Mas, vive atazanando a vida do povo trabalhador num sadismo arroz e diário.
    Quando ele aparece na televisão, recomendo tirar as crianças da sala, para afastar os menores do Mal.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *