Serra bloqueou um ato que o favoreceria

Pedro do Coutto

Francamente, sob o ponto de vista eleitoral, apenas eleitoral, não foi positiva para José Serra sua iniciativa de responsabilizar Dilma Roussef pela elaboração de um suposto dossiê produzido nos bastidores do PT procurando indiretamente atingi-lo, através de denúncia contra sua filha, Verônica, por questões, segundo saiu na imprensa, relativas ao Imposto de Renda.

A Revista Veja de domingo passado publicou matéria dando conta da existência de um trabalho de produção do tal dossiê. Mas ele não veio a público. Serra, assim, antecipou-se à execução do crime, impedindo-o e com isso anulando o que poderia vir a ser um instrumento a seu favor. A melhor reportagem sobre o assunto, a meu ver, foi de Júlia Duaulibi, O Estado de São Paulo de 3 de Junho.

O ex-governador de São Paulo  relembrou um outro dossiê, este sim de divulgação concretizada, feito por setores do Partido dos Trabalhadores, contra ele na campanha de 2006 pelo governo estadual, para ajudar a candidatura Aloísio Mercadante, que acabou derrotado por larga margem de votos. O episódio ficou conhecido como ação dos aloprados, assim classificada pelo próprio presidente Lula, que inclusive demitiu um dos membros de sua equipe palaciana, Lorenzeti, consagrado preparador de churrascos.

A periferia do poder é sempre extremamente crítica, as infiltrações consentidas por este ou aquele motivo terminam sempre muito mal. O dossiê dos aloprados incluía até a matéria a ser veiculada pela Revista Isto É. Não adiantou nada a torpe iniciativa para Mercadante. Ao contrário, fortaleceu Serra ainda mais.

Quem examinar a história de dossiês e cartas falsas da política brasileira vai concluir que todas as tentativas fracassaram. Esta, envolvendo a filha Verônica e o genro, Alex, fracassaria também. Mentir, ocultar a verdade, praticar chantagem, são atos imundos que comprometem irremediavelmente seus autores. Esta só não fracassou porque o próprio José Serra decidiu antecipar-se a ela. Foi um erro tático, talvez até estratégico. Terminou ele próprio veiculando uma denúncia que adversários não chegaram a concluir e concretizar.

O fato me lembra a atitude do deputado Álvaro Vale, na campanha para prefeito do Rio, em 85, divulgando , ele próprio um dossiê que estaria sendo feito contra ele, sustentando que ele era homossexual. Não apareceu dossiê algum. Ele próprio, tentando obter efeito nas urnas, armou contra si um documento de que não houve. No campo do Direito, acentuava Santiago Dantas, a figura da tentativa só existe no plano Penal, em caso de homicídio. Nos demais casos, é preciso que o fato se concretize. Serra, agora, impediu a concretização. E, portanto, destruiu a hipótese da prova que reverteria a seu favor, caso a denúncia se materializasse.

Produzir dossiês, verdadeiros ou falsos, nunca dá certo quando se trata, sobretudo, de atingir a honra alheia. O caso mais famoso da história moderna é o da Carta Brandi, divulgada por Carlos Lacerda, na véspera das eleições de outubro de 55, acusando João Goulart, vice de JK, de ligações com o presidente da Argentina Juan Domingo Perón, para fornecimento de armas à oposição ao governo Café Filho, que apoiava Juarez Távora. Lacerda falhou na tarefa elaborada. E não podia prever que naquele dia 3 de outubro, enquanto o povo votava no Brasil, Perón era derrubado da Casa Rosada por um golpe militar. A farsa terminou favorecendo o próprio Goulart, que se elegeu vice de Juscelino. Na época, as eleições de vice e de presidente eram separadas.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *