Serra insiste em presidir o PSDB, para ser novamente presidenciável. Com isso, divide cada vez mais o partido. Desse jeito, o PT ficará no poder eternamente.

Carlos Newton

Nos bastidores do jogo de xadrez pela disputa do poder, a presidência do PSDB tornou-se uma peça importante, uma espécie de rainha que se mexe para lá e para cá. O senador paulista Aloysio Nunes Ferreira, além de defender a eleição do ex-governador José Serra para comandar o partido, apressa-se em afirmar que “não há candidatura natural à Presidência da República”, referindo-se expressamente a Aécio Neves.

O novo senador paulista alega que a candidatura presidencial precisa ser construída. “Têm muitos nomes que podem vir a ser. Alckmin, acho eu, o próprio Serra”, diz Nunes Ferreira que prefere Serra presidindo o PSDB justamente para garantir e alavancar a candidatura do ex-governador à sucessão de Dilma Rousseff.

Nunes Ferreira vai além e faz críticas à coleta de assinaturas para reconduzir Sérgio Guerra à presidência da sigla, promovida no início do mês durante a eleição para líder do PSDB na Câmara. “É um método odioso para qualquer tipo de indicação partidária, ainda mais para o presidente nacional do partido.”

O novo senador tucano nem percebe que está fazendo o jogo do PT, que torce por uma nova  candidatura de José Serra a presidente, na  sucessão de Dilma Rousseff. Não faltam motivos:  Serra é antipático, não tem carisma e já está passando da idade. Alckmin é mais novo, mas também antipático e sem carisma. Sobra apenas Aécio, que é jovem (50 anos), simpático e com algum carisma. Essa realidade, só a cúpula do PSDB não consegue enxergar. Se Aécio tivesse sido candidato contra Dilma, o resultado seria imprevisível.

Mas os tucanos insistem em fazer o jogo do PT. Ao invés de ser unirem logo em torno da liderança de Aécio e partir para cima, ficam se bicando e se hostilizando. Com isso, a realidade é que hoje não existe oposição no Congresso. Embora a eleição tenha sido decidida apenas no segundo turno e Serra tenha alcançado 44% dos votos (um total nada desprezível), o país vive praticamente em clima de partido único, é como se não houvesse oposição. Uma situação paradoxal, pois existem 27 partidos em funcionamento e mais dois em processo de formação.

Essa situação de partido único ou de inexistência de oposição é fruto do fenômeno Lula e da falta de lideranças expressivas nos partidos de oposição: PSDB, DEM e PPS. A oposição está fraca e vacilante, porque perdeu no Senado algumas de suas principais figuras – Arthur Virgilio (PSDB-AM), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Mão Santa (PMDB-PI) e Heráclito Fortes (DEM-PI). Hoje está restrita à liderança isolada do senador José Agripino Maia (DEM-RN), com reforço de Aluizio Nunes Ferreira (PSDB-SP), Aécio Neves (PSDB-MG) e Roberto Requião (PMDB-PR), que certamente não vai aderir ao governo e terá atuação independente, ao seu estilo.

E a grande dúvida no Congresso é o senador Aécio Neves, que nunca esteve na oposição. Como  vai se sair nesse novo papel? É importante saber, porque sua carreira depende disso. Ele está de volta ao Congresso na brutal expectativa de ser um dos líderes da bancada da oposição (PSDB-DEM e PPS), caso realmente deseje disputar a Presidência em 2014.

Mas participar de uma bancada de oposição é atividade nova para Aécio Neves. Em sua carreira política de mais de 25 anos, jamais foi realmente oposicionista. Depois de sua experiência como secretário do avô, Tancredo Neves, no governo de Minas Gerais, elegeu-se deputado constituinte em 1986 pelo PMDB, durante o governo Sarney, que também era do PMDB. Quando o PSDB foi criado, em 1988, Aécio foi um dos fundadores. Mas, como o novo partido surgiu de uma dissidência do PMDB, nunca fez oposição de verdade ao governo Sarney. 

No segundo mandato de deputado (1991/95), Aécio nem teve tempo de se fazer oposição ao presidente Fernando Collor, porque estava mais preocupado em concorrer às eleições para prefeito de Belo Horizonte em 1992, que perdeu para o petista Patrus Ananias.

Em seu terceiro mandato (1994/98) como deputado federal, o PSDB já estava no poder com FHC e Aécio foi eleito presidente do PSDB mineiro. Em 1997, tornou-se líder do partido na Câmara. E nas eleições de 1998, quando FHC se reelegeu, foi o deputado do PSDB mais votado no país.

Sempre na situação, em fevereiro de 2001, tornou-se presidente da Câmara, ainda no governo FHC. E em 2002 se elegeu governador de Minas, mantendo a partir daí uma cordialíssima relação como o presidente Lula. O PSDB estava na oposição, mas Aécio, não.

Como se vê, falta a Aécio Neves a chamada “embocadura” de oposicionista, nunca fez esse tipo de política. Agora, vai ter que se virar para conseguir um desempenho à altura do que considerável parcela da opinião pública brasileira espera dele. Como costuma dizer o ex-deputado e ex-vice-governador Roberto D’Ávila, “é importante haver alternância no poder, mas também é fundamental que exista uma oposição forte, para que a democracia caminhe a contento”.

Em matéria de oposição, até agora o país está muito mal representado no Congresso. Vamos ver como Aécio Neves se sairá no Senado. Quanto à Câmara Federal, já dissemos aqui no blog que, parodiando Oswaldo Aranha, é um deserto de homens e ideias.

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