Serra muda de tom e desiste de esperar Aécio

Pedro do Coutto

Os resultados da recente pesquisa do Datafolha, que apontaram um declínio seu paralelamente a uma ascensão de Dilma Roussef, fizeram José Serra mudar o tom e o estilo de sua campanha às eleições presidenciais de outubro. A mudança começou na tarde de terça-feira quando os candidatos debateram pontos de suas plataformas com os empresários, na sede de Brasília da Confederação Nacional da Indústria.

Os grandes jornais como O Globo, Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo deram o destaque devido ao episódio, mas os pontos essenciais foram, a meu ver, mais bem focalizados pelas repórteres Cristiane Samarco e Denise Madueono, edição de quarta-feira do Estado de São Paulo. No mesmo dia, em sua coluna, Dora Kramer analisou a nova postura de Serra, agora mais disposto ao combate do que na fase pré-Datafolha.

O ex-governador de São Paulo partiu para o ataque abandonando a estratégia – falsa estratégia – de elogiar o governo na tentativa impossível de anestesiar as ações e reações do presidente Lula. Não podia dar certo, comentei. E não deu. Tanto assim que agora resolveu iniciar o ataque. Falta qualidade de gestão e planejamento – disse. Não aceito um governo em que o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central estão em posições opostas. Falta também qualidade para selecionar os investimentos públicos em conseqüência do aparelhamento político do estado pelo PT.

Vamos aguardar o reflexo da alteração de estilo para ver se, em matéria de intenção de votos, funcionou para conter sua queda. Não podemos nos antecipar aos fatos, tampouco brigar com eles. Pois, como no verso de Chico Buarque, a vida tem sempre razão.

De outro lado, mas complementando sua nova visão do panorama, de acordo com a matéria de Adriana Vasconcelos e Gerson Camaroti, O Globo de 26 de maio, José Serra passou a condenar as pressões de correntes do PSDB no sentido de quer Aécio aceite ser o vice em sua chapa. Na véspera, o ex-governador de Minas havia reagido desfavoravelmente às notícias nesse sentido e o fato, claro, poderia terminar se transformando em fator de frustração para os tucanos e partidos aliados como o DEM, PPS e agora também o PTB. Condicionar o destino nas urnas à escolha do vice ideal, mas que recusa o papel, traria um impacto fortemente negativo ao rumo de sua campanha.

E basta ver o seguinte: enquanto os integrantes do PSDB vêem Aécio como um reforço salvador, Dilma não se preocupa com seu companheiro de chapa. Ela não pressiona para que Michel Temer aceite o posto. Ele é que se apresenta como capaz de unir o PMDB em torno da candidatura da ex-chefe da Casa Civil. O que inclusive, é relativo, pois existem as cisões das regionais paulistas e pernambucanas. Orestes Quércia, candidato a senador por São Paulo, é do PMDB, mas apóia Serra. Jarbas Vasconcelos, candidato ao governo de Pernambuco, encontra-se igualmente no esquema de José Serra.

A Lei Eleitoral não permite tais dissidências, mas parece que só no papel. Na prática, dificilmente a direção nacional do PMDB irá intervir nas duas seções partidárias rebeladas. Mas este é outro assunto.

O fato essencial destes últimos dias está no fato de Serra trocar a contrição em que se encontrava relativamente a Lula e assumir a oposição. A primeira versão, de repente, deixou de dar certo. Vamos ver qual será o destino da segunda.

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