Serra vence debate vago, mas assistido por 6 milhões

Pedro do Coutto

Sem dúvida alguma, analisando-se serena e objetivamente o debate da Band na noite de quinta-feira, chegamos à conclusão de que José Serra levou a melhor, embora o confronto tenha sido vago, sem número expressivo de idéias fortes e projetos concretos. O debate, bem conduzido por Ricardo Boechat, foi mais adjetivo que substantivo.

A audiência revelada pelo Ibope, de acordo com a reportagem de O Globo ontem, atingiu a média de 3 pontos, com pico máximo de 5% da audiência. Índice baixo, mas de qualquer forma reuniu no outro lado da tela cerca de 6 milhões de eleitores. Alguém pode falar com 6 milhões de pessoas numa só noite? Impossível. Daí a importância enorme da televisão.

Leitores naturalmente vão perguntar – perguntam sempre – como cheguei a seis milhões. Explico: o Brasil tem 58 milhões de domicílios. Três por cento correspondem a quase um milhão e 800 mil residências. Com a taxa de 3,5 telespectadores por unidade, oscilamos em torno dos seis milhões a que me refiro. Porém esta é outra questão, embora não menos importante do que o debate em si.

José Serra levou a melhor. Estava mais seguro, melhor informado, mais desenvolto, preocupado em mostrar que é mais preparado que Dilma, o que a meu ver conseguiu, mas excessivamente cauteloso em não colidir com o presidente da República. Chegou a elogiar a retomada do ritmo de empregos, a recuperação da indústria naval, o programa Luz Para Todos. Reconheceu a validade das cestas básicas. Esteve bem, também, apesar de enfocar superficialmente, no tema essencial da reforma agrária.

Dilma Rousseff, tensa o tempo todo, talvez temendo perder votos no universo agrário,procurou contornar a questão. Mas foi lógica ao rebater a proposta de Plínio Arruda Sampaio que deseja a desapropriação de terras acima de mil hectares. Uma utopia absoluta. Impossível. Assistindo ao debate ao lado de Elena, minha mulher, me veio à memória um artigo magistral do jornalista Paulo de Castro, em 72, quando qualificou o candidato democrata à Casa Branca, McGovern, o candidato da Utopia. Levou um banho de Nixon. O Senador por Massachussetes anunciou que taxaria os salários americanos superiores a 3 mi  dólares mensais. Foi um desastre. Alcançou apenas 30% da votação. Perdeu em 49 dos 50 estados da América do Norte.

Voltando ao debate de quinta-feira, pouco se pode dizer de Marina Silva, a não ser sua ética e sua elegância, pois ela nada afirmou a respeito de coisa alguma. É a candidata da Ecologia. Só isso. Plínio Sampaio é o candidato de uma revolução que não vai haver. Dom Quixote contra os moinhos de vento, na noite da Bandeirantes.

Lamentavelmente o tema reforma agrária, um dos pontos fundamentais da luta sucessória de 1960 entre Jânio Quadros e o general Lott, há cinqüenta anos, foi tocado genericamente. Nem o Estatuto da Terra, lei excelente produzida por Roberto Campos – lei número 4540, de novembro de 64 – foi lembrado como solução. Conclui que a reforma agrária, de verdade, não interessa a ninguém. Nem mesmo através de uma lei puramente capitalista como aquela. Um diploma legal do século 20. Mas os proprietários de terras ainda permanecem no século 19.

Me impressionou a desinformação de Rousseff sobre o trabalho efetivo e a importância das APAES. Confundiu recuperação de crianças com necessidades especiais com ações gerais de saúde. Mas no final do confronto alcançou o objetivo a que se propunha: ampliar junto à opinião pública a informação de que ela é a candidata de Lula. Come se dizia antes: discurso pode mudar opinião, mas não o voto. Vamos ver.

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