Servidor público ou servidor do público?

Sandra Starling

A mais recente dentre as espetaculares operações da Polícia Federal, apelidada de Porto Seguro, indiciou gente graúda na república brasileira. Foi de roldão o adjunto do advogado geral da União (AGU), cuja história merece ser lembrada.

Ele fora preterido, em 2003, em competente ação de alto funcionário da Casa Civil, que descobriu inidoneidades por ele praticadas; em 2009, foi novamente vetado para alto cargo na AGU pela mesma Casa Civil, então comandada por Dilma Rousseff; e, finalmente, por obra e graça da sucessora dessa, Erenice Guerra (por onde anda?), foi emplacado como imediato de Adams, hoje, queridinho da presidente da República.

No mais, foi tragada a secretária do ex-presidente Lula no escritório de São Paulo, e sua acompanhante costumeira em viagens internacionais, mantida no cargo por Dilma. E muita gente mais, inclusive um ex-senador da República (citado em antiga matéria da revista “Veja” como beneficiário de um enorme escândalo envolvendo transações com o governo francês, no governo FHC), o consultor jurídico do MEC, a superintendente da Secretaria de Patrimônio da União e integrantes de várias agências reguladoras.

Dilma já exonerou todos de seus cargos de confiança, e, evidentemente, os que forem funcionários de carreira ainda terão de passar por processo administrativo para ser, se for o caso, demitidos do serviço público.

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NÃO DÃO EM NADA…

A mim me dá certo cansaço ler sobre esses assuntos, já que a maioria dessas bombásticas operações não dá em nada, salvo, talvez, a notoriedade de algum delegado, que logo se habilita à candidatura de um cargo eletivo. Onde estão os efeitos dos rompantes da então candidata Dilma, para quem os malfeitos não ficariam impunes e todos responderiam por suas culpas?…

Assim, de caso em caso, por enquanto, o único que deu em alguma coisa foi o mensalão do PT, que, dizem, será finalmente seguido pelos mensalões dos demais partidos que todos conhecemos de cor e salteado. Faço votos e creio mesmo que, como na campanha de um uísque, o gigante da Justiça finalmente se levantou no país do berço esplêndido, onde o via encolhidinho em toda vez que, diante dele, surgia gente dita importante.

Vamos vigiar as consequências dessas ações da Polícia Federal e dos demais órgãos competentes. E, para começar, refleti detidamente sobre o título que encima este artigo.

Professora da UFMG durante anos, fui, portanto, servidora pública. Mas nunca havia me ocorrido que a língua portuguesa deveria cunhar outra expressão para significar os milhares que trabalham nos municípios, nos Estados e na União, realizando os mais diferentes, humildes ou pomposos ofícios. Ou seja, em lugar de “servidor público”, quem sabe se, denominando-os “servidores do público”, começaríamos (timidamente, talvez, mas de maneira culturalmente significativa) a pôr na cabeça de quantos ocupem as máquinas estatais que se está ali para servir ao povo e à coisa pública, tornando esta Pindorama, de uma vez por todas, uma República? – como há mais de século já mereceríamos ser.

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