Sibilino ou grosso, tanto faz

Carlos Chagas
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No limiar de seu afastamento do poder, o presidente Lula vem acertando algumas contas, em especial na política externa. A dúvida é saber se age assim porque Dilma Rousseff poderá imprimir rumos diferentes e se o primeiro-companheiro, assim, deseja ver gravadas suas concepções, para futuras comparações.
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Tome-se nosso relacionamento com os Estados Unidos. Depois de oito anos de  sucessivos desencontros, o Lula lamenta como palavra final a crítica de que os americanos  não mudaram sua  postura diante  da América do Sul, mesmo com Barack Obama: falta-lhes visão objetiva porque mantém uma visão de Império também  com relação aos países pobres.
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As observações do presidente foram feitas durante sua despedida dos repórteres  credenciados no palácio do Planalto. Disse que esperava de Obama  mudanças objetivas, mas elas não aconteceram.  Esquecem-se, os Estados Unidos, de que 35 milhões de  latino-americanos vivem em seu território. Culpou o que chama de terceirização do governo de Washington, cheio de subsecretários para cada setor. Também aproveitou para bater no Conselho de Segurança das Nações Unidas, por conta das tentativas do Brasil de  trazer o Irã para a comunidade internacional: “não admitiram que países do Terceiro Mundo conseguissem o que eles não conseguiram, mas estávamos certos ao procurar aquele país.”
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De forma cáustica, o Lula falou de inveja e de ciumeira por parte dos Estados Unidos e da União Européia, mas não admitimos a subserviência, temos soberania. Não precisamos pedir licença a eles para acordar, espirrar ou  tossir.
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Terá sido  essa a reflexão mais contundente do presidente,  desde que assumiu, em termos de política externa.  Havia efervescência na embaixada americana, em Brasília, depois de divulgados os comentários referidos,   menos pelo seu conteúdo, mais porque os gringos ignoram a linha a ser adotada por Dilma Rousseff, que não poderá afastar-se muito do que disse seu  mentor e já quase antecessor. Pelo menos num primeiro tempo.�
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Fica difícil imaginar  a grande imprensa e o empresariado  concordando com os termos expostos pelo Lula, mas, como sempre, ele falou para o sentimento nacional, para a maioria das opinião pública e para a voz rouca das ruas. Ontem, já recebeu as primeiras farpas e até alguns petardos daqueles que se imaginam formadores de opinião, mas não seria precisamente esse o resultado pretendido por ele? A primeira viagem ao exterior programada por Dilma Rousseff seria aos Estados Unidos,  ainda que agora, garantia não exista mais.  Sibilino ou grosso, tanto faz, o Lula alcançou seu objetivo.

FICAM 

 Tudo indica que os  comandantes em chefe das três forças armadas continuarão em suas funções, recomendados que foram pelo ministro Nelson Jobim à presidente Dilma Rousseff. O titular da Defesa conta com o apoio de generais, almirantes e brigadeiros, considerado, de longe, o melhor que já exerceu a função, desde que criada. Como a recíproca é verdadeira, reina a paz no setor militar. Serão prestadas as continências  devidas àquela que a partir de janeiro será a comandante em chefe das forças armadas.

Escorregões não serão tolerados, nem da parte deles nem dos provenientes do PMDB, PP, PSB, PDT e penduricalhos. A postura da nova presidente não será tolerante como a do presidente Lula, diante dos companheiros e dos não-companheiros.

BARBA PROVISÓRIA

No Rio, para as festas de Natal, o ex-governador e senador eleito,  Aécio Neves, foi flagrado de barba crescida, que nunca usou. Espera-se venha a  cumprimentar  a navalha antes de fevereiro, quando toma posse. Se dependesse do avô, nem teria experimentado provar o novo figurino. Aguarda-se seu desembarque em Brasília, ainda em janeiro, para a comprovação. Quem se divertiu com as fotografias foi  o presidente Lula, que a um auxiliar comentou: “eu não disse que ele chegava?”

UM CERTO TEMOR

Registra-se no PT um certo temor, menos porque o partido não deixará de ser aquinhoado com muitas nomeações para o segundo escalão do governo, mais porque a relação entre Dilma e os ministros do partido parece que serão protocolares. À exceção, é claro, dos ministros de sua cota, do chefe da Casa Civil ao Secretário Geral, ao da Justiça e à do Planejamento. É bom que os demais tomem cuidado.

 

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