Silêncio de Lula é constrangedor e o presidente do Supremo o chama às falas (como se dizia antigamente).

Carlos Newton

O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Carlos Ayres Brito, afirmou que é preciso aguardar a manifestação do ex-presidente Lula sobre a conversa com o ministro do Gilmar Mendes, na qual o petista teria pedido o adiamento do processo do mensalão.

“O diálogo foi protagonizado por três agentes, três pessoas. Dois desses agentes já falaram. Dois já explicitaram sua interpretação dos fatos. Falta o terceiro. Aguardemos a fala do terceiro. Ouçamos o terceiro”, disse Britto, ao ser indagado sobre a conversa após proferir palestra no 5º Congresso da Indústria da Comunicação, em São Paulo.

Segundo reportagem da revista “Veja”, Mendes relatou que, em encontro em abril, Lula propôs blindar qualquer investigação sobre o ministro na CPI que investiga as relações de Carlinhos Cachoeira com políticos e empresários. Em troca, o ministro apoiaria o adiamento do julgamento do mensalão.

Lula não se defende, continua calado. Limitou-se a divulgar uma nota oficial do Instituto Lula, escrita pelo ex-ministro Luiz Dulci, na qual o ex-presidente tenta alegar que o encontro com Gilmar Mendes no escritório de Nelson Jobim teria sido casual.

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REPERCUSSÃO NEGATIVA

Outros ministros do Supremo já se manifestaram sobre o assunto. Celso de Mello, por exemplo, afirmou que, se estivesse no cargo, o ex-presidente Lula poderia sofrer um processo de impeachment.

“Se ainda fosse presidente da República, esse comportamento seria passível de impeachment por configurar infração político-administrativa, em que um chefe de poder tenta interferir em outro”, disse Celso de Mello ao site Consultor Jurídico.

Já o ministro Marco Aurélio Mello afirmou à Folha que nunca deveria ter ocorrido o encontro entre os dois.

“Está tudo errado. É o tipo de acontecimento que não se coaduna com a liturgia do Supremo Tribunal Federal, nem de um ex-presidente da República ou de um ex-presidente do tribunal, caso o Nelson Jobim tenha de fato participado disso”, disse o ministro.

A oposição já pediu investigação na Procuradoria Geral da República sobre o ex-presidente. DEM, PSDB, PPS e PSOL afirmam que Lula cometeu três crimes e precisa ser responsabilizado judicialmente.

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JOBIM ARMOU O ENCONTRO

A pedido de Lula, a reunião ocorreu no escritório de Nelson Jobim, ex-ministro do Supremo. Lula disse a Mendes, segundo a “Veja”, que é “inconveniente” julgar o processo agora e chegou a fazer referências a uma viagem a Berlim em que o ministro se encontrou com o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO), hoje investigado na CPI.

Jobim confirmou o encontro em seu escritório, mas inicialmente negou o teor, em entrevista ao Estadão. “Não houve essa conversa. Foi uma visita de cordialidade. Lula queria dar um abraço em Gilmar porque ele foi muito colaborativo [com o governo]” disse ele, afirmando ter presenciado o encontro do início ao fim. Jobim alegou que o encontro foi coincidência e Gilmar Mendes “estaria sempre” em seu escritório, porque estariam fazendo juntos um trabalho sobre a Constituição de 88, vejam só quanta desfaçatez.

Depois, em outra entrevista, a O Globo, Jobim acabou se contradizendo. Admitiu que o encontro de Lula e Mendes fora acertado por ele, a pedido de Lula, e disse que os dois só conversaram a respeito porque ele (Jobim) teria provocado: “Quem tocou no assunto Mensalão fui eu, no meio da conversa, fazendo a seguinte pergunta: Vem cá, essa coisa do Mensalão vai ser votada quando?”

Depois dessa mancada, que só complicou a situação de Lula, agora Jobim não dá mais entrevistas: “Não tenho nada a declarar. Já dei todas as declarações. Eu não vou falar mais sobre esse assunto, já está tudo encerrado”, disse ontem Jobim, no intervalo da reunião da Comissão nomeada pelo Senado para discutir o pacto federativo, da qual é presidente.

Com amigos como Nelson Jobim, Lula nem precisa de inimigos.

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