Silncio pode ter custado o segundo turno

Pedro do Coutto
O silncio do presidente Lula morte por greve de fome do dissidente cubano Orlando Zapata, ocorrida em Cuba, por vir a custar a disputa ao segundo turno por parte de sua candidata Dilma Roussef, to forte foi a reao brasileira e internacional quanto vida humana, aps 82 dias de priso. No que se trata apenas de uma reao poltica, mas de uma reao humana contra um preso poltico cuja nica acusao era a de ser um dissidente castrista cujo governo de Havana hoje est entregue a seu irmo, Raul. No pode haver tortura pior e mas continuada do que esta quando algum se deixa morrer de inanio resistindo at aos apelos do prprio organismo. J houve casos, como na Inglaterra quando a primeira ministra Margareth Tachter determinou a alimentao forada de prisioneiros para exatamente impedir o desfecho que aconteceu em Cuba.
Todos os jornalistas escreveram sobre o assunto, entre eles Clvis Rossi, Eliane Catanhde, Carlos Heitor Cony, Dora Kramer, entre outros. Poucas vezes se percebeu tal unanimidade, sobretudo marcada de um lado pela covardia de, outro pelo estoicismo. A pergunta que cabe como se deixa algum morrer atravs de um suicdio lento e doloroso. O exemplo no poderia ser pior, sobretudo para algum como Lula, em 1970, esteve prisioneiro no Brasil, exatamente em funo de uma greve de metalrgicos em So Paulo. Naquele tempo, a esquerda fidelista era a favor das greves. Hoje, contra. At mesmo que leva a morte pela fome depois de 82 dias. O silncio brasileiro foi vergonhoso! Nem uma s palavra de abafamento, como as que se ouviram em pases em que brasileiros transportando txicos foram detidos e condenados. Nenhuma palavra como a proferida a favor do italiano Cesare Battisti, condenado na Itlia por quatro homicdios. Nenhuma palavra contra a morte por seqestro. No se concebe a comparao entre uma atitude e outra.
O que terpassado na cabea do governo brasileiro? No haveria necessidade de uma manifestao quantas so feitas ao redor do mundo. Nada. S silncio como resposta. H outros cubanos em greve de fome. Nenhum por crimes polticos. Apenas em funo de uma dissidncia que ocorre em qualquer parte do mundo. At na URSS de Kruschov, o poeta Soljenitz foi condenado por ter escrito contra o regime, o Arquiplago Gulag. Conhece-se mortes semelhantes na Alemanha de Hitler, acompanhados de queima de livros. Na China, nem a dissidncia foi punida pela morte pela fome. Temos um procedente cubano, que h 51 anos atrs lutou exatamente pela liberdade e pelos crceres imundos do governo de Fulgncio Batista. Hoje, mais de meio sculo depois, Fidel e Batista se encontram numa esquina da histria. Os mtodos no mudaram. Os papis se inverteram. O heri de Sierra Mestre de ontem, que foi capaz de enfrentar a estpida invaso da Ilha dos Porcos transforma-se em um ditador igual ao do passado. Mas com uma diferena. O silncio brasileiro em ano eleitoral, ainda por cima.
Com isso, uma eleio que parecia ganha por Dilma Roussef, transformou-se numa dvida no segundo turno. Poltica assim. O que parece decidido ontem pode mudar amanh. Depende dos rumos tornarem os fatos de hoje.
This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.